Alê Motta: ´A internet tem papel protagonista em encurtar distâncias literárias`

24/01/2021

Por: CEFAS CARVALHO
Foto: Arquivo pessoal
 
 
Nascida em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro e morando em Niterói, no mesmo Estado, Alê Motta é arquiteta formada pela UFRJ e vem se destacando no cenário cultural pela militância nas redes sociais e por livros de contos curtos como "Interrompidos" e "Velhos", (ambos pela Editora Reformatório, 2020).  Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, organizada pela escritora Adriana Lisboa. Em entrevista ao Portal PN para a série que aborda a Literatura produzida em um país de dimensões continentais e em tempos de pandemia, Alê falou sobre os tempos atuais, particularidades e projetos. Confira:
 
 
Estamos chegando a quase um ano do tempo de Pandemia e algum isolamento social causado pelo Covid-19. Como observa a literatura produzida no Brasil neste período?
 
Estamos vivendo um tempo singular. Doloroso, confuso. Mais do que a literatura do momento, fico pensando no que tudo isso vai causar em todos nós que escrevemos. 
Muitos escritores estão conseguindo produzir bastante, outros não. Vejo muita coisa boa, mas fico na expectativa da produção literária após tudo isso, porque nenhum de nós está imune ao que se passa. 
 
 
Você foi diagnosticada com Covid e se recuperou. Como foi essa experiência?
 
Sim. No final de novembro do ano passado (2020). Foi bem difícil. Estava saindo apenas para fazer fisioterapia. Mesmo sendo bastante cuidadosa, peguei Covid.
Sou asmática desde criança e isso complicou a situação. No sexto dia  piorei demais. Quando fui para o hospital precisei de imediato do oxigênio. Fiquei seis dias no oxigênio, tive 70% dos meus pulmões tomados. Vi de perto o hospital muito cheio - com pessoas de todas as idades, vi o cansaço dos profissionais de saúde, especialmente os enfermeiros. Quando a doença nos atinge de modo grave, ficamos impotentes. É horrível. Foram dias em que eu não conseguia fazer nada sem ajuda.
 
É triste demais ver o descaso de tantos com a doença. Ver o despreparo do governo. Aqui em casa somos três: meu marido, meu filho e eu. No mês de abril do ano passado meu marido testou positivo - ele é de serviços essenciais e pegou no trabalho - e ficou com febre dezesseis dias. Não precisou de hospital, a parte respiratória não foi atingida, mas teve vários outros sintomas. Ficou dois meses sem paladar. E muito cansado. Meu filho teve Covid na mesma época que eu e ficou assintomático. Ou seja - não dá para ter ideia do que vai acontecer. Isso deveria ser mais do que um alerta para todos. 
 
Quero ressaltar que fiquei muito grata e emocionada com o apoio, orações e torcida de muitos colegas escritores, quando eu estava com Covid. Demorei uns dias para conseguir agradecer, porque eu não tinha forças para ler mensagens. Vou guardar esse carinho para sempre.  
 
 
 Você ganhou muitos elogios pelo "Velhos", um livro de contos conceitual, onde os textos tratam do tema da velhice. Fale sobre este livro, seu processo de escrita e publicação.
 
Cefas, o meu VELHOS nasceu num lançamento on-line em março, no início de tudo isso que estamos vivendo. E ele me traz muitas alegrias. 
 
Foi publicado pela editora Reformatório, mesma editora que publicou meu INTERROMPIDOS. A Reformatório é a editora do meu querido amigo e editor Marcelo Nocelli, e é uma das valentes da literatura brasileira contemporânea.
 
Como já falei algumas vezes, meu livro nasceu de um desafio. O escritor Marcelino Freire me desafiou a escrever sobre a velhice. Não notei que me envolvi com o projeto imediatamente. Estava trabalhando em outro livro (ainda inédito) mas o VELHOS nasceu primeiro. Eu considero o tema muito relevante. 
 
Gosto de trabalhar com mais de um projeto ao mesmo tempo. Uma semana com um, outra semana com outro. Esse saltar de semanas me presenteia com mais clareza para fazer ajustes nos textos. Escrevo e me distancio, volto a me aproximar. Faço isso algumas vezes até que sinto – o texto está pronto.
 
 
Percebe-se que os contos do livro destroem o paradigma do idoso frágil e bondoso, alguns dos personagens são cruéis, sem caráter. Como foi dar essa amplitude aos personagens e sair dos lugares comuns do "idoso bondoso"?                
 
Para mim seria impossível escrever de outro modo. É uma tolice tratar todos os idosos como bonzinhos. Não é a realidade.
 
Temos velhos (vou usar o termo velhos, porque nunca falamos – estou ficando idoso e sim – estou ficando velho) de todo tipo no mundo. Bondosos, amorosos, marcantes, cruéis, sarcásticos. Idade não é passe livre para a maldade. Por que não falar de todos?
 
 
Como observa o ´velho` tratado pela literatura, brasileira e internacional? Recebe o enfoque amplo e complexo que merece?
 
Não gosto da versão “velhinho frágil e decadente” e nem da versão  “ele é incrível, fez tanto no seu passado”.  A velhice não é isso. 
Tenho certeza de que é um tema vasto, com muito a ser explorado. 
 
Acredita que a literatura brasileira está mais `interligada` entre estados e regiões com a tecnologia e internet ou ainda vê um ´domínio` literário mercadológico do eixo Sul-Sudeste?
 
Sim, há um domínio literário, mas isso está mudando e fico muito feliz. A mudança é lenta, não no ritmo que seria o ideal. 
 
Somos um país gigante, com muito talento ainda a ser descoberto e muita gente produzindo coisas maravilhosas. 
 
E a internet tem papel de protagonismo nisso. Ela encurta as distâncias.
 
 
Quais os seus projetos literários para 2021?
 
Cefas, sigo falando do meu VELHOS, sigo escrevendo, ajustando dois projetos ainda inéditos e  tentando encarar os desafios que vão surgindo. Amo desafios.