Pernambuco, história e personagens, de Paulo Santos

14/09/2021

Por: MAURICIO RANDS
 
No último dia 09.09 participamos da live de lançamento do novo livro de Paulo Santos. Um mergulho na história de Pernambuco a partir de seus grandes personagens. 5 Séculos, 65 biografias, como diz o subtítulo. O livro surgiu de um projeto Paulo Santos, quando Alexandre e eu estávamos à frente do Diário de Pernambuco. Entre 2016 e 2017, todas as 2as feiras o DP publicava um texto de Paulo Santos sobre um personagem da nossa história. Aqueles textos foram desenvolvidos e, juntos com outros inéditos, foram reunidos pelo autor nessa obra que acaba de ser lançada. 
 
Em um momento mais que necessário, eis que Pernambuco anda com autoestima baixa e importância esvaziada no cenário político nacional. Quando chegamos às vésperas dos 200 anos da independência, alguns preferem celebrar os 199 anos do 7 de setembro com o apelo à mobilização por bandeiras antidemocráticas. Outros, como a Cepe, sob a presidência de Ricardo Leitão, preferem ofertar ao público as reflexões que deveriam acompanhar as grandes datas históricas. Esse livro de Paulo Santos, que acaba de sair em edição primorosa da editora, inscreve-se nessa tradição. De iluminar o passado, para entender o presente e ajudar a descortinar objetivos para o futuro. 
 
Com os professores Caesar Sobreira, titular da Antropologia da UFRPE, e George Cabral, da UFPE, debatemos a obra. Mas também a história de PE e a sua contribuição à civilização brasileira. Concordamos em apontar os riscos das releituras que têm sido abundantes sobre o significado de episódios históricos. Lembrei de um exemplo que nos devia despertar. O recente livro das historiadoras Heloísa Starling, da UFMG, e Lilia Schwarcz, da USP. Em seu “Brasil – uma Biografia”, as autoras consagram um capítulo inteiro à Inconfidência Mineira. À Revolução Pernambucana de 1817, parcas duas páginas. Exemplo de revisão histórica a partir do olhar de quem se tornou hegemônico depois daquele evento. Ao perceber esse reescrever, lembrei-me da lição de Eric Hobbsbaum, em seu “Ecos da Marselhesa”. Quando alguns autores procuravam reinterpretar a Revolução Francesa e diminuir-lhe o caráter de ruptura, ele escreveu seu livro-refutação apelando pelo saudável método histórico de examinar como os contemporâneos sentiram o episódio.
O mesmo poderia valer para a comparação da Revolução Pernambucana de 1817 com a Inconfidência Mineira. Enquanto uma implantou um governo que durou 74 dias, com constituição republicana, a segunda não passou de uma conspiração desbaratada. A pernambucana foi duramente reprimida e acarretou o desmembramento de Alagoas do território de Pernambuco. Foram condenados, executados e degredados centenas de insurretos. Em contraste, a sentença sobre a inconfidência condenou à morte apenas 12 inconfidentes, logo perdoados, com a exceção de Tiradentes. 
 
O livro de Paulo Santos chega num momento em que se revaloriza o conhecimento da história. A divulgação ao grande público de obras com uma forma mais acessível ao não iniciado nas tecnicalidades da disciplina. Como recentemente as biografias de Getúlio Vargas (Lyra Neto), dos dois imperadores (Paulo Rezzutti), ou sobre episódios específicos como a independência, a proclamação da república e a escravidão (“1822”, “1889” e “Escravidão”, de Laurentino Gomes), ou a epopeia dos judeus fugidos da Inquisição e aportados em Pernambuco no período holandês (“Arrancados da Terra”, de Lyra Neto). Sobre a História de Pernambuco, vão nessa direção de resgate os livros de Fernando Coelho (“Direita Volver - O Golpe de 64 em PE”), Vandeck Santiago (“Pernambuco em Chamas”), assim como as biografias publicadas pela CEPE sobre personagens como Pelópidas Silveira e Armando Monteiro Filho.  
 
Sobre a seleção dos 65 personagens feita por Paulo, fica a tentação. Como toda seleção, cada técnico tem a sua. De minha parte, senti falta de alguns. Que menciono, quem sabe, na expectativa de um segundo volume: Brites de Albuquerque (a primeira mulher a governar Pernambuco), Olegarinha Mariano (fundadora do Clube do Cupim, ativista antiescravocrata que ajudava os escravos a fugir), Luiz Gonzaga, Paulo Freire e Dom Hélder.