Romance juvenil resgata ambiente de rock na periferia de SP no final dos anos 80

29/06/2020


 
Quem nunca escutou o som de sua música predileta num volume muito alto?  Pois é o que, na adolescência, se costuma fazer com certa rotina.  Ou ao menos era assim em fins dos anos 80 e começo dos 90, quando o rock nacional leva a garotada a decorar letras e buscar aulas de violão para aprender a tocar as canções de seus ídolos e bandas preferidas. 
 
“Ouça no volume no máximo!”, que bem podia ser recomendação típica dessa época, é também o título do livro do autor José Manoel Ribeiro, que acaba de entrar em lançamento pela Editora Penalux.
 
Para Manoel Ribeiro, seu livro pretende levar o leitor a refletir sobre o tempo. “Propõe uma reflexão sobre as fases da vida, reconhecendo as dificuldades de um mundo imperfeito e injusto, mas sem perder a esperança e a crença no ser humano”, adianta o escritor, que também é professor de Letras e Filosofia,
 
Como dito, o título Ouça no volume máximo! faz referência à relação dos jovens com a música e as “tribos” que se formam em busca de identidade própria. Também se refere aos sentimentos adolescentes que, por tal época de formação (e transformação) da vida, passam por incertezas, medos, angústias, sonhos, paixões etc., e, portanto, querem ser ouvidos “no volume máximo” pelo mundo. 
 
Com boas doses de humor, mas sem deixar de ser reflexiva, a história desenvolvida por José Manoel Ribeiro busca apresentar, num ritmo acelerado, o universo adolescente da periferia de São Paulo, que, apesar de se passar no ano de 1990, último ano dos anos 80, é essencialmente o universo dos jovens de qualquer época (e de qualquer periferia), com suas contradições, medos, anseios, amizades, paixões e intrigas. Paralelamente, a história trata de nostalgia, pois, o personagem principal, André, paulistano filho de nordestinos, está envolto pelas histórias e tradições sertanejas, além da possibilidade de um dia ter de voltar para a Bahia com seus pais, lugar/tempo onde eles esperam reencontrar com o passado, com as lembranças da infância e da juventude, esse “doce labirinto etéreo”. 
 
“André é um rapaz tímido e comum da periferia de São Paulo”, explica o autor. “Filho de migrantes baianos, ele sente na pele o preconceito. Durante sua adolescência muitas coisas acontecem para contribuir com seu crescimento pessoal, desde amizades ‘rebeldes e perigosas’, até a paixão pela irmã de um colega de classe”, relata.
As aventuras urbanas e a pegada pauleira do rock and roll contrapõem ao conservadorismo pacato de pais de André, uma “família pobre, mas direita”. Isso, claro, põe mais pimenta no enredo. 
 
Ouça no volume máximo! é um livro escrito intencionalmente para o público juvenil, mas os leitores mais experientes também encontrarão em sua escrita ágil razões para embarcar em sua leitura. A obra aborda temas importantes, como a violência e o preconceito. Fala também sobre pessoas pouco representadas na literatura – os invisíveis, dessa classe média baixa, proletária, que busca seu lugar no mundo. 
 
“Tentei me fazer representado com um livro que gostaria de ler ou de ter lido na minha adolescência”, justifica-se o autor, que diz haver muito dele no personagem André. “Sua família é muito parecida com a minha”, confidencia.
 
 Embora tenha um pouco de autoficção, este livro é fruto da imaginação de alguém que ama a literatura e reconhece sua importância para a formação dos mais jovens. O tipo de obra capaz de mostrar a leitores iniciantes que a literatura pode e deve ser uma experiência divertida e ao mesmo tempo algo que contribui para a formação de uma mentalidade mais crítica e reflexiva. 
 
TRECHO
 
No começo de 1989, eu havia descoberto a Legião Urbana. Alguma coisa estava acontecendo, e essa coisa tinha uma trilha sonora. Para um país sem refrão, uma música sem refrão. E o pior que eu não entendia boa parte daquelas letras, acho que não as entendo até hoje, mas, ao menos, a sua essência me tocava de alguma forma. “Há Tempos”, “Andrea Doria”, “Índios” e “Faroeste Caboclo” invadiram as rádios, sem refrão e sem explicação. Tudo, naqueles anos, começava pela música. A música fazia de nós as pessoas que éramos. Foi a primeira vez que juntei dinheiro para comprar um vinil, hábito viciante que dava a qualquer adolescente de catorze a sensação de ser adulto. O contrário também é verdade: esse hábito, que voltei a cultivar nos últimos anos, dá a qualquer adulto a sensação de ser adolescente de novo. 
 
SERVIÇOS
 
Ouça no volume máximo, José Manoel Ribeiro – Literatura juvenil (144 p.), R$ 38 (Penalux, 2020). 
Link para compra: https://www.editorapenalux.com.br/loja/ouca-no-volume-maximo
 
O AUTOR
 
José Manoel Ribeiro nasceu em São Paulo, em agosto de 1975. Filho de migrantes baianos, fez o caminho de volta, se estabelecendo na