Viviane Santiago: ´Publicar obras sobre a força feminina é um privilégio`

22/05/2021

Por: CEFAS CARVALHO
 
Viviane Ferreira Santiago é mineira de Belo Horizonte, mas vive em São Paulo há 25 anos. Tem formação em Jornalismo e Letras com especialização em Literatura Brasileira. Lançou livros como  “A Linha Amarela do Metro”, publicado em 2018, e que foi agraciado pelo PROAC 2017 e finalista do prêmio Guarulhos de Literatura nas categorias “escritor do ano” e “livro do ano”; “As Dez Marias”, publicado em 2019, que foi agraciado em 2018 pela premiação inédita do finado Ministério da Cultura com a temática dos 200 anos da independência do Brasil. E no mesmo ano, foi outra vez agraciada pelo PROAC com o livro “As meninas de 22, maiores que o mundo”. Recentemente lançou "Pó", que foi rimeiro Lugar no Prêmio Amplitude de Literatura. Para falar sobre esses livros, posição da mulher na literatura e no mercado editorial e muito mais, ela conversou com o Portal PN. Confira:
 
 
No seu livro ´As dez Marias` além de experimentação narrativa você aborda de maneira ousada e pouco convencional a trajetória de mulheres silenciadas pela História. Como foi a ideia deste livro e como foi escreve-lo?
 
*Em 2018, o extinto Ministério da Cultura, agora pasta, lançou o 1°Prêmio literário em reverência aos 200 anos da Independência do Brasil, os livros inscritos deviam abordar de forma livre a temática sugerida. Pensei inicialmente em escrever somente sobre a Imperatriz, Maria Leopoldina, que é uma personagem histórica que muito me envolve, mas me aprofundando na pesquisa inicial, percebi que Maria Leopoldina tinha a face de muitas Marias de nossa história. Deste modo, surgiu a ideia de mesclar contos com um fio narrativo norteador.  
 
O livro foi enviado e obteve o êxito de ser um dos vencedores. O processo de criação da obra, apesar de rápido, foi trabalhoso no que diz respeito à pesquisa. Muito prazeroso, acima de tudo.
 
 
Outro livro com temática da força feminina é ´As meninas de 22`. Como foi escrever e publicar esta obra?
 
Eu tinha um projeto engavetado, que rascunhava a criação de um obra sobre a artista Pagu. Foi aproveitado diante da oportunidade de apresentá-lo para um edital da Secretaria da Cultura de São Paulo,  (23/2019 - Proac), pautado em premiar obras com temática sobre o Centenário da Semana  da Arte Moderna no Brasil.
 
Poder falar sobre a força feminina sempre me alegra, publicar obras em torno da vivência da mulher é um grande privilégio.
 
 
Fala-se que o mercado editorial tem uma preferência por escritores homens em detrimentos de mulheres. Qual a sua opinião sobre isso. E dentro do mesmo tema, os homens leem a literatura feita por mulheres escritoras?
 
São dados confirmados. Entre os livros publicados no Brasil, 70%  são de autoria masculina. Acredito fazer parte de um problema estrutural. É uma questão  social que esbarra em muitas esferas. Conheço inúmeras autoras e a maior parte delas compartilha do mesmo problema que eu. A mulher, em qualquer que seja a profissão escolhida, fica com a sobrecarga de outras atividades tidas como femininas, como cuidar da casa e dos filhos. Ainda que nos tempos atuais a participação dos homens na criação dos filhos e outros cuidados, antes, obrigatoriamente remetido às mulheres, tenha se fragmentado de maneira positiva, vejo que estamos bem longe de termos uma rede de apoio que propicie à mulher poder se dedicar com maior vigor ao que se dispõe.  
 
Este tema é longo, pois envolve o machismo que sempre foi muito pontual e cruel em nosso país e no mundo todo.  
 
A literatura de autoria feminina era colocada em nichos, como literatura de "perfumaria", boa para distrair, mas não necessária. Isso muda a cada dia. A mulher literata tem ganho espaço nas premiações e eventos. Elas pagam um alto preço para tais feitos, mas abrem um caminho imensurável para as mulheres que escrevem. 
 
