Em Cabo Verde, as tecnologias educativas na mitigação dos efeitos da COVID-19

30/07/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Bento Silva (Universidade do Minho)
Foto: Dra. Silvia Cardoso (Universidade Nova de Lisboa)

Em Cabo Verde, as tecnologias educativas na mitigação dos efeitos da COVID-19

Silvia Maria Castro Fortes Cardoso é Doutora em Ciências da Educação, especialidade de Desenvolvimento Curricular, pelo Instituto de Educação da Universidade do Minho, grau obtido em 2008, tendo também um pós doutoramento em Sociologia da Educação e do Currículo, pela Universidade Nova de Lisboa (ano de 2016). É docente do ensino superior (desde o ano de 2000) e, atualmente, é investigadora na Unidade de Investigação em Educação para o Desenvolvimento (UIED) da Universidade Nova de Lisboa e consultora do Ministério de Educação da República de Cabo Verde para as Políticas Educativas e Formação de Professores. Na sua entrevista aborda as tecnologias usadas na educação escolar para mitigar os efeitos da Covid-19. Uma EaD híbrida, designação que considera mais adequado à realidade vivida em Cabo Verde, foi desenvolvida e implementada, envolvendo um projeto apelidado “Aprender e estudar em Casa”. Considera que este projeto, em termos de desafios para o ensino, impôs aos professores a manifestação de competências em literacia digital, cujo domínio não se verificava para muitos deles, e que às fragilidades científicas e técnicas, juntaram-se a precaridade de equipamentos, pontos de acesso e cobertura de rede da internet. Para o próximo ano letivo há a considerar e superar as limitações identificadas antes e durante o período contingencial, a que “urge dar resposta para se manter uma educação escolar de qualidade tão necessária para a formação de crianças e jovens à altura dos desafios da Sociedade da Informação e do Conhecimento em que vivemos”.

1. Como se deu o momento de início do estado de emergência em Cabo Verde face à Covid-19? Na ocasição foi apresentado algum plano para o país?

A COVID-19 impôs um estado de emergência sanitária à escala global. A 11 de março de 2020, ainda sem casos registados, o governo assumiu um Plano Nacional de Contingência para a prevenção e o controlo da infeção no país. Perante o primeiro caso de infeção, na ilha da Boa Vista, a dia 20 de março, o Ministério da Educação antecipou as férias escolares do 2º período em todos os jardins-de-infância e escolas básicas e secundárias dessa ilha. Na sequência, a 23 de março procedeu ao encerramento das instituições escolares, em todo o país, ao abrigo da Resolução nº 50/2020, de 18 de março.  

2. Face a esse encerramento das escolas, quais foram as medidas e orientações alternativas decididas pelo Ministério da Educação de Cabo Verde?

O governo declarou o estado de emergência e o Ministério da Educação teve que recorrer à Educação à Distância (EaD). Para isso, equacionou as condições e os mecanismos de implementação possíveis e o funcionamento contingencial da EaD, nos ensinos pré-escolar e escolar. Segundo o Ministério da Educação, o referencial de EaD foi desenvolvido com base nas orientações internacionais (da UNESCO, da UNICEF e de outros parceiros internacionais). Iniciou, então, o ensino-aprendizagem remoto com transmissão nacional e com diferentes condições de acesso, mediante um regime de exceção usando os meios tecnológicos com que podia contar no momento (a teledifusão, a radiodifusão e a internet).   

3. Como pesquisadora do campo da educação, como nomearia essa experiência educativa realizada em Cabo Verde? Já falou em Educação a Distância e em Educação Remota, qual a melhor designação para a experiência vivida no seu país?

Uma EaD híbrida, designação que considero mais adequado à realidade vivida em Cabo Verde, foi desenvolvida e implementada, envolvendo um projeto designado de “Aprender e estudar em Casa” muito similar ao projeto desenvolvido em Portugal “Estudo em Casa”, o qual se fez acompanhar de atividades complementares de reforço, numa lógica de personalização do apoio à distância pelo professor às suas turmas. Basicamente, em Cabo Verde, o projeto constou das aulas televisivas e radiodifundidas, gravadas a partir das estruturas centrais e envolvendo os serviços da rádio educativa, professores e técnicos e equipamentos dos serviços públicos da comunicação social. 

