Coordenador científico não teme turismo predatório com ‘fama’ do Geoparque Seridó: ‘pés no chão’

24/05/2022

Por: Renato Moraes
Foto: Emprotur/RN

 

O Seridó potiguar está na mídia. O bordado do vestido da esposa do ex-presidente Lula saiu de Timbaúba dos Batistas. Os de Caicó andaram por mostras de artesanato Brasil afora. A ocupação do Seridó é tema de inúmeras pesquisas e livros. Mais recentemente, a região ganhou, literalmente, o mundo, com o reconhecimento do Geoparque Seridó como Geoparque Mundial pela Unesco. Coordenador científico do geoparque, o geólogo Marcos Nascimento não teme que essa “fama” possa atrair um turismo predatório para o território. “Temos os pés no chão. Nosso foco sempre foi o desenvolvimento sustentável da região”, relata.

 

“Nosso planejamento passa por capacitação dos guias e condutores de turismo, com vários cursos, incluindo interpretação do meio físico; diálogos constantes com artesãos e proprietários de pousadas e hotéis; além de diferentes outros atores ligados ao trade turístico”, explica o geólogo, mestre e doutor em Geodinâmica pela UFRN. Nascimento é professor do Departamento de Geologia da universidade desde 2009.

 

“O turismo sustentável é o DNA do geoparque”, completa o escritor e poeta seridoense Janduhi Medeiros. Natural de Ouro Branco, Medeiros é um estudioso da história  da ocupação judaica no Seridó, pesquisa que virou livro: A pedra na cruz. “O Seridó é um estado de espírito”, costuma dizer. Ele conta que recebeu com muita alegria o reconhecimento da Unesco ao Geoparque.

 

Processo durou dois anos

Marcos Nascimento lembra que da candidatura até a certificação foi um processo longo, que durou dois anos, também em função da pandemia. Foram vários documentos, incluindo Carta de Intenção, Dossiê de Candidatura, Formulário de Auto-avaliação, Resumo de Informações Geológicas e Geográficas dentre outros, além da visita in loco de dois avaliadores da Unesco para verificar todas as informações repassadas nos documentos, enumera. “Fizemos a entrega de tais documentos em novembro de 2019 e fomos avaliados no território em novembro de 2021”, resume.

 

A equipe de gestão do Geoparque é formada por 11 pessoas, sendo uma Diretora Executiva, um Coordenador Científico, um Geocientista e Coordenador de Divulgação, um Consultor Jurídico e um Consultor Contábil, além de um representante de cada município responsável pelas ações de conservação, educação e turismo.

 

Origens

Segundo informações disponíveis no site, a instalação do geoparque começou no início da década de 2010, no âmbito do Programa de Geoparques do CPRM (Serviço Geológico do Brasil). Um dos focos foi a riqueza geológica da área, resultado de processos naturais ao longo de 2 bilhões de anos. Além disso, a história socioeconômica da região, os registros de presença de povos antigos, a gente do Seridó. “O reconhecimento é fruto de inúmeras ações a favor da conservação, educação e turismo, de uma gestão compartilhada e trabalho em rede”, diz o coordenador científico do geoparque.

 

Emprotur/RN

 

Distante 180 km de Natal, o geoparque tem uma área de 2.300 km2, inseridos em seis municípios: Acari, Carnaúba dos Dantas, Cerro Corá, Currais Novos, Lagoa Nova e Parelhas. “São cerca de 120.000 habitantes”, explica Nascimento.

 

Turismo sustentável, história e cultura

Para o turista, as principais atrações do Geoparque estão inseridas em seis geossítios, embora toda a região seja repleta de atrativos. Em Cerro Corá, destaque para a nascente do Rio Potengi, a Serra Verde, o Cruzeiro e o Vale Vulcânico. Em Lagoa Nova, o Mirante Santa Rita e o Tanque dos Piscianos. Em Currais Novos, a Lagoa do Santo, o Pico do Totoró, Morro do Cruzeiro, a Mina Brejuí e o Cânion dos Apertados.

 

O geossítio de Acari abriga locais de interesse como o Açude Gargalheiras, Poço do Arroz, Cruzeiro de Acari e Marmitas do Rio Carnaúba. Em Carnaúba dos Dantas, a Serra da Rajada (foto abaixo), o Monte do Galo, Xiquexique (sítio arqueológico) e Cachoeira dos Fundões. Em Parelhas, o Açude Boqueirão e Mirador.

 

Matheus Silva

 

Os geossítios podem ter uso científico, educativo e/ou turístico, explica Nascimento. “No caso dos turísticos, lançamos mãos daqueles que melhor contam sua história natural e que muitas vezes estão associadas a histórias culturais. Porém, os visitantes não vão apenas a esses geossítios, mas também visitam as igrejas, mirantes, museus, fazem terapias holísticas, conhecem a gastronomia, dentre outras atividades”, explica.

 

“Eu conheço alguns pontos, todos têm a mesma importância. A cidade de Acari, do ponto de vista histórico. Em Carnaúba dos Dantas, tem o elemento da música. A Mina Brejuíi, pela importância econômica que já teve. Qualquer ponto que você escolher para conhecer vai estar conhecendo essa atmosfera dessa região. Toda a atmosfera cultural e natural do Seridó”, completa Janduhi Medeiros.

 

“Nós temos em nosso site - www.geoparqueserido.com.br - não só o contato da equipe de gestão, como de inúmeros guias e condutores de turismo cadastrados junto ao Geoparque. Todos estão devidamente preparados para fazer o visitante ter experiências inesquecíveis”, diz Nascimento.

 

Em busca da luz do Seridó

Quem também conhece bem o Seridó é o fotógrafo e jornalista Alex Gurgel que, desde 2012, depois de abrir uma escola de fotografia, organiza exposições fotográficas pelo RN e estados vizinhos. As expedições surgiram para o exercício prático com os alunos. Mas não apenas isso. “Nascem da paixão pela fotografia e pela necessidade de viajar. É muito bom você agregar cultura, entretenimento, turismo e fotografia, mas sempre de uma forma desafiadora, com uma luz diferente”, conta.

 

Até o fechamento desta matéria, Gurgel já tinha três expedições organizadas. Para o Seridó (Currais Novos), dias 28 e 29 de maio. Para Mossoró, no dia 12 de junho e Recife, dia 12 de junho. O projeto é denominado Engenho de Fotos.

 

Castelo de Bivar, em Carnaúbas dos Dantas, fotografado em expedição ao SeridóAlex Gurgel

Em Currais Novos, Gurgel e os expedicionários pretendem visitar (e fotografar) a Mina Brejuí, o Cruzeiro, “que é um lugar maravilhoso, e também Os Apertados (Cânion). Mas já fomos a Parelhas, Cerro Corá, Carnaúba dos Dantas (foto acima). O Geoparque tem muito o que se explorar”, diz Gurgel, que completa com mais alguns pontos de interesse para aventura e fotografia.

 

“O final de tarde em Currais Novos, o Sítio Totoró, a Pedra do Sino e a Lagoa do Santo, tudo muito bom pra fotografar, pra conhecer, para desbravar”. No entanto, o fotógrafo recomenda que esse tipo de atividade requer alguns cuidados básicos como uso de botas, calça comprida, por exemplo. “Eu tenho o curso de guia. Mas quem não conhece o lugar, não é recomendado se aventurar sozinho. Sempre é bom contratar um guia, um condutor que conheça a região”, adverte.