Myriam Scotti: ´Acredito que sem liberdade para a escrita não há literatura`

10/07/2021

Por: CEFAS CARVALHO
 
 
Nascida em Manaus, capital do Amazonas, onde mora, a escritora e poeta Myriam Scotti já está consolidada no cenário literário nacional. Formada em Direito pela Universidade Federal do Amazonas, após o nascimento do primeiro filho, mudou de carreira e, nas horas vagas começou a escrever o blog de maternidade Mãe no País das Maravilhas, onde compartilhava seu cotidiano como mãe dos pequenos Daniel e Noah. Dessas vivências, surgiram histórias infantis que viraram livros publicados, como “O menino que só queria comer tomate” e "O menino que não queria dormir sozinho", bem como o livro de crônicas "Mãe no país das maravilhas". Publicou também "Quem chamarei de lar?" (pelo eBook Kindle), "A língua que enlaça também fere" e "De onde surgem os amores volumes 1 e 2" e lançou pela Editora Penalux o livro de poesias "Mulheres chovem". No ano passado, em plena pandemia, venceu o Prêmio Manaus de Literatura com o romance “Terra úmida” (também pela Penalux), que fala sobre judeus marroquinos no Amazonas, com tintas parcialmente autobiográficas.
 
 
Você lançou recentemente "Terra úmida" que venceu o Prêmio Manaus do ano passado. Como foi escrever esse livro? Ele fala de judeus marroquinos no Amazonas, tem algo autobiográfico nele?
 
O romance Terra Úmida surgiu a partir de um conto que faz parte de um e-book de 2017/2018, chamado Terra Prometida. O revisor desses contos me mandou um e-mail falando o quanto tinha gostado da personagem Syme por ela ser misteriosa e que talvez desse um belo romance. Nessa época, eu estava em dúvida se me inscrevia num curso de preparação do romance. Quando li o e-mail, decidi seguir o conselho e ver aonde chegaria com aquela história que começava a germinar. Foi um processo muito bonito e longo, mas que valeu demais por toda a transformação que me provocou. A história não se baseia em fatos reais, mas para falar dos rituais judaicos, busquei na memória passagens da minha infância e adolescência.  
 
 
Você antes havia publicado livros infantis e um belo livro de poesia, o "Mulheres chovem". Como é transitar esses gêneros? E qual o seu gênero preferido para escrever?
 
Eu respeitei meu tempo de amadurecimento na escrita. As histórias infantis surgiram a partir das experiências com os meus filhos e por isso me exigiram menos. A poesia começou esporadicamente, mas acabou ganhando um espaço na minha escrita que eu não esperava, era mais forte do que eu. O que eu tinha para colocar no papel, a prosa não dava conta e surgiam assim poemas ou prosas poéticas. No momento, estou mais dedicada à prosa, que acho mais desafiadora por necessitar de mais fôlego, de um projeto maior, mas vez ou outra saem poemas que guardo para um próximo livro. Estou afastada da literatura infantil, embora meus filhos estejam me cobrando uma nova história. Não sei quando conseguirei retornar ao gênero porque estou indo para o segundo semestre do mestrado em literatura e crítica literária e meu tempo está muito reduzido. Vamos ver até quando consigo prorrogar esse pedido! Rsrsrsrs
 
 
Sobre poesia, existe uma poética feminina, no sentido que só poderia ser escrita por mulheres? Qual sua opinião sobre esse tema?
 
Penso que a literatura é o espaço para se escrever sobre qualquer tema e a partir de qualquer perspectiva. Acredito que sem liberdade para a escrita não há literatura. Já estamos rodeados de rótulos, que pelo menos a literatura não seja engolida pelo engessamento da palavra.
 
 
Considera que as pessoas leram e leem mais  durante essa pandemia?
 
Sim. A leitura (e as artes em geral) se tornou um modo de escapar da realidade distópica a que estamos condenados desde março de 2020. A impossibilidade de se sair de casa, de encontrar as pessoas, fizeram com que os livros fossem resgatados e recolocados na rotina familiar.
 
 
Como acha que será a Literatura, no sentido de feiras, saraus, no chamado pós-pandemia, com maioria da população vacinada contra Covid?
 
Tenho a esperança de que, aos poucos, os eventos retornem à normalidade. Talvez seja uma ótima oportunidade para que os espaços públicos e abertos sejam resgatados para esses momentos. Praças, por exemplo, já foram palco para muitos artistas. De repente, é chegada a hora de repensarmos a política dos espaços públicos e resgatar o sentido de arte para todos e não apenas para uma minoria privilegiada.
 
 
Percebemos atualmente muitos bons livros sendo publicados no Brasil mas parece existir um problema de público consumidor dessa literatura. Como fazer as pessoas, principalmente jovens, lerem mais?
 
Investir na linguagem que se comunique com eles. Não adianta nos mantermos num pedestal. As redes sociais se tornaram um veículo importante de comunicação com os jovens. Então, aproveitemos para divulgar bons livros e trazê-los para perto da chamada “alta” literatura, a qual, também acredito, seja para todos. 
 
 
Fala-se também que o mercado editorial coloca mulheres em segundo plano em relação a homens. Qual a sua visão sobre isso? E na mesma pergunta: Em geral, homens leem o que mulheres escritoras publicam?
 
Ando mais positiva em relação a isso e tenho assistido a um movimento promissor de homens interessados em nossa escrita. Claro que ainda há muitos espaços a serem ocupados pelas mulheres, como bancadas de jurados em premiações literárias, por exemplo, mas, vejo o futuro com otimismo. 
 
 
Você nasceu e mora em Manaus, cidade longe das "capitais literárias" Rio e São Paulo. Como é possível encurtar distâncias e ser lida em todas as regiões de um país continental?
 
Parece-me que, nos últimos anos, o eixo Rio-São Paulo tem se cansado de si mesmo e voltado os olhos para as outras regiões do país. Vejo isso com alegria e espero que Terra Úmida rompa fronteiras e chegue a muitas pessoas. As questões que podem ser levantadas a partir da leitura do meu romance são universais e independem do local onde a história for escrita. O que interessa ao ser humano, interessa em qualquer lugar ou tempo.