Wellington Duarte

06/02/2021
 
Paulo, o brasileiro que virou suco
 
 
Paulo (nome fictício) teve um susto essa semana, quando viu o preço da gasolina aumentar mais uma vez, chegando a R$ 5,199, num posto perto de sua casa. Paulo fez as contas: geralmente consome, por mês, 3 tanques de gasolina por mês com seu pequeno Up, e isso daria arredondados R$ 780,0/mês. Paulo lembra que foi um dos detratores da presidenta Dilma, quando esta curvou-se às pressões do mercado e passou a liberar os aumentos de combustíveis, que antes eram represados para não afetarem toda a cadeia que tem nos combustíveis insumos importantes, evitando aumento de preços e para proteger Paulo, um pequeno comerciante então. Paulo vociferou e amaldiçoou Dilma e soltou foguetões quando ela foi deposta.
 
Paulo achou muito legal quando Temer começou a implementar sua política de destruição do Estado brasileiro, Paulo, que naquele momento achava que tinha que se retirar direitos dos trabalhadores porque ele, como pequeno comerciante, eram quem sofria as agruras da economia e obviamente debitava isso na conta do “maldito petê” e foi com esse ódio que Paulo votou em Bolsonaro porque ele era “contra o sistema”, “ia acabar com o petê” e “dar um fim na corrupção”. Paulo tinha até um adesivo no carro com louvores à Lava Jato e um dos seus heróis era o juiz Sérgio Moro.
 
Paulo, que teve seus 2 filhos beneficiados pelo REUNI, um programa que abriu as portas das universidades e institutos federais, defendia, sem nem pudor, a “privatização das universidades”, que ele considerava um “antro de comunistas safados”. Paulo, um “cidadão do bem”, um “cristão” de fim de semana e que nutria um estranho ódio pelos “viados” e “frescos”, pois na sua juventude, lá pelos anos 80, isso não existia, pois, todo mundo era “macho”.
 
E o que tudo isso tem a ver com a não política de combustível do mandrião? Bem, Paulo perdeu seu pequeno negócio, que sucumbiu à crise de 2017 e 2018 e tornou-se motorista da Uber, comprando seu Up para ser “finalmente independente”. Com a pandemia Paulo se viu às voltas com novos problemas, pois sua esposa perdeu o emprego. Paulo recorreu ao “auxílio emergencial”, que, segundo ele, foi dado pelo presidente contra a vontade do Congresso e agora, quando Paulo sobrevive da Uber e sua esposa faz docinhos em casa, com uma renda mensal que mal chega nos R$ 1.500, vê suas parcas economias se transformarem em pó.
 
Nesse começo de 2021 Paulo olha por seu carro, já bastante surrado, e pensa em como conseguirá colocar comida na mesa de casa. A coisa tá feia. Antes Paulo se preocupava em como seria o final de ano com as viagens de sua família e agora se preocupa com o dia de amanhã.
 
Paulo, entretanto, se volta para o noticiário, que diz estar o presidente disposto a “zerar” os impostos de combustíveis, se os estados o fizeram. Paulo louva Bolsonaro e diz ele sim é um “homem de verdade” e que a culpa do aumento dos combustíveis é dos governadores.
 
Paulo baixa a cabeça e com o olhar cansado diz: isso é coisa de Deus. Um dia vai mudar.