Cinthia Kriemler “A literatura precisa incomodar e fazer o resgate histórico"

06/03/2021

Por: CEFAS CARVALHO
 
Nascida no Rio de Janeiro, mas residente em Brasília desde 1969, Cinthia Kriemler é contista, cronista e poeta e já está consolidada entre os grandes nomes da literatura brasileira atual. Graduada em Comunicação Social e Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social (Universidade de Brasília, UnB) foi  Analista Legislativo da Câmara dos Deputados. Tem diversos livros publicados, entre eles Exercício de leitura de mulheres loucas (Poesia, 2018); Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017), que foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na escuridão não existe cor-de-rosa (Conto, 2015), este, semifinalista do Prêmio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos, 2014) e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). Em conversa com o Portal PN, ela falou sobre projetos, mulheres protagonistas de seus textos, literatura atual e muito mais. Confira:
 
 
Em seus romances e em muitos dos seus contos, percebemos mulheres protagonistas. Existe uma unidade nestas mulheres? Na mesma pergunta, considera importante colocar a voz da mulher em destaque, se impondo?
 
Existe. São mulheres que sofrem algum tipo de violência. Física, psicológica, moral. Independentemente do meio social ao qual pertençam. Não importa se são ricas, pobres, negras, brancas, homossexuais, cultas ou incultas, meninas, mulheres ou velhas. A mulher sempre sofre algum tipo de violência, desde o seu nascimento até a sua morte. Essa ainda é, infelizmente, a herança das sociedades machistas, sexistas, misóginas: infligir pressão sobre as mulheres por meio da dor. A intenção vai da dominação à punição, passando pela destruição física e psicológica, muitas vezes. O homem ainda não está pronto para ombrear. Para aceitar o que não tem mais volta. Que mulheres entenderam a sua força e os seus direitos. E que aquelas que ainda não entenderam têm agora exemplos nos quais podem se basear para mudar a sua vida no momento em que estiverem prontas. Nesse sentido, coloco, sim, a voz da mulher em destaque.  A voz daquelas que são oprimidas para não denunciar os desmandos e crimes, mas também a voz daquelas que se sobressaem porque escapam do jugo.  É um jeito de mostrar que é possível. Ponto e  contraponto. É assim que eu compreendo o universo do qual faço parte. Luta e retomada do próprio corpo e do próprio destino. Mulheres são iguais. Mulheres decidem. Mulheres comandam.  Mulheres dizem não. Mulheres trabalham fora, se sustentam, sustentam a família. Mulheres viajam sozinhas. Mulheres bebem — e muitas bebem sozinhas. Mulheres fazem o que  querem sozinhas. E não querem ser incomodadas ou desautorizadas ou desqualificadas pelos homens machistas (e, infelizmente, também por muitas mulheres machistas). Isso não significa afastar o companheiro ou a companheira. Significa impor limites. 
 
 
Seus romances e parte dos contos abordam famílias desestruturadas, compulsão sexual, abuso sexual de crianças, entre outros temas fortes. É o papel da literatura trazer estes temas à tona e estimular o debate e a denúncia?
 
Para mim, é. Assim como também considero papel da literatura o resgate histórico, a denúncia contra o racismo, contra a xenofobia, a velhice abandonada, a depressão, as questões da terra.. Pertence à literatura tudo o que o autor deseja que pertença. Ficção é se apossar da realidade ou criar uma realidade que permita conexão com o leitor. A literatura precisa incomodar. Para mim, precisa. Suscitar no leitor curiosidade, dúvida, identificação, alerta, intenção. A minha escolha, quando escrevo, recai em temas que trazem os invisíveis para a luz. Nas mazelas sociais, na falta de segurança, na violência  sim b todos os seus aspectos. É o meu jeito de combater a superficialidade. A superficialidade é uma alienação perigosa. 
 
 
Você é poeta, romancista e contista. Em qual gênero literário se sente mais à vontade escrevendo? 
 
Contos. Sem dúvida. Os contos são o berço de toda a minha escrita. É deles que eu venho e para eles que eu volto com bastante frequência. Onde me sinto à vontade. Creio que escrever romances também é bom. Gosto também da narrativa longa. Mas nos contos, por serem mais rápidos, vejo uma possibilidade maior de multiplicar a pluralidade de conteúdos. Faz tempo que abandonei a estrutura tradicional do conto (quanto ao seu desenvolvimento). Mas, mesmo assim, mantenho alguns traços da narrativa curta quando escrevo nesse gênero. 
 
 
Percebe-se que você é muito ativa nas Redes sociais, principalmente na divulgação de Literatura, tanto a sua como a de outras pessoas. Qual o papel e a relevância destas redes do fomento à leitura e divulgação da literatura produzida atualmente?
 
