Luiz Biajoni: ´Estamos em um ponto em que existem mais escritores que leitores`

17/07/2021

Por: CEFAS CARVALHO
Foto: Arquivo pessoal
 
 
Luiz Biajoni nasceu em 1970 em Americana, no interior do estado de São Paulo, onde ainda mora. Trabalhou em rádio, participou da fundação da TV Jornal, considerada uma das redes locais mais ativas de São Paulo e atuou em campanhas políticas, dirigindo programas eleitorais. Mas, se consolidou como escritor com novelas e romances que mesclam humor, sexo e relações humanas. É autor de "Sexo Anal: Uma Novela Marrom" (Editora OsViraLata), 2005; "Buceta: Uma Novela Cor-de-rosa" (Editora OsViraLata) 2006; "Virgínia Berlim: Uma Experiência" (Editora OsViraLata) 2007, que formam a "Comédia Mundana", o prestigiado "Elvis e Madona: Uma Novela Lilás" (Editora Língua Geral, 2010), também um filme de sucesso; "A Viagem de James Amaro" (Editora Língua Geral), 2015; "Quatro Velhos" - (Editora Penalux) 2019 e "Algum Amor" (Editora Penalux), 2020. Em entrevista para a série do Potiguar Notícias falou sobre estes romances, projetos, pandemia e mercado. Confira:
 
 
Este ano se celebra dez anos do lançamento do livro/filme "Elvis e Madona", com edição comemorativa e versão em áudio. Como vê o sucesso do livro ao longo dessa década?
 
Não sei se eu chamaria de “sucesso”, que me parece algo efêmero. O livro saiu discretamente com o filme no final de 2010 e vendeu pouco. Ele foi crescendo gradualmente – gosto de pensar que ele acompanhou o movimento LGBT nesses anos. Quando eu e o diretor Marcelo Laffitte falamos sobre relançar filme e livro, comemorando os dez anos, percebi que a terminologia LGBT tinha avançado e o livro precisava de ajustes para ficar mais atual – foi quando constatei a incrível legião de fãs do romance; gente que me apoiou e incentivou para que o livro continuasse existindo. Tenho relatos de pessoas que tiveram suas vidas modificadas para melhor por causa do meu livro. Então, se o livro tocou algumas pessoas, se ele serviu de intermediário no diálogo entre uma sociedade mais fechada e o movimento LGBT, talvez aí caiba o termo: sucesso na empreitada que tínhamos de fazer a história conversar com a sociedade.
 
 
"Elvis e Madona" mistura romance policial com humor, mas basicamente fala de identidade sexual, diversidade e luta contra preconceitos. Como foi abordar estes temas?
 
Tentei escrever uma história de amor clássica, aplicando uma subtrama policial para fazer crescer o vilão João Tripé. No filme, basta o ator Sergio Bezerra aparecer e dizer algumas palavras e a gente já sabe que ele é perigoso – mas no livro, eu tinha que apresentar o personagem, desenvolver a relação dele com Madona. A partir dessa ideia, usei a história do filme como base para um enredo de aproximação, rejeição, reaproximação, aceitação e amor entre dois personagens que, por acaso, são “diferentes”. De maneira geral, o livro é até esquemático e, talvez, por isso, funcione tão bem. Mas não é panfletário ou levanta bandeiras, apenas conta a história e faz o leitor simpatizar, gostar das personagens. Nessa aproximação dos personagens com o leitor é que acontece a mágica.
 
 
Outro romance seu, "A viagem de James Amaro" tem a trama como uma on the road clássica com pitadas de suspense, mas acaba sendo uma imensa homenagem ao jazz, sendo inclusive um livro que tem até uma trilha sonora. Como foi essa simbiose entre a Literatura e a Música e qual a sua relação com o jazz?
 
Eu achava as citações da cultura pop nos livros muito datadas e chatas; uma tendência dos anos 1990 com o Nick Hornby e tal... Pensei nessa história de reencontro de dois amigos da infância e queria que um deles tivesse um gosto refinado e fosse um filho da puta, enquanto outro está pouco se lixando para refinamentos enquanto é um sujeito que transborda compaixão. James Amaro deveria, inicialmente, gostar de música clássica – mas não deu certo, então escolhi o jazz que, me parece, soará menos datado caso o livro seja lido no futuro. Mas pouco sabia sobre jazz, então fui ler e pesquisar e cai num oceano sem fim. O encontro entre os dois amigos seria, inicialmente, num quarto de hospital – um tinha levado uma facada da namorada e o outro tinha tentando o suicídio. Mas não deu certo - então botei os dois dentro de um carro e a trilha sonora se impôs.
 
 
Você nasceu e mora em Americana, interior de São Paulo, mas sua literatura é ampla, vasta, abordando de on the road a Copacabana. Como é escrever sobre o Mundo do ponto de vista de onde mora e trabalha?
 
