José Pinto Júnior

05/08/2018
Vou embora para Pasárgada virtual
 
Estou adorando o Facebook porque é território de alegria. Lá temos milhares de amigos felizes. Nos debates e comentários há coisas chatas, é verdade! Mas no geral, a felicidade não é interrompida. O sorriso é largo e permanente. Se possível fosse, sinceramente, me mudaria de mala e cuia para dentro homepage e lá viveria feliz para sempre como nos contos de fadas.  Viveria sem nó na garganta e sem frangir a testa. Acordaria sem a cara amassada e com os cabelos penteados com gel e tudo. Barba feita e um café da manhã mágico para ganhar curtida de cinco mil amiguinhos. Depois, apareceria jogando tênis ou vencendo uma corrida de rua. Talvez abraçando um cachorrinho. No final do dia, voltaria a dormir uma noite revigorante e sem insônia ou pesadelo.  Se tivesse Facebook em 1930, Manuel Bandeira não iria para Pasárgada, se mudaria para o Facebook. “Vou-me embora pra Pasárgada|Lá sou amigo do rei|Lá tenho a mulher que eu quero||Na cama que escolherei|Vou-me embora pra Pasárgada.
 
Nos dias de hoje, as pessoas não desejam ir para a cidade imaginada pelo autor de Libertinagem, hoje vamos quase todos, para onde a aridez da vida cotidiana desaparece e surgimos nas telas iluminadas como se em Pasárgada estivéssemos. É só alegria!
 
Outra coisa boa. No Facebook, as pessoas são todas bem sucedidas. Ninguém sofre. Não ficam suadas e estão livres de qualquer odor. O sorriso permanente indica que o juro do cartão de crédito não os atinge e o preço da gasolina pouco importa. Até parece o “Poema em linha reta” de Fernando Pessoa. “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campões em tudo”. Esta primeira estrofe ganharia palminhas, já a segunda... “E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, eu tantas vezes irrespondivelmente parasita...” esta estrofe da obra do poeta português não ganha likes no território virtual. É mais adequada aos defeitos que nos caracterizam como humanos em nossas labutas diárias..  Nas redes sociais não existem rugas, existe não estafa, mas o poeta parece esgotado nos versos que segue:  “Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos,”. 
 
Outro dia enviaram-me um vídeo onde um casal oriental protagonizava uma “briga doméstica”. A mulher reclama desesperadamente do marido, para acabar com a pendenga, ele saca o celular. Aponta para ela, indicando que iria fotografá-la ou filmá-la. Então a mulher sorri de imediato, mudando da água para o vinho, das lágrimas para a alegria exuberante, pois vai ser fotografada. Neste quesito, homens e mulheres se comportam iguais, sempre felizes. Quem vai aparecer na rede social chorando? Lá é nossa cidade feliz! Nossa casa é sem defeitos. Só aparecem os melhores ângulos. Nossa vida pessoal é impecável. Só fotografa do melhor lado. “De novo, o meu lado fotogênico é o outro.” Lá não cabe o insucesso pessoal, a desilusão amorosa. Ninguém se esconde diante do mar para chorar de saudade. Não há amor não correspondido. Não existe paixão fulminante, que deixa o indivíduo fora do eixo e enlouquecido.  Não há espaço para o mau humor produzido pelo cansaço de um dia inteiro de desencontros no trabalho e na vida pessoal.
 
No poema do livro Mensagem: Na terceira estrofe, observa-se o autor cansado com a hipocrisia. “Quem me dera ouvir de alguém a voz humana / Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia" / "Que confessasse não uma violência, mas uma covardia”. Para o historiador Leandro Karnal, “o problema do Facebook é que ele faz as pessoas se tornarem obrigatoriamente épicas, bonitas e com vidas interessantes. Hoje dói ser alguém comum ou levar uma vida opaca”. Vou embora para...
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No Facebook apenas os outros são chatos, racistas, machistas, racistas homofóbicos e preconceituosos. Esta palavra chamada defeito é muito conhecida e repetida, mas para os outros, nós e nossos amigos somos bacanas. Inteligentes, pois os outros, copiam e colam. Nós não! Somos generosos e solidários. Os outros são indiferentes. Nós somos anjos a desfilar na passarela do céu para clics e curtidas. Como diria Sartre. “O inferno são outros!”. Nós quase não temos pecados e somos amigos de todos os reis. Pousamos ao lado de pessoas ilustres, pois não temos acesso. Estamos na moda. Sim. Estamos em Passárgada, a tristeza ficou para trás e até,  somos amigos do herdeiro da coroa: “E quando eu estiver mais triste|Mas triste de não ter jeito|Quando de noite me der|Vontade de me matar|- Lá sou amigo do rei -Terei a mulher que eu quero|Na cama que escolherei| Vou-me embora pra Pasárgada.” Alguém me segue?
 
Notícias falsas são compartilhas a vontade, “pelos outros”. É claro!  Lê-se a manchete de uma matéria cujo conteúdo a desmente e compartilha-se. Qual o problema? Bom o problema é que não lemos, apenas visualizamos. E quem não ler tem mais possibilidade de ser enganado. Em entrevista a uma revista brasileira, o escritor Umberto Eco, deixa claro acerca da importância da leitura variada para termos um discernimento sobre do que consumimos em matéria de informação na internet. “A internet é como Funes, o memorioso, o personagem de Jorge Luis Borges: lembra tudo, não esquece nada. É preciso filtrar, distinguir. Sempre digo que a primeira disciplina a ser ministrada nas escolas deveria ser sobre como usar a internet: como analisar informações. O problema é que nem mesmo os professores estão preparados para isso. Foi nesse sentido que defendi recentemente que os jornais, em vez de se tornar vítimas da internet, repetindo o que circula na rede, deveriam dedicar espaço para a análise das informações que circulam nos sites, mostrando aos leitores o que é sério, o que é fraude. Será que os jornais estão prontos para isso? A crítica da internet exige um novo tipo de expertise, mesmo para os jornais. E isso é muito importante para os jovens, pois eles não têm, aos 15, 16 anos, os conhecimentos necessários para filtrar as informações a que têm acesso na rede. Ora, assim como quem lê diversos jornais acaba aprendendo a distinguir as abordagens distintas de cada um deles, os jovens hoje precisam aprender a buscar essa variedade de abordagens nos sites que frequentam.” 
 
Continuo amando estar no Facebook. Mas, lá tem muita gente postando, muitas vezes sem pensar. Compartilhando sem analisar. E quem não ler termina pensado com a cabeça dos outros. Um cara que entende muito de internet, chamado Bill Gates escreveu: “Meus filhos terão computadores, mas antes terão livros”.  Ninguém me segura. Depois da leitura vou embora para Pasárgada!