Um Canguleiro no Rio Pequeno

29/04/2019


 
Um rio pequeno e volumoso, parente de mar em tupi, eis a etimologia da palavra Parnamirim. Rio tem água doce, sabemos, mas como um Cangulo consegue viver em água doce? Pois foi assim que este peixe de águas salgadas mergulhou num rio pequeno e volumoso...
 
Faço aqui uma alusão metafórica de meu contato com a cidade de Parnamirim; eu nasci em Caiçara do Norte/RN, sempre gostei de praia, como diz o matuto: “onde eu nasci era tão perto da praia, que quando saía da porta, batia na pedra e já estava dentro d´água”.
 
Bem assim... Agora falando sério: os fluxos das águas da vida me deram o destino daquele rio pequeno (embora tão caudaloso) desde que minha matriarca teve uma passagem por Parnamirim, muito jovem, na casa de seu irmão de criação, Raimundo Moura, que foi soldado e depois cabo da Aeronáutica.
 
O fato é que depois, eu, no movimento secundarista, vim fazer uma ação (solicitada pelos estudantes próximos às ideias da União da Juventude Socialista – UJS) e ajudar a reconstruir o Grêmio Estudantil da Escola Augusto Severo – Semec, no centro de Parnamirim.
 
Foi um episódio de epopeia. O diretor da escola queria Centro Cívico (com um viés militar) e os estudantes queriam valer um Grêmio Livre, segundo a Lei Aldo Arantes, contida na Constituição de 1988, na lei nº 7.398. Desenrolou-se, então, a ação. Chegamos à cidade que foi distrito de Natal/RN, vindo de busão e da empresa monopólio Trampolim.
 
Cheguei na maior ação, me reunindo fora da escola com alguns estudantes. Quando esperávamos o recreio ser sinalizado pela sirene militar, nossa tática era pular o muro logo que tocasse a sirene e então iríamos ao centro da escola, já que as salas ficavam ao redor de forma quadrada, como é até hoje a escola (claro, com reformas). 
 
Um outro afeto, com Parnamirim, foi um festival de Rock em alusão ao “sabugo” que foi realizado na loja da Maçonaria, nas trincheiras da Raquel, velha parada da cidade; me fez ir a uma visita familiar da mãe de Maiakovski, do qual estava grávida. Naquela noite de Rock fomos felizes, sentindo Maiakovski dançar aos balanços da música de “Vinho Barganha” e “A Máquina”.
 
Então chegou o momento em que fiz um concurso para Professor, em 1997, tive êxito e escolhi Parnamirim para morar, me senti acolhido (apesar de alguns pesares). Chegado a Parnamirim, foi um verdadeiro desafio de Cangulo em Rio Pequeno; entrei numa guerra e como bom soldado nunca pedi arrego.
 
Como a prática é o critério da verdade, coloquei a cara a tapa para um enfretamento contra o poder municipal, disputando a vanguarda do SINTSERP e em seguida fazendo disputas políticas para a câmara de vereadores; como vivo a vida intensamente, estas experiências foram educativas para a missão de paciência com o estúpidos, hipócritas, imbecis e idiotas; instrumentalizados com as estruturas da anomia e do estereótipo de estrutura que elege tipos, por exemplo, como o pateta que temos.
 
E uma das coisas que absorvo desta cidade é sua transformação do outono para o inverno, a cidade é diferente da capital, da qual tive mais tempo de vida de vivência. Para mim, este período outono/inverno é um espetáculo da natureza, quando um frio do sul vem bater aqui, não sei se porque  moro em Bela Vista e lá temos esse privilégio da frieza saudável ao corpo humano; além disso, a cara da população de Parnamirim é de um povo trabalhador, não é por acaso que já foi o maior parque industrial do RN, onde se cultua a arte, o valor e a utilidade do trabalho como bem comum  humano.
 
Quantas vezes distribuí o “Bichiga Taboca” (um fanzine que editei de 1997 a 2005) e com o qual as pessoas se identificavam, contagiadas com aquele meio de comunicação incomum ao jornalismo oficial, fazendo circular resenhas nos alternativos que explodiam como outra opção de transporte barato e contra o monopólio da empresa-mor.
 
A cultura alternativa que resiste perante as estruturas patriarcais, hegemônicas e fundamentalistas em nosso município; mas entre o sacro e o profano, Parnamirim respira por liberdade nos porões do sufoco político que perdura nas asas que não são de liberdade, mas de controle.
 
Nas ondas dos embates, deixo registrado meu ato libertário quando fui capaz de, juntamente com Silvio Cigano, Rafael e outros surfistas, de criar a ideia do Surf Clube Piúm. Nessa resistência, lembro os resistentes da cultura popular dessa cidade como Djair Paraguay, os terreiros sufocados, os bereus escamoteados pelas estruturas amórficas da hipocrisia, dos poetas do hip hop e reggae, dos boêmios censurados nas talagadas no mercado, do cordel de Acaci, da suave e poética de Ismael Alves, das quadrilhas juninas, do sabugo, do sebo Zahir e de todos os clandestinos perante a oficialidade... 
 
Aqui brindemos Parnamirim, nesse universo de contradição e comunhão a dizer que ela, Parnamirim, vive em nós e nós vivemos com ela!