Wellington Duarte

06/03/2021
 
Economistas de proveta e os que saracoteam com a morte
 
 
Uma das mais bizarras discussões que tenho presenciado nestes tempos sombrios, é a forma de como se tratar a questão dos recursos governamentais e sua alocação. Nas últimas semanas, o noticiário, especialmente da poderosa Rede Globo de Televisão, vem se concentrando num rito de celebração da Proposta de Emenda Constitucional n° 186, recentemente no Senado, em primeiro turno (03) com 68 votos favoráveis e 18 contrários; e num segundo turno 62 senadores votaram favoráveis à essa proposta, que na próxima semana será votada nas carreiras, conforme quer o presidente da Câmara, Arthur Lira. O relator, no Senado, limitou a R$ 44 bilhões o valor disponível para pagamento do auxílio emergencial. Lembrando que a primeira versão do auxílio ultrapassou os R$ 300 bilhões de custo total e foi paga a cerca de 68 milhões de pessoas, ou seja, a nova proposta representa uma redução absoluta de R$ 256 bilhões e, num cálculo simplório, atingirá 10% dos que receberam esse auxílio anteriormente.
 
Dá arrepios na espinha desse escriba, o que a Câmara de Deputados pode fazer com essa PEC, dado que o balcão de negócios chamado “Centrão” é que comanda (sic) essa nau sem rumo chamada BraZil. Como economista e professor de um curso de CIÊNCIAS econômicas, já me acostumei a todo tipo de comentário desarvorado sobre fatos econômicos. Isso se deve, pelo menos na minha visão, no fato de que os menos informados confundem FATO ECONÔMICO com ANÁLISE ECONÔMICA. O “economês” é difundido como uma praga da anti-informação e muitos ignorantes em CIÊNCIA econômica, se arriscam a fazer comentários econômicos baseados em achismos, outra praga contemporânea.
 
Mas o pior é você se deparar com economistas defendendo a postura econômica desse governo. É um atentado à razão ver pessoas evocando o “controle de gastos”, em plena ruína econômica e com uma pandemia presente, como se tivéssemos uma iniciativa privada pujante e pronta para retomar os investimentos, o que é uma piada de péssimo gosto. A PEC 186 propõe enfraquecer o setor público, que é quem está na linha de frente da pandemia, desmantelando a carreira e a vida de simplesmente 11 milhões de trabalhadores, 6 milhões deles da esfera municipal, que ainda tem ainda alguma renda para consumir, algo que milhões não tinham, não tem e não terão. 
 
É fato que a CIÊNCIA econômica abarca pelo menos quatro escolas do pensamento (clássica, marxista, neoclássica e keynesiana), com suas vertentes, que tem posicionamentos diferentes e divergentes, muitas vezes contencioso, em como tratar a produção e a distribuição de riqueza produzida numa sociedade. Mas no BraZil parece que emergiu uma nova “escola”: o liberalismo de proveta. Por que de proveta? Porque é fruto de um ensaio malsucedido de tentar forjar um pensamento liberal brasileiro, baseado em manuais rebuscados de economia, há muito esquecidos. Nasceu um monstrengo que vive pregando a redução do Estado na economia, mas adora quando este lhe dá conforto e carinho com medidas que lhe favorecem.
 
E dessa proveta nasceu um pensamento liberal primitivo, baseado em escolhas pseudo-racionais e que, numa situação dessas, escolhe defender o campo da morte, pois defender o encolhimento do setor público e o seu enfraquecimento é condenar milhões de brasileiros à morte, quer por fome, fruto da irresponsabilidade de um governo que em nenhum momento pensou em ajudar os pequenos empresários; quer por COVID-19, pois o desespero é muito mais forte do que a apatia, em momentos de fome. O patético apelo das autoridades locais, que enfrentam o Mandrião Genocida, é um grito no deserto.
 
O liberalismo de proveta, no BraZil, deu voz a um tipo de lógica que é estarrecedora. A redução do auxílio emergencial, que impediu uma queda apocalíptica do PIB em 2020, é uma amostra disso. Qualquer pessoa de bom senso sabe que estamos numa situação ANORMAL e países centrais, a maioria deles na União Europeia, tiveram a coragem de colocar dinheiro em circulação para evitar o colapso social e os resultados, ainda tímidos, revela a justeza de suas decisões. Aqui no BraZil esses liberais rústicos querem enxugar cada vez mais a liquidez da moeda, empurrando o país para a depressão econômica. Não temos inflação porque simplesmente a economia empacou.
 
No BraZil o liberalismo de proveta, base do pensamento dessa elite rastaquera, colocou na cabeça que o fechamento das atividades, por poucos dias, resultará num cataclismo econômico, uma bobagem que irrita. O tal fechamento, pelo contrário, evitará que o governo, cujo gastos querem cortar, não gastará mais recursos para prover os doentes, ou será que esses liberais acham que o dinheiro para enfrentar a COVID-19 está disponível, principalmente depois do famigerado Teto dos Gastos? Ouvindo o discurso dessa elite empresarial, parece que os governadores e prefeitos querem parar as atividades econômicas por uma década.
 
Mas, gritam os liberais de proveta, milhares de pequenas quebraram e as pessoas “precisam trabalhar”. É fato que as pequenas empresas simplesmente quebraram, mas desde o início da pandemia se colocava a necessidade de repassar recursos diretos para que estes pequenos empresários pudessem manter a vida dos trabalhadores e, com uma situação mais favorável, aos poucos a economia voltaria ao normal. Não aconteceu isso e o empresariado trabalhou arduamente para abrir as portas e brincar com a Morte. E ela aceitou o convite.
 
Mas os liberais de proveta, gente sem empatia, enxergam “oportunidades” nesse cenário desastroso. Acham que “estamos melhorando” porque as atividades industriais deram um pequeno impulso, mas não ponderam que a relação custo-benefício, criado pelos próprios liberais, não combinam com a posição de enfraquecer o setor público, destruir as carreiras dos servidores públicos, abandonar os pequenos empresários à própria sorte e sabotar o combate à pandemia. No momento que mais precisamos do setor público, estamos enfraquecendo-o. 
 
Bloquear as atividades econômicas por alguns dias, salvará a economia e aqueles que formam essa elite pantagruélica deveriam deixar de ouvir os liberais de proveta e enxergar que sem vida não economia. Por enquanto as funerárias estão agradecendo aos liberais de proveta e a elite chinfrim desse país.