Iatamyra Freire: "A escrita das mulheres pretas está mais objetiva e forte"

13/01/2021

Por: CEFAS CARVALHO
 
Escritora e poeta, Iatamyra Rocha Freire vem se destacando pela militância pela Literatura produzida por mulheres negras, tema que ela falou nesta entrevista assim como sobre produção durante a pandemia e projetos para 2021. Confira:
 
 
Você conseguiu produzir literatura durante o confinamento? Se sim, como foi esse processo?
 
Sim, consegui. O processo foi bem doloroso, não dá para ficar imune a dor do outro. Isso reflete no que escrevo. Acredito que, de certa forma, a dor foi substrato dos versos que estavam ali dizendo o medo da morte, contando esse tempo que estamos vivendo e oferecendo um pouco de luz e esperança apesar do caos. Escrever nesse momento é difícil, mas, também é salvação. Não sei se conseguiria ficar bem rodeada de tanta dor, desesperança e escuridão se não escrevesse saídas através dos poemas.
 
 
Como avalia a situação das escritoras negras no Brasil atualmente?
 
A escrita das mulheres negras, pretas, está mais objetiva, forte,  estamos produzindo como nunca estivemos. Tudo o que ficou engasgado durante séculos, estamos falando em todos os estilos literários, falamos nossa escrevivência (salve Conceição Evaristo!) e mesmo com o mercado editorial sendo difícil, há sim, muitos espaços sendo construídos, abertos, apesar que,não somos medidas com os mesmos parâmetros da escrita feita por mulheres brancas pelo setor editorial. Estamos com muitas vozes negras potentes no mercado literário, vozes como Lubi Prates, Cristiane Sobral, Jarid Arraes, Eiana Alves Cruz, Miriam Alves, Nina Rizzi, Bianca Santana, entre outras. Há muitas pequenas editoras que apostam na escrita feita por mulheres negras, pretas, como a editora Malê entre outras.
 
 
Quais seus projetos literários para 2021?
 
Estou terminando meu primeiro livro solo, livro de poemas inéditos tendo a ancestralidade como foco central, o livro já é projeto de alguns anos mas, só agora no ano de 2020 retomei a construção dele com força total. Ele é fruto da inspiração, amadurecimento da minha escrita, mas também de muita pesquisa.
Sobre algumas lendas do povo iorubá, acredito que no mês de março ele estará totalmente pronto para tentar um nascimento viável  ou seja, que ele consiga ser publicado e alce voo. Além do livro tenho um projeto de podcast que será sobre literatura negra no primeiro semestre deste ano, e também pretendo retomar  o projeto picnic corpo e mente, no bairro de nova parnamirim, o projeto consiste em estímulo à leitura, meditação, e construção da consciência ecológica: Nos reunimos em torno de um farnel, e fazemos leituras, trocamos livros, escrevemos versos, distribuímos mudas de plantas, e meditamos (a meditação é ministrada com  grande parceria  da prof. de yoga Vitória Fonseca).
 
 
Acredita que a pandemia e o isolamento serão temas comuns na literatura a partir de agora?
 
Sim, acredito, essa é a realidade que vivemos e a escrita tende a refletir essa realidade.
 
 
Acha que a arte tem um papel sócio-político?
 
Sim, totalmente. A arte deixa exposta a ferida social aberta, a arte questiona, educa, a arte transporta e transforma o meio; a arte é ferramenta democrática, ela retrata todas as dimensões de um povo é fonte de saberes,  ao mesmo tempo que diz as lacunas  causadas pela necropolítica.  "A arte existe para que a realidade não nos destrua” 
como disse Nietzsche.