O Pium já não é mais atrasado

08/02/2021

Por: ELIADE PIMENTEL
 
Tem igreja, escola e mercado... Vou lhes convidar a iniciar um passeio pelo jardim da capital. Um dos locais que eu mais amo na vida, situado a uns 20 km de Natal. De vez em quando, falo um pouco da chácara que minha família tem no distrito litoral de Pium, em Parnamirim, situada às margens da Rota do Sol (RN 063), mas hoje vou me debruçar mais sobre esta localidade, a qual considero mágica. Costumo dizer que por aqui temos mil e um portais, que nos levam a outras dimensões. A começar pela via de acesso. 
 
Saindo do bairro de Ponta Negra, que apesar da visão bucólica do Morro do Careca, é uma região com aspecto bem urbanizado, começamos a viajar para outra atmosfera. Minha família e eu frequentamos este pedaço de paraíso há mais de 30 anos (nunca sei ao certo em que ano da década de 80 meu pai comprou o terreno). Minha mãe tinha um sonho de ter um quintal cheio de fruteiras, de preferência com água por perto. Não tivemos a oportunidade de estar às margens do rio, mas temos a sorte de estarmos próximos do rio e do mar.
 
Quando éramos crianças e pré-adolescentes, minha mãe tinha o hábito de fazer comida no fim de semana e nos levava para passar o dia no riozinho. Ou melhor, são dois rios: um de águas mais claras que o povo diz que é o rio branco (que não sei o nome) e outro chamado de preto, que na verdade se chama Riacho Taborda. Num determinado ponto, eles se unem e seguem o curso. O povo chama de rio Pium mesmo. Aqui a gente se baseia pelas pontes. Primeira ponte, segunda ponte. E temos a Colônia de Pium, que pertence a outro município, Nísia Floresta. 
 
Quando conhecemos o lugar, Pium era do jeito que Dona Edite resumiu no samba Zu Zun Zum. Sambista nativa, que partiu em 2011, irmã da minha vizinha Beta, ambas netas do antigo proprietário, que vendeu essa relíquia de quintal para nós. Na sua música, ela diz “O Pium não é mais atrasado, tem igreja, escola e mercado”. Mas, era só isso, praticamente, toda a “evolução” do imenso sítio a céu aberto, de solos férteis, rico em frutas regionais como manga, pitomba, seriguela, mangabas etc. Na música, ela faz menção ao zum, zum, zum dos mosquitos chamados Pium, que dão nome à comunidade. 
 
Não havia água encanada e lembro que um chafariz situado a uns 50 metros de nossa propriedade, onde hoje é a Unidade Básica de Saúde (UBS), salvava todo mundo. Buscávamos água no balde e às vezes levávamos o carrinho de mão, para facilitar. Quando queríamos nos amostrar, tentávamos equilibrar dois baldes com um pau no ombro. Confesso que perdi muita água dessa forma. Bom foi uma amiga, para quem eu toda hospitaleira trouxe um balde para ela tomar banho. “Isso daí só dá para eu lavar meu cabelo”. E eu, muito cansada, disse: então fique à vontade para ir buscar outro balde.     
 
Naquela época, o transporte público era a Viação Campos, do senhor Manoel Domingos Campos (hoje o nome fantasia da empresa é MDC). Era uma lenda. Aliás, é ainda até hoje. Lembro de uma sexta-feira santa em que o ônibus não passou, no bairro do Alecrim, onde morávamos, e tivemos que mudar o roteiro para a praia da Redinha. Depois, descobrimos que o proprietário era católico e “guardava” o dia da paixão de cristo. Coisas de Pium. No nosso terreno, havia uma casinha de taipa. Muito fofinha. Um dia, logo depois de eu me formar em Comunicação, com meus 22 aninhos, percebi que vários amigos moravam em Pium. 
 
Pedi autorização a minha mãe e ocupei a casinha por um tempo, depois chegou meu irmão com mulher e filha, até que comecei a dar meus giros por aí, e depois voltei para morar de novo. Em todo esse tempo, eu fui me apaixonando cada vez mais. Quando me refiro aos “portais” é porque de vez em quando, passeando pelos recantos de Pium, a gente tem a impressão de que de uma hora para outra somos transportados para outro lugar. Há uma energia diferente por aqui, que atrai pessoas diferentes também. E quando digo “jardim da capital”, é porque tudo aqui parece mais colorido. A linha que separa Natal e Pium é muito clara: no caminho, pela Rota do Sol, é perceptível a mudança de clima, de aura, de perspectiva. 
 
Temos espírito de comunidade. Grupo de caronas, Pium Solidário, Amigos de Pium e Mulherada do Pium são os grupos virtuais os quais tenho presença cativa. Nativos e forasteiros se comunicam muito bem. Somos entrosados. Aqui tudo vira uma resenha, como ir a Natal, por exemplo, por conta do sistema de transporte, que até já melhorou bastante. Temos praia, de Cotovelo, a bem da verdade, mas nós assumimos um certo trecho como sendo Praia de Pium. Temos rios e lagoas por aí. Tem até um caminho quase secreto que leva a uma cachoeira. 
 
Floras, temos dezenas. Hortas, idem. Se querem saber onde comprar mudas baratas e hortaliças frescas, se acheguem. Nas minhas voltinhas por aí, muitas vezes trago sementes, ou uma plantinha roubada. Terapias holísticas, yoga, massagem, bioconstrução. Temos várias práticas alternativas por aqui. Ah, e a gastronomia... Que delícia viver no Pium. Do açaí no quiosque perto de casa, passando pelas usuais pizzarias, sanduicherias e restaurantes de comidinha afetiva, aos cafés e bistrôs charmosos. Sem falar que tudo tem um quê de ponto turístico. Pelo menos para mim e para meus amigos. Ou eu faço parecer que sim. 
 
Até a conveniência do posto de gasolina é um ponto de encontro, um local para um lanche rápido, uma fuga do calorão lá fora e um salve quando estamos sem net. Ah, Pium, quantas vezes eu falei que me sinto uma menina rica, daquelas cheias de boneca para brincar. Digo isso porque tenho o prazer de morar numa chácara cheia de árvores frutíferas. Quando criança, uma de minhas maiores alegrias era subir nos pés de seriguela. E até hoje, quando não alcanço as frutas maduras, dou um jeitinho de subir. Isso me mantém viva, tanto quanto reservar um momentinho para ir à praia. 
 
Tenho tanto ainda a falar, da nossa intensa relação... Outro dia, continuamos esse passeio com sabor de fruta madura caída do pé, porque ainda não falei da Baiana do Acarajé, da feirinha de frutas, das festas de Santa Luzia, do bolo preto da Ivana, que vende lanches na feirinha, e do pão assado no forno à lenha da panificadora Pium. Você é meu verdadeiro “ópium”. Meu vício. Minha paixão.