Adrienne Myrtes: ´Ainda estamos em luta por um espaço justo para a literatura feita por mulheres`

19/10/2021

Por: CEFAS CARVALHO
Foto: Andrea del Fuego
 
Nascida em Recife, mas morando em São Paulo desde 2001 Adrienne Myrtes é escritora também artista plástica. Publicou o livro de contos “A Mulher e o Cavalo e outros contos” (Editora Alaúde, EraOdito Editora, 2006), a novela infanto-juvenil “A Linda História de Linda em Olinda” (Editora Escala educacional, 2007, em parceria com Marcelino Freire), Eis o Mundo de Fora (Ateliê, 2011), “Uma História de Amor para Maria Tereza e Guilherme” (Terracota 2013) e o romance “Mauricéa” (Edith, 2018) que foi finalista do Prêmio Jabuti. Participou, das antologias “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século” (Ateliê Editorial, 2004) e “35 Segredos para Chegar a Lugar Nenhum – Literatura de Baixo-Ajuda” (Bertrand Brasil, 2007) entre outras. Em entrevista ao Portal Potiguar Notícias falou sobre a literatura escrita por mulheres, pandemia e projetos. Confira:
 
Seu romance "Mauricéa", recebeu muitos elogios e foi finalista do Prêmio Jabuti e traz debates importantes sobre sexualidade e gênero. Como foi o processo de criação e escrita de "Mauricéa"? E como você o vê hoje, três anos após o lançamento?
 
O processo foi intenso, demandou pesquisas e um exercício grande de empatia, uma vez que a personagem vive, ao menos parte de sua vida, em época e contexto sob muitos aspectos diferentes dos meus. Com relação ao tempo trabalhei usando a memória da fala dos meus avós e levantamentos de dados históricos, quanto ao contexto de mulher trans, usei pesquisas e o recorte de vida que nos aproxima a todos, na qualidade de seres humanos.
 
Três anos após o lançamento os questionamentos suscitados pela história permanecem atuais, mas, embora ainda tenhamos muito a caminhar acredito que estamos avançando nessas discussões.
 
 
Como observa a abordagem de questões de gênero, identidade e sexualidade na Literatura brasileira atual, principalmente em tempos tão sombrios?
 
Eu penso que todo momento ou fenômeno traz em si sementes do seu contrário, por isso, abordar essas questões é necessário para semear e fazer florescer a luz sobre estes assuntos. 
 
Não consigo dar conta de toda produção literária contemporânea, mas tenho notícia de muita coisa boa sendo escrita com essa abordagem, por isso creio no avanço dessas discussões. Pra citar apenas um exemplo: até bem pouco tempo seria impensável ter, na literatura, a figura (tão necessária) de uma autora igual a Amara Moira e agora ela é uma das vozes que nenhuma criatura sombria vai conseguir calar.
 
 
Você é pernambucana radicada em São Paulo (a exemplo de Marcelino Freire e Micheliny Verhunsky), como essa migração impactou sua vida e mais ainda, sua literatura e maneira de ver o Mundo?
 
Minha mudança teve papel decisivo para o que escrevo hoje, sem dúvida, a vida em São Paulo alterou não apenas meu olhar para o mundo, mas também minha relação com as raízes pernambucanas. Por antagônico que pareça a contaminação com a urgência paulistana revelou o quanto estar enraizada no solo pernambucano me permite caminhar pelo sem me perder.
 
Outro ponto importante que a vida em São Paulo trouxe para mim foi o contato com a literatura de outros autores contemporâneos, que até então eu não conhecia. O diálogo com o trabalho desses autores também alterou de forma profunda meu olhar e, por consequência, minha maneira de ler e escrever o mundo.
 
 
Como foi sua produção em tempos de confinamento e pandemia. Ainda sobre esse tema, acredita que as pessoas em geral leram mais neste período?
 
Eu, de fato, não vivi o confinamento porque trabalho no SUS e para nós o trabalho presencial continuou, de fato, aumentou. Minha experiência nesse período foi observar o confinamento, ou, muitas vezes, a desobediência ao confinamento, alheio. Continuei escrevendo, tive dificuldades para escrever sem o necessário distanciamento dos fatos em alguns momentos, e permaneço na busca de soluções para essa situação. Minha peleja com a literatura é diária.
 
Não sei se as pessoas em geral leram mais, talvez, as pessoas que já cultivavam a leitura tenham aproveitado o isolamento para ler, mas, não tenho dados reais a esse respeito; creio que aconteceu também de as pessoas passarem por períodos de falta de concentração para atividades feito a leitura.
 
 
Antes de "Mauricéa" você publicou "A Mulher e o Cavalo e outros contos" (2006), "Eis o Mundo de Fora (2011) e "Uma História de Amor para Maria Tereza e Guilherme" (2013). O que difere um livro do outro e pergunto se existe uma unidade que você identifique em sua obra?
 
São livros distintos em suas formas. Quando escrevo, a forma de narrar vem a serviço da história que o personagem quer contar, por isso, cada história é contada a seu modo. Por exemplo: “Uma História de Amor para Maria Tereza e Guilherme” se distingue bastante dos outros porque se trata de uma novela contada a partir de micronarrativas e desenho, cuja proposta é trabalhar com o silencio do não dito; cada capítulo é uma frase ou, quando muito, um parágrafo. Os desenhos por sua vez aparecem não para ilustrar, mas para dialogar com o que está escrito. 
 
A familiaridade entre os livros, penso eu, fica por conta dos personagens e seus estranhamentos, todos eles são, cada um a sua maneira, arribados; estão procurando pouso. Outra coisa que têm em comum é a intenção de pensar e provocar perguntas a respeito de alguma questão (ou questões porque muitas vezes uma coisa puxa outra) humana: sejam relacionamentos românticos e relacionamentos familiares, no livro de contos; ou a fragilidade da comunicação amorosa, em “Uma história de Amor para Maria Tereza e Guilherme”; seja a maneira própria que cada pessoa encontra de lidar com a dor, em “Eis o Mundo de Fora”; ou a velhice e seus desdobramentos, intenção original de Mauricéa. 
 
 
Como o mercado editorial trata e absorve as mulheres que escrevem? E ainda: Homens leem o que mulheres escritoras publicam?
 
Acredito que ainda estamos em luta por um espaço mais justo para a literatura feita por mulheres. Isso não significa que os homens não leiam mulheres, tenho vários leitores, inclusive; o que acontece é que não leem tantas autoras quantos autores. Se compararmos quantos livros de mulheres e quantos livros de homens eles leem, vamos descobrir o tamanho do abismo. 
 
No momento nossa maior conquista tem sido provocar discussões, começando mesmo entre as mulheres, que estão lendo bem mais umas às outras. Espero que essas discussões e questionamentos possam levar a um ponto de equidade entre as leituras dos autores e das autoras, porque existe um desequilíbrio histórico a ser reparado. 
 
 
Quais os seus próximos projetos literários?
 
Tenho sempre alguns livros em andamento inclusive, no ano passado, iniciei a escrita de outro romance. E neste momento estou em meio à preparação de uma novela com publicação programada para novembro, na Balada Literária.