Até mesmo nós, mulheres, lemos mais homens. Às vezes é preciso se policiar sobre isso. Muitos dizem que literatura não tem gênero, mas se examinarmos nossas estantes, provavelmente iremos nos deparar com uma grande diferença no quantitativo do que estamos lendo.
 
 
Você está lançando "Pó", que foi primeiro Lugar no Prêmio Amplitude de Literatura. Do que se trata este novo livro e qual sua expectativa em relação a ele?
 
O Livro fala sobre uma família tentando sobressair à miséria. É fragmentado pelo olhar de cada membro do núcleo familiar principal. 
A miséria não só vista pelo ângulo social, mas também humano. Pó foi o primeiro livro que escrevi, o vejo com uma escrita inocente. Possui certo distanciamento do que escrevo hoje. Mas gosto do que vejo daqui. É um livro para ser lido numa tacada,um fim de semana. Uma obra que insiste na extensão da esperança e fé como meio de escape. Tem muito do que sou na essência do livro. Modéstia à parte, eu recomendo.
 
 
Você é mineira de Belo Horizonte mas morando em São Paulo. Em que essa mudança geográfica impacta sua vida e sua escrita?
 
Viver em São Paulo te dá e te tira em quantidades equivalentes. A terra das oportunidades também é uma terra violenta e predatória . Tive boas chances por estar em SP,  é um lugar que amo e, por vezes, desejei deixar sem olhar para trás. Aqui se trabalha muito, o custo de vida é alto e as Instituições  públicas das regiões periféricas são precárias. Deste modo, SP afeta, particularmente, no meu modo de ser. Sou calma em todos os aspectos, gosto de lugares tranquilos e de coisas feitas com tranquilidade. Viver aqui me forçou a mudar para me adaptar ao que me era necessário nas fases da minha vida adulta. 
 
Na literatura, muito me inspira. O caos, a humanidade perdida e encontrada no meio das multidões dos grandes centros viram histórias facilmente. 
Aqui, as oportunidades culturais não são muitas, como na maioria do montante do país. 
 
 
 
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Pessoas do eixo Rio-São Paulo leem o que se ecreve em outras regiões? Existe um intercâm bio literário real no Brasil?
 
Infelizmente não. O livro só é mesmo lido de maneira abrangente  se ganhar destaque através de alguma grande premiação. 
É sabido da existência de bolhas nesse eixo. Eu não tenho propriedade para falar detalhadamente sobre esse fechamento. Eu, como a maioria, não consegui romper essa barreira de ter sua obra lida de maneira expressiva. 
 
 
 
 
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Como foi sua produção literária durante a pandemia? E como acha que serão os saraus e encontros literários no chamado pós-pandemia?
 
No início da pandemia acreditei que pudesse, de algum modo, tirar pontos positivos do isolamento. 
Não foi assim. Tenho produzido de maneira reduzida, e muitos foram os agravantes. A relação emocional com todo o mal vivenciado no país, além do assombro da dor e do desânimo de ver os dias passarem e parecer estarmos sendo deixados para trás. 
Optei por não mandar meu filho para o retorno escolar, deste modo fiquei sem a rede de apoio, à qual me destinava tempo para a escrita. Me restou escrever de madrugada, que não é meu horário favorito para produção. 
Ainda assim, consegui vencer alguns editais que me permitiram poder dar vida a novas histórias. 
Para o segundo semestre será lançado meu primeiro infantil, A Biblioteca da Bia, obra vencedora do prêmio CEPE de literatura infantil do ano passado. 
Também será lançado Uma caixa de guardar segredos de família, livro infantil que recebeu o prêmio  Proac 2020 para o gênero.E, por fim, um romance documental sobre As Benzedeiras de São Paulo, também premiado  pelo Proac ( Patrimônio histórico).
Acredito que os encontros serão regados de muita saudade e alegria. Mas também imagino que tais eventos possam demorar um pouco mais que o esperado para uma total normalização do que era visto antes. 
A saudade e alegria está mesclada de um sentimento de dor e medo que precisará de muita declamação para acalmar a mente e alma.