Cel Bentin: ´A pandemia fortaleceu a cultura online, uma frente que não perderá lugar`

11/09/2021

Por: CEFAS CARVALHO
Foto: Arquivo pessoal do autor
 
Paulistano e ainda morador de São Paulo, Cel Bentin é poeta e militante cultural. Publicou pela editora Patuá o elogiado livro "Segredaria". Organizou e participou de diversas coletâneas e antologias. Nas próprias palavras dele: "Revisa textos por ofício, como quem ouve a voz que escreve. Gosta de teatro e cinema; prefere o cajón à poltrona. Sente que palavra é bicho mais denso do que as gramáticas pregam e a tabela periódica imagina. Desconfia do querer dizer: desafia e firma fé é no (se) ouvir falar que a intimidade de quem lê ampara, provoca ou renega. Acredita em profundidades que apontam para o alto. Mais jamais confessa (e anuncia): só segreda". Confira a entrevista:
 
 
 Você publicou o elogiado livro de poemas Segredaria. Como foi o processo de escrita dos poemas desse livro e o de produção e lançamento? Pensou no livro como um conceito ou reuniu poesias escritas ao longo dos tempos?
 
Segredaria surgiu graças ao envolvimento e paciência de Eduardo Lacerda, amigo das antigas e editor da Patuá. Ele me convocou pedindo poemas, sem dizer de início que os inscreveria no edital ProAc. Entreguei alguns que rendiam bem nos saraus que fazia no Politeama Sarau Diverso e no Chama Poética, grupos em que atuei. Então parti de alguns poemas de diferentes épocas, mas ao saber que havíamos vencido o edital, foi esse caminho refinando texto e arquitetura adentro, que ditou fora da lógica, numa intimidade acesa e celebrada feito quem segreda – espécie de estado, estalo e instante vivo entre o flash e gravação da paisagem: a foto leva, finge revelar, mas a lembrança, feito a sensação e o que é a arte desperta, alcança cada pessoa numa comunhão sem dimensão de olho ou relógio que a guarde ou anuncie de fato. Enquanto isso, nosso consciente, do lado de fora, tenta filtrar ou isolar tais sensações, tão disposto a entender quanto deliciosamente suspeito e legítimo ao ressignificar (rs). É nesse jogo-conceito que Segredaria brinca e propõe à generosidade apreendida dos cúmplices: “ler-ou-vir exige mergulhar, não caminhar sobre as águas”, gerando as três fases do livro: A PALAVRA, O MEIO, O CORPO [ou TOMO DE BEBER AS MÃOS].
 
 
Você participou de antologias, como a do 1º Prêmio Cassiano Nunes – Concurso Nacional de Poesias (Universidade de Brasília – UnB), o flipbook Asfalto (Publicações Iara) e diversos blogs e zines. Qual a importância destes projetos coletivos para a poesia e a sua divulgação?
 
Hoje esse tipo de divulgação está mais disseminado, assim como concursos diversos, o que vale muito. Sinto que outras frentes um pouco mais recentes, tal qual as campanhas de financiamento coletivo também são ferramentas interessantes, que auxiliam a identificar nichos e processos, além de conectar diretamente ao público fiel e ampliá-lo. Toda forma de encontro que te leve a interagir e agregar novas impressões e se conectar a pessoas que você admira ou mesmo descobre e se surpreende é boa pedida. Conheci muita gente que respeito, e que me ensinou um tanto, assim. Tudo é caminho e repertório, estar atento por que trilhas busca caminhar, valorizar os pares de jornada (e nela notar a quem reconhece parceiro) é importante. A internet flutua e, por mais que suponha mapear interesses e interessados, não é capaz de medir nem a profundidade nem as fagulhas que promove ou planta. Lembra ma frase de Plutarco que “garrou“ em mim essa semana: “A mente é um fogo a ser aceso, não um vaso a preencher”.  O azul da fagulha é início para muita coisa – e a todo tempo – em qualquer espaço.
 
 
Como poeta, você também é um militante da palavra, com participação ativa  - antes da pandemia, claro - em saraus, eventos literários. Como essa militância poética fomenta o gosto pela leitura e quais as particularidades dela?
 
Reforço o que disse pouco antes: tudo é caminho. E quanto menos aterrado em si mesmo, mais vasto a gente se torna, feito uma ilha que, ao crescer, expande suas praias, aumentando o contato com o sem-fim do oceano e a verdade marinha tão próxima quanto inexplorada. Quanto mais disponível e dentro dessas águas, mais ciente e surpreso com a presença e verdade dos próximos. E, de novo, é por meio do outro que a gente se reconhece, se refina, se descobre, nem que seja por oposição. A leitura vem nessa mesma maré, que é a do interesse, tocando arte, trabalho, transcendência, intimidade. Muitos parceiros indicam, trocam livros, solicitam e pedem leituras. A ciranda não para. Especificamente nesses tempos de isolamento atento, um movimento que tem sido recorrente para mim é questionar processos internos e habituais, influenciando leituras e consultas a materiais fora do costume, o que pode trazer novidades em projetos futuros. 
 