4. Quais são as características centrais do funcionamento desse Projeto?

O projeto EaD foi composto de um programa educativo, produção de aulas para disseminação nacional, formação de professores (exploração de recursos digitais), o acompanhamento dos alunos através de plataformas EaD envolvendo delegações, professores e pais, todos esses com responsabilidades partilhadas. Colocou-se o problema de enquadramento e gestão de um modelo de ensino não presencial, de circunstância, baseado em dispositivos e conteúdos informáticos de gestão escolar e pedagógica que viabilizasse a disseminação de conteúdos, a avaliação das aprendizagens e o acompanhamento dos alunos, na nova e complexa realidade para todos.

Criado esse modelo de EaD híbrida, o Ministério da Educação incitou a comparticipação dos pais no estudo em casa e na realização das tarefas escolares, com diferentes respostas dos encarregados da educação e outros familiares nos agregados dos alunos. Lá onde foi impossível chegar aos alunos, devido a falta de cobertura de rede ou de equipamentos, as delegações e os professores procuraram fazer chegar a suas casas recursos de aprendizagem impressos.

5. A partir da descrição das características desse projeto percebemos que envolveu diversos agentes da educação, com relevo para responsáveis do ministério da educação, gestores das escolas, professores, alunos e famílias, pode referir algumas das ações previstas para esses agentes educativos?

A EaD teve diferentes finalidades. Junto dos alunos, foi a de manter o seu contacto com a escola, com os professores e com os conteúdos de aprendizagem, face à impossibilidade da manutenção das aulas presenciais. Para o Ministério da Educação, educadores escolares e familiares dos alunos, visou facilitar a continuidade educativa como uma oportunidade de os alunos consolidarem as aprendizagens já realizadas com explicações, resolução de dúvidas, estímulos e treinamento, bem como assegurar uma transição adequada na retoma do ensino presencial.

6. Em relação aos conteúdos de aprendizagem, e uma vez, como já referiu ter havido aulas com recurso a televisão e rádio, houve preocupação com a produção de material didático no âmbito desse projeto? E também em relação aos professores para atuarem em EaD foi feita alguma formação específica?

Por esse projeto (“Plano Nacional de resposta aos efeitos da Covid19 na Educação”, preparado pela Direção Geral de Planeamento, Orçamento e Gestão - DGPOG e lançado em 20 de abril de 2020) foram produzidos, numa primeira fase, 384 vídeo e rádio aulas (do pré-escolar ao escolar), num período de dois meses. Na totalidade, o projeto comtempla 640 aulas, transmitidas na pela televisão e rádios estatais e rádios comunitárias.

Da formação de educadores, foram inscritos cerca de 2036 participantes, mas apenas 1929 professores estiveram ativos no moodle. Foram elaboradas fichas de apoio para os alunos e fichas e para os professores das escolas sem cobertura e para os alunos sem recursos tecnológicos. Os professores tentaram colmatar as dificuldades de cobertura de rede e foram disponibilizados nas plataformas do Ministério da Educação os conteúdos online para acesso da comunidade educativa.

7. Sobre essa experiência educativa de resposta aos efeitos da Covid-19, quais foram os desafios revelados aos quais urge dar resposta para os tempos mais próximos?

Em termos de desafios para o ensino, este projeto impôs aos professores a manifestação de competências em literacia digital, cujo domínio não se verificava para muitos deles. Às fragilidades científicas e técnicas, perante a exigência de competências no âmbito das TIC, de produção de conteúdos e de realização do trabalho pedagógico em ambiente virtual, juntaram-se a precaridade de equipamentos, pontos de acesso e cobertura de rede da internet.

Para o próximo ano letivo, a nível tecnológico e da EaD, há a considerar as limitações identificadas antes e durante o período contingencial, a que urge dar resposta para se manter uma educação escolar de qualidade tão necessária para a formação de crianças e jovens à altura dos desafios da Sociedade da Informação e do Conhecimento em que vivemos.

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

 

Fonte: Dra. Silvia Cardoso (Universidade Nova de Lisboa)