O ser humano é o mesmo, né?, em todos os lugares. Vive os mesmos dramas, questionamentos, dúvidas, têm as mesmas ambições, buscam coisas parecidas; o prazer, o amor, a satisfação pessoal, os relacionamentos... Então, não penso muito nessa questão. Nasci e moro em Americana e a cidade aparece em alguns de meus livros como um microuniverso onde dramas e histórias se desenrolam. Mas os personagens podem estar em trânsito ou em outros cenários, caso seja importante para o enredo. Depois de um romance onde os personagens estão em trânsito, em “A Viagem de James Amaro”, escrevi sobre quatro personagens que estão praticamente imobilizados em duas casas, em um bairro de periferia na cidade, em “Quatro Velhos” – então a questão local deve atender a uma necessidade da narrativa. “Elvis & Madona” só poderia acontecer em Copacabana, que é um lugar meio mítico na história.
 
 
Em um país de dimensões continentais, escritores leem o que se produz em outras regiões? Paulistas leem autores sulistas, nortistas e nordestinos, por exemplo? Por outro lado, você considera que é lido em todo o país?
 
Não sei. Acho que o problema talvez seja que estamos chegando ao ponto em que existem mais escritores que leitores. Talvez seja preciso parar de romantizar um pouco essa coisa de ser escritor. Vejo anúncios por aí: Seja um escritor! Poxa, será que precisamos realmente de mais escritores? Não seria melhor incentivar as pessoas a ler? Aí, naturalmente, quem achar que dá para a coisa que se enverede. Prefiro ler a escrever, sou um leitor compulsivo desde a infância, mas meus interesses são flutuantes e, dependendo da fase, bastante específicos. Quando fui ler sobre jazz, foram mais de vinte livros, alguns bem difíceis, fiquei mais de um ano lendo-os. Por outro lado, tento me manter atualizado sobre a produção brasileira de meus contemporâneos, mas chega a ser impossível diante de tantos livros lançados. Não penso muito na coisa regional, procuro ler de tudo, e acho que tenho um pequeno e seleto grupo de leitores que me acompanha há um tempo em todo o Brasil. A nova edição de Elvis & Madona deve fazer minha literatura chegar a um novo público, mais jovem, e que talvez possa se interessar pelos meus outros livros. Tomara.
 
 
Como foi sua produção literária em tempos de confinamento e pandemia? E, afinal, as pessoas realmente leram mais neste período?
 
Parece que as pessoas leram mais – se não livros, ao menos na internet. Eu escrevi dois romances nesses 15 meses: “Algum Amor”, que saiu pela Penalux, e tem uma história que se desenvolve em tempo real da pandemia, e um inédito, “O Crime no Edifício Giallo”, que deve sair no ano que vem. Também aproveitei para organizar uns escritos esparsos meus. E tenho lido um bocado.
 
 
Nos últimos dois anos você publicou Algum amor (2020) e Quatro velhos (2019). Como foi o processo criativo e depois de publicação destes dois livros? 
 
Eu estava escrevendo “Quatro Velhos” desde 2017, quando fiz uma pequena edição de aniversário de dez anos de meu livro “Virgínia Berlim” com a Penalux. Gostei muito do resultado final e decidi lançar “Quatro Velhos” com eles. Em um ano finalizei o romance e lançamos lindamente – tenho grande orgulho dessa edição e deste romance. Aí veio a pandemia e comecei a escrever um conto para inscrever em um concurso que tinha justamente a pandemia como tema. Mas eu não sei escrever contos, então a história estava chegando a dez mil palavras. Falei com a Penalux e eles editaram rapidamente meu livro para que saísse naquele momento. Acredito que nenhum outro romance brasileiro tenha sido escrito e lançado em um mesmo momento histórico como o que aconteceu com “Algum Amor” – foi uma grande experiência e o livro não só é atual como é uma fotografia daquele momento específico.
 
 
Você já publicou por diversas editoras. Como vê o mercado editorial atualmente e como observa o papel das editoras pequenas/independentes?
 
Não entendo quase nada do mercado editorial. Eu escrevo livros e algumas pessoas querem, insanamente, publicá-los. Não sei como funciona a engrenagem do mercado. E acho que nenhuma editora deva ser chamada de pequena ou de independente – são editoras e ponto. A Penalux, a Reformatório, a Patuá, por exemplo, editaram centenas de livros, revelaram inúmeros talentos, venceram prêmios importantes, nada devem às chamadas “grandes editoras”. Temos ótimos escritores que preferem a auto publicação e não há nada errado nisso. O desafio, penso, em qualquer cenário, é fazer o leitor ler. Precisamos formar leitores, gente que saia um pouco das séries de TV, dos games, das redes sociais, e leia – amplie sua capacidade de interpretar texto, a realidade, os sentimentos, a vida.