 
E durante a pandemia, principalmente no período mais rigoroso de confinamento e restrições sociais, como foi a a sua militância cultural pelas redes e a sua produção literária?
 
Curiosamente, via virtual, lives e debates, tomei conhecimento duma cena literária contemporânea que não conhecia a fundo, a do eixo Norte e Nordeste brasileiros, por exemplo, que me fez acessar a obra de muitos autores até então desconhecidos: gratas surpresas e uma identificação além da medida. Trocas interessantíssimas e um despertar que toca partes naturais da gente, mas que não dávamos atenção ou identificávamos dimensão. Quanto a minha produção, debates e um novo projeto vem sendo formado e remontado, talvez em 2022, como reflexo dessa epopeia enfurnada.
 
Além disso, vale dizer que a mesma rede mundial é cheia de furos e remendos - nos ilude muito - ora ela encobre parte do mundo, ora escancara, ora engruvinha as vistas no pique das coisas e nas pedras (e buracos) do caminho. Perceber ou aprofundar essa percepção incomoda, mas é o jogo a ser vivido. É um filme em negativo, que vai sendo não apenas roteirizado, mas refilmado e refilmado, lembrando a torre de babel daquele conto de Murilo Rubião. 
 
Tudo sendo incentivado e reconstruído cada vez mais autômato e ‘a mãos em off’, por êne frentes e propostas distintas - 
 
imersos nessa trama e conexão encadeada, cabe a todos, todos nós,  monitorar cada um a si mesmo, generosa e cuidadosamente, para não retroalimentar o sistema (longe de uma teoria conspiratória ou paranoia, apenas uma imersão adentro e afora a perceber o que encadeia nossos impulsos, saca? o que acelera ou muda a levada do olhar e do eixo de nossas engrenagens:  isolados nos tornamos alvo mais frágil e suscetível ao que não vemos ou temos noção (refletimos, imaginamos ou rezamos cartilha de manchete e/ou podcast?)
 
nisso, sem nos dar conta, embaralhamos a pretensão de outrem (longe de nós) a corres e demandas nossas, tornando delicado filtrar e distinguir grandezas distintas - e muito em função de duas rodas diferentes: a do tempo (criação humana) e outra, motriz de interesses terceiros, semelhante à que ratos de laboratório e afins fazem girar - por impulso ou ‘pseudoadestramento’: exploração de mover roldanas… a gente entra no jogo duma ansiedade e exigências sem ponteiros suficientes para satisfazer nem medida palpável para dar sossego. Cabe tempo para sedimentar tanto as coisas quanto as sensações dentro delas, perante o futuro imprevisível ou surpreso.
 
 
Como acredita que serão as feiras literárias, saraus, eventos, no chamado pós-pandemia, com maior parte da população imunizada? Acredita que as coisas voltarão a ser como eram ou aquele normal que conhecíamos não existirá mais?
 
Creio que o período fortaleceu a cultura online, uma frente que não perderá lugar. Como o cenário dialogará com eventos presenciais, avançando ou não num ritmo mais lento, é uma questão importante, de Estado até, mas imprevisível, dado o panorama surreal que vimos passando. Por exemplo, as feiras literárias com suporte online expandiram sua penetração nacionalmente, ainda que a questão da manutenção cultural como traço identitário e de reconhecimento e valorização dos indivíduos persista aquém do ideal. Continuar resistindo e apoiando iniciativas dessa frente é essencial
 
 
As redes sociais possibilitaram a integração literária das diferentes regiões do país. Neste contexto, apesar desse mundo virtual, paulistas, por exemplo, leem o que nordestinos, nortistas, sulistas escrevem? E paulistas são lidos por estes? Qual a sua opinião?
 
Sinto que as conexões se estabelecem e se amplificam nas redes, gerando oportunidades. Sou nascido na capital paulista, um bom exemplo de leitor de tudo que é CEP. Mas o essencial segue autônomo, desde a criação dos livros: a conexão propõe, instiga, porém o mergulho segue sendo arbitrário e quase secreto intimidade adentro, ainda além da origem de quem escreve e de quem lê. Aliado a isso, o contexo amplo, diante duma absurda privatização dos Correios, da escassa formação de leitores, políticas de incentivos à leitura e afins, torna-se no mínimo delicado contar com a rede social como agente definidor do panaroma de ‘trânsito e troca de materiais’, lembrando que grande parte dos brasileiros não usufruem habilmente ou não tem condicões para acessá-la.
 
 
Quais as suas influências literárias e o que o poeta Cel Bentin costuma ler?
 
Hoje venho voltando a outras áreas, que surgiram em diálogos necessários para nos mantermos sóbrios. (Sim, confesso, sou acumulador de livros.) Daí a leitura variar e mesmo assim notar ler bem menos do que cabe. Assim, influências não são claras, mas guardam e dão corda a raízes não tão visíveis. Das leituras mais recentes, Cortázar, Guimarães Rosa, Herberto Helder, Maria Gabriela Llansol, Borgess, Robert L. Leahy, Morin, Murilo Rubião, Gero Camilo, Micheliny Verunschk, Adélia Prado, Theo G Alves, Inês Pedrosa, Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner Andresen, Peter Sloterdijk.