Wellington Duarte

17/04/2021
 
A pandemia que gerou a “economia da burrice” e os sortilégios dessa pseudo-ciência
 
 
Após mais de duas décadas como ECONOMISTA e exercendo a função de professor universitário, me deparo com uma miríade de besteiras proferidas por economistas, “analistas econômicos”, “economistas de facebook”, “usuários de economia”, leitores errantes que confundem ECONOMIA com CIÊNCIA ECONÔMICA e toda uma variedade de “opinadores” de economia, além de professores que ensinam as mais diversas áreas da CIÊNCIA ECONÔMICA e que parecem ter uma monumental preguiça de ler livros de história, desconhecendo, portanto, as sutilezas nada sutis da economia capitalista.
 
Aliás, a própria econômica do governo é um dos exemplos mais incontestáveis de que um grupo de pessoas que pretensamente tem a qualidade técnica e de conhecimento, para formular políticas econômicas e ajudar o governo a tomar decisões de política monetária e fiscal, não significa necessariamente competência na leitura da conjuntura econômica, e aí teremos um cenário em que o descalabro econômico, que começou, em 2015, como uma crise econômica; evoluiu para uma crise econômica, fiscal e social em 2017; e chegamos à devastação econômica, programada é verdade, a partir de 2019.
 
Não temos, em Brasília, uma equipe econômica preocupada com o desenvolvimento do país, olhando para a situação atual de pandemia, mas com a “adequação” do país às novas condições, sob a liderança quase santificada do MERCADO, um ente abstrato que no BraZil recebeu os dotes humanos e determina, por assim dizer, as tomadas de decisões governamentais, o que é algo verdadeiramente bizarro.
 
Tudo está DOCUMENTADO, como é o caso do “Boletim MacroFiscal da SPE Conjuntura Econômica e Perspectivas para 2021”, publicado agora em março. Para os leigos, a SPE e a Secretária de Política Econômica do Ministério da Economia, um documento que expressa a cretinice da atual equipe econômica, com a manipulação grotesca de dados reais, transformando o inferno em céu, com a conclusão do secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, e o secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, que que o cenário atual apresenta indicadores positivos, como melhoras das expectativas de empresários e consumidores em relação à economia.
 
O grotesco ainda se revela quando, segundo a SPE, “a pandemia da Covid-19 gerou impactos no mundo inteiro, com efeitos sanitários e econômicos devastadores, mas, dentro desse cenário, a retração do PIB brasileiro em 4,1% no ano passado representa resultado bastante positivo”, revelando uma completa sem-vergonhice desses técnicos, pois, ou são burros ou são canalhas, ou são os dois, o que parece indicar. 
 
Enquanto os economistas do governo deliram, a chamada “economia real” está absolutamente destruída, expresso na enorme quantidade de empresas, a maioria micro, pequenas e médias, que sucumbiram à pandemia, esperando o tal crédito que o governo prometeu e que nunca veio, o que fez com que a maior parte desses empresários se somasse ao “exército da Morte”, pleiteando a abertura das empresas, embora estejamos numa fase sombria da mesma, basicamente em função da “não ação” do governo na área econômica e na sabotagem com relação ao combate ao COVID-19.
 
A “economia da burrice”, que parece ser uma nova área analítica do campo não científico da CIÊNCIA ECONÔMICA, desconhece, por exemplo, que os efeitos deletérios de uma não ação governamental, somado aos efeitos recessivos provocados pela “agenda negativa” criada em 2016 pelo governo Temer, fizeram explodir o desemprego, que no caso do RN, chegou, em 2020, a 15,8%, o que, somados aos que estão trabalhando abaixo do que poderiam e dos que desistiram de procurar emprego, chegam a quase 40% da força de trabalho potiguar o que, em números absolutos, pode chegar perto de 600 mil pessoas, sem contar com os que mergulharam na informalidade, um espaço em que a instabilidade, insegurança e incerteza, são os fatores preponderantes.
 
Lembremos que uma crise econômica atinge mais duramente os espaços econômicos, no caso o RN, que tem uma estrutura produtiva frágil e ultrapassada, o que nos faz perguntar onde estavam os capitalistas, ao longo da nossa história, que transformaram o RN nesse lugar tão pouco dinâmico. As chamadas, pelo IBGE, Classe D, que são pessoas que recebem entre R$ 2.091 e R$ 4.180 e a Classe E, formada por pessoas que ganham até R$ 2.090, representam 51% dos que ainda tem renda, ou seja, baixo potencial de alto consumo. Sendo que o salário médio dos potiguares se situa em R$ 1.500,00, enquanto o do BraZil, que também é baixo, está em R$ 2.157.
 
Para não me alongar, cabe uma reflexão, aquele esforço que antes era sinal de sabedoria e agora parece ser olhado como um esforço desnecessário, sobre como uma crise de proporções bíblicas pode estraçalhar, inclusive, segmentos científicos, gerando bolsões de burrice, que acabam produzindo toda uma sorte de bizarrices, que buscam dar lógica ao que não tem