Wellington Duarte

18/12/2021

 

Classe média: dos delírios de consumo ao pavor da pobreza

Embora o termo "classe média" tivesse sido usado pela primeira vez no panfleto de James Bradshaw, de 1745, ‘Esquema para impedir a importação da lã irlandesa na França”, de caráter protecionista e opressor, já que pretendia simplesmente impedir que a lã irlandesa fosse comercializada no continente, beneficiando os setores médios franceses, o uso moderno do termo, data do relatório do Registrador Geral do Reino Unido de 1913, no qual o estatístico T.H.C. Stevenson identificou a classe média como aqueles situados entre a classe alta e a classe trabalhadora. 

Essa classe média,  que tem tido, ao longo da história se comportado de maneira pendular nos embates políticos, ora aproximando-se da esquerda, ora somando com a direita e, em alguns casos, dando força para a extrema-direita (inclusive fascista), fazendo jus a esse “pendularismo juramentado”, começa a abandonar aquele que, em 2018, foi objeto dos seus “desejos” profundos, de tirar o “petê” do poder e dar uma “oportunidade” para que “alguém diferente” desse um “novo rumo” para o país, ou seja, entregaram o poder a uma horda de malucos trogloditas, que destruiu o país.

Não é fácil identificar “os classe média”, mas basta estar num churrasquinho de fim de semana, num desses milhares de condomínios que dão a impressão de que essas pessoas estão a passo de se tornarem ricas e, quando olham suas contas, cada vez maiores, se veem no pesadelo de estarem a um passo da pobreza, veremos os “tios” e “tias” reacionários que trazem o discurso recheado de ignorância e preconceito. Você os encontrará no seu trabalho, nas atividades de lazer. São como um vírus cuspindo na cara do trabalhador sua imbecilidade.

Essa camada da sociedade, que surfou alegremente nos 13 anos de administração petista, chegou a estapafúrdia conclusão de que tudo que ele conseguiu, partiu do seu esforço pessoal ou foi “obra e graça do espírito santo”. Com a chegada do Mandrião ao poder e com a Pandemia, a segunda praga em dois anos, o “esforço pessoal” se mostrou um delírio e a “obra e graça do espírito santo” evidenciou que essas pessoas acreditaram em unicórnios e levaram chifradas de touros enfurecidos.

A queda de 4,5% do PIB em 2020, foi um dos muitos indicadores da queda da renda média dos trabalhadores e do aprofundamento das falências dos micro, pequenos e médios negócios. O empreendedorismo, nome pomposo para os refugiados do capitalismo excludente, ficou a mercê do mercado, que mostrou a realidade lógica do movimento do Capital: excludente por natureza.

Os microempreendedores individuais (MEI), que são 11 milhões que, somados aos quase 14 milhões de desempregados e 40 milhões de informais, formam um exército de 65 milhões de brasileiros em situação de risco social e nesse bolo estão os que formam essa classe média, que dependem efetivamente de uma economia em constante crescimento.

Em uma conjuntura como a que estamos, num país desgovernado e sem nenhum tipo de projeto ou sequer programa de governo, o futuro tornou-se menos uma esperança de melhoria na qualidade de vida, e mais um olhar desesperado para que as coisas melhorem.

 A classe média, com bolso e a conta bancária encolhendo, pela perda do bom emprego ou do negócio da família, está diante da “impotência social”, ou seja, o seu esforço pessoal é apenas esforço, nada mais do que isso. Não há perspectiva de retorno desse esforço.

 Não há um futuro, pelo menos a curto prazo, para que a classe média possa seguir tendo os mesmos pequenos prazeres, vendo seus sonhos e ilusões cada vez menos próximos de serem concretizados, e vivenciando até mesmo situações que consideraria humilhantes vexatórias, tem um drama particular para ser vivido nos próximos tempos.

Não se pode esperar, entretanto, que a classe média se mova como classe e compreenda o quanto ela está definhando, pois ela vive, sob determinados aspectos, condicionada pelo pensamento da classe dominante, a dos verdadeiros capitalistas, que forja um posicionamento enigmático dessa classe média nos próximos tempos, especialmente nas eleições de 2020.

Fica bem claro que não basta apenas eleger um progressista para a presidência. Precisa de uma base parlamentar, com deputados e senadores, e eles são eleitos dentro do “caldo cultural” onde se situa a classe média, restando saber como esse segmento se comportará.