Eu poderia dizer que as redes sociais são, praticamente , o único meio disponível hoje em dia para se divulgar o trabalho dos pequenos — incluo-me entre eles. Mas acho que falar assim inclui um desprezo e uma arrogância com os quais eu decididamente não concordo. A importância das redes, apesar de todos os seus defeitos, é muito grande. Para mim, só o fato de estarmos nos comunicando em tempo real já é muita coisa. Eu colho e produzo informações e opiniões no exato momento em que elas são emitidas. Um outro exemplo dessa importância é exatamente isso que você falou: poder conhecer e divulgar não somente o meu trabalho como também o trabalho de outros autores e autoras. Eu acredito firmemente que não é possível sobreviver nas redes aquele que só fala de si mesmo. Aquele que evidencia um narcisismo perigoso. É claro que todos nós queremos promover os nossos escritos, o nosso trabalho. Isso é inequívoco. E é bom. Mas é igualmente bom ler o outro, conhecer o que o outro diz, saber o que o outro escreve. E divulgar, se e quando for o caso (respeito a subjetividade das preferências de cada um). As redes sociais permitem essa troca, e com rapidez. É claro que nada disso substitui a presença física. Nada substitui o olho no olho, o ouvir a voz da outra, do outro, o encontro. Mas já ajuda bastante. Fico imaginando, por exemplo, o que seria de nós, escritores, durante essa pandemia, se não nos colocássemos nas redes sociais. Existem os que se isolam. Não é o meu caso. Acho que acelerar ou reduzir o ritmo da nossa presença na internet é desejável, é uma questão de bom senso. Mas estar lá é necessário. E é bom. 
 
 
Você nasceu no Rio de Janeiro e mora em Brasília. Esse trânsito entre cidades influenciou sua escrita, sua maneira de ver a realidade?
 
Não. Eu vim para Brasília com 11 anos, época em que ainda não escrevia. Mas não se pode negar que as nossas raízes influenciam a nossa escrita. Percebo em mim uma liberdade de encarar e levar a vida que é muito do carioca. O carioca olha para o mundo sem medo. E diz: quero experimentar. Ele é aquele que conversa com todo o mundo. Que dá a xícara de açúcar a um vizinho que precisa. Que sorri para o turista que nunca viu antes. O carioca é dono de uma sociabilização muito bonita. Como também é dono de vícios e defeitos inquestionáveis. Um sobrevivente numa cidade sitiada por desvarios políticos, violência policial e grande desigualdade social. 
 
Por outro lado, tenho uma forte carga mineira nos genes. Sou filha de uma mãe mineira que morou por 30 anos no Rio. Ela era bem liberal. Mas minha família mineira é das que vão à missa todos os domingos. Aprendi com esse meu lado mineiro a pedir à benção aos pais, a respeitar o papel dos mais velhos (sem precisar concordar), a não discutir nem chorar em público, a ser orgulhosa. Afora tudo isso, o fato de eu morar em Brasília há 50 anos fez de mim uma cidadã do mundo. Por mais defeitos que possam enxergar aqui, na cidade que adotei como minha, foi aqui que eu aprendi o que significa realmente a mescla de todas as regiões do país. Infelizmente, o que nos condena é a política. 
 
Tudo isso, esse palavrório todo, para dizer que vivencio de forma eclética as várias realidades que me compõem. E que a minha escrita é consequência disso, mas não é só isso. 
 
 
Como observa a literatura produzida fora do eixo Sul-Sudeste? Esta literatura "longe das capitais" é divulgada?
 
Sou absolutamente fã da literatura nordestina. De mulheres e de homens. Eu acho que são autores que têm um jeito diferente, peculiar e muito atraente de escrever. Mas também sou encantada com a escrita de muitos autores do Sul e do Sudeste. Enfim, o que eu quero dizer é que não me interessa ficar criando e delimitando territórios — o lado cachorro que existe em mim também é fêmea. Existe literatura ótima em todos os lugares. Da mesma forma como existe literatura que não me interessa em todos os lugares. Eu não gosto de usar o termo “literatura ruim”. Literatura é questão subjetiva. Vai da vivência, da preferência, da experiência emocional de cada uma, de cada um. Então, divido o que leio em aquilo de que gosto e me provoca, e aquilo que não me toca, não me atrai. Mas reconheço que existe um grande abismo entre aquilo que é feito pelo eixo sul-sudeste e o que é feito no eixo norte-nordeste. Incluo nesse último eixo a minha região, o centro-oeste. Existem diferenças de divulgação, de interesse dos leitores, de oportunidades e por aí afora. O trabalho de um autor ou autora para divulgar a sua obra fora do eixo sul-sudeste é dobrado. Somos um país culturalmente regionalista. Um país que ainda acredita que apenas São Paulo e Rio de Janeiro sabem escrever e produzem literatura de qualidade. Mas, a duras penas, isso está mudando. Só lamento que seja tão lentamente.           
 
 
Conseguiu produzir Literatura durante este período de pandemia e isolamento? E como acredita que este período vai impactar a produção literária em geral?
 
Produzi muito pouco. Tive, e tenho, como todo mundo, momentos de maior ou menor concentração. Olho ao redor, ouço um noticiário e já não consigo mais escrever. Desesperança com a pandemia, desesperança com a destruição do meu país e com a maldade consciente do atual governo, desesperança com o ser humano de modo geral. Aí, abraço meus dois cachorros, leio poesia, assisto à um filme e me reconstruo um pouco. Recentemente, consegui retomar a escrita de um romance. Acho que agora, pelo menos, consegui separar a escrita da desesperança. Vamos ver se consigo continuar assim.      
 
Quanto a este período de tragédia humanitária, eu acredito que vai impactar pelo caos a produção literária. O caos é feito de dor, sofrimento, conflito e reflexão. Mas, ironicamente, o caos, para quem escreve, também é motor de propulsão. A literatura é fruto e retrato dos tempos. E como este é um tempo de tragédia, a literatura do agora é/será resultado  da percepção e dos efeitos dessa tragédia sobre o nosso emocional. Mas, enfim, impossível saber. Estamos sendo assolados por alguma coisa nunca vivida antes. As sequelas deste tempo ainda podem ser maiores ou diferentes das que eu consigo enxergar hoje. Só sei é que a literatura é uma sobrevivente obstinada. Resiste. Renova-se.