Torto Arado: Um livro de qualidade

08/09/2021

Por: Evandro Borges.
 
A obra denominada “Torto Arado”  premiada publicação da editora todavia de São Paulo (SP), lançado a primeira edição em 2019, de autoria de Itamar Vieira Júnior natural de Salvador (BA), habilitado em Geografia e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA,  já  na 12ª reimpressão  em 2021, alcançou a condição de “Best-seller” atingindo a marca de mais de cento e vinte mil exemplares vendidos, apenas este ano, ainda de pandemia. Está entre os vinte mais vendidos no país segundo o Globo. Em Natal/Parnamirim é encontrado com facilidade na Távola Livraria localizado no agradável Shopping Cidade Verde. 
 
O livro recebeu os prêmios Leya de Portugal, o Jabuti e o Oceanos. É considerada uma ficção fundada em fatos reais, retrata uma situação regional com cenário na Bahia colocando fatos marcantes, como a trajetória das mulheres, as questões do desenvolvimento humano romanceado, violência que se abate contra elas, a trama da situação da relação de trabalho com a pobreza com analogia a escravidão, o analfabetismo e a educação, a religião afrodescendente, as reinvindicações sociais e suas lutas, um livro para se ler em um único folego.
 
O início é muito forte retratando o acidente de duas meninas Belonísia e Bibinha que encontram uma faca/punhal na mala de avó Donana e leva à boca, uma recebe um corte profundo e outra perde a língua, apesar dos esforços dos pais Zeca Chapéu Grande e Salustiana que na rural da Fazenda Águas Negras dirigida pelo gerente Sutério são levadas a cidade, mas só foi possível a saturação, marcando a vida das duas. Uma delas fica muda e não recupera a voz.
 
A trama se sucede neste diapasão de interação das irmãs, na dura lida da terra pelo pai, pela possibilidade apenas no quintal da plantação para subsistência, da coleta de frutos regionais para a venda na feira com longas caminhadas, da pesca nos mananciais dos rios, e do crescimento das duas meninas contribuindo para o trabalho familiar, que encontram o primeiro entrevero com a chegada do primo Severo, que desperta o interesse do amor juvenil das duas irmãs ligadas pelos laços familiares e pela emoção do acidente.
O pai Zeca Chapéu Grande (José Alcino) além de agricultor exemplar de trabalho incansável, da produção principal do arroz, lhe é permitido uma casa a ser edificada apenas de barro e telhado de palha que se desfaz com o tempo, com chuvas e ventos, e o quintal para subsistência. É também um curandeiro de “Jarê” e parteiro conhecimento herdado das mãos materna dos afrodescentes escravos, nascido dentro de um canavial parido por Donana.
 
Zeca Chapéu Grande recebe em sua casa apertada doentes espirituais para a cura, que é acompanhado pelas filhas, no entanto em razão destes atributos passa a ser respeitado pela comunidade de agricultores familiares, passando a interagir na pacificação dos entreveros e dificuldades econômicas e sociais entre trabalhadores e proprietários da Fazenda Águas Negras, como também, consegue uma primeira escola para letramento com o Prefeito e em seguida uma Escola maior de alvenaria e telhado de cerâmica com três salas, embora na inauguração seja dado o nome de um descendente do proprietário da Fazenda, que fez a doação do imóvel.
 
É retratado as condições das Escolas na comunidade, a alfabetização e o letramento, a ausência de sintonia das lições com a realidade com que os educandos são submetidos, provoca o desinteresse em Belonísia pelos estudos as suas dificuldades em face  ausência da fala em razão do acidente com a faca de Donana, apesar de se alfabetizar o seu interesse é pela lida do campo.
 
Bibiana fica grávida de Severo e fogem das suas famílias que mantinham laços de parentescos, retornando já com filhos e Severo animando os trabalhadores em torno do aprendizado da pregação do Sindicato, com melhores condições de trabalho e dos benefícios previdenciários, e ela já professora com magistério, do que passa a ganhar a vida.
Donana falece é sepultada no cemitério da fazenda intitulado de Viração, e Belonísia se junta com Tobias com autorização dos pais, um vaqueiro, interpretando o machismo, encurralando moralmente Belonísia, mas esta se valoriza na sua condição de mulher não permite a violência física. Ajuda a vizinha Maria Cabocla que sofre violências físicas constantes conseguindo mudar esta relação. Belonísia fica viúva e sem filhos e aos poucos retorna a casa dos pais, ficando ainda mais próxima do pai com a lida da agricultura.
Ainda são dispostos os problemas ambientais provocados pelo garimpo assoreando os Rios que banham Águas Negras, com a diminuição da pesca, principalmente dos peixes maiores, reduzindo as condições nutricionais das famílias de agricultores, que aproveitavam os períodos de inverno quando era mais abundante o pescado conseguido com iscas de minhocas colhidas na terra.
 
Zeca Chapéu Grande morre e igualmente é enterrado no cemitério Viração, sendo o último a ser sepultado no local, pelas ordens dos novos proprietários da Fazenda Águas Negras, que fecham com correntes o cemitério, fazendo Salustina sofrer com a perda, chega inclusive a se embriagar, até ser curada do mal, e constroem outra casa nas mesmas condições de barro e telhado de palha, apesar de pequenas mudanças com a introdução do barracão que deixam os agricultores mais devedores do novo proprietário.
O terceiro e último capítulo intitulado de Rio de Sangue, a trama da vazão a narrativa as tentativas de Severo de realizar mudanças, diante da pregação sindical. A família de Salú sofre com um atentado com a queima do galinheiro. Para em seguida Severo ser vítima de um homicídio, com forte presunção de mando dos novos proprietários, consternando a comunidade de Águas Negras com mais dramas humanos e sociais. O sepultamento de Severo ocorre em Viração quando são derrubados os portões em uma narrativa emocionante.
 
Com a morte de Severo é dado ênfase ao filho Inácio que promete cuidar da mãe e o inquérito policial conclui que a morte de Severo se deu por disputa do domínio de plantações de maconha, o que revolta Bibiana e a comunidade, passando a mesma enfrentar o novo dono da Fazenda, Salomão. Aos poucos as famílias dos agricultores iniciam devagar a construção de suas casas em alvenaria e telhado de cerâmica.
 
O proprietário Salomão, também morre em uma emboscada. Novo inquérito é aberto, quando são ouvidos principalmente os moradores de Águas Negras, inclusive Bibiana, que alega ser de origem quilombola, mas o inquérito ficou inconcluso por falta de provas, retirando-se do imóvel a nova família de proprietários. Retrata ainda o êxodo de famílias da Fazenda.
 
A trama é espetacular, com uma narração viva, com uma linguagem fácil dos bons escritores, trazendo um cenário toda a problemática humana e em especial das mulheres, com as diversas gerações, a cultura dos afrodescentes e suas vicissitudes, a relação dos agricultores diretos e os proprietários rurais de um tempo, que marca a vida do campo, a pobreza, as relações de trabalho, a educação, o meio ambiente e as identidades do campo. De fato é uma leitura rica e esclarecedora de forma histórica do campo da Bahia e do Nordeste. 
 
Vale a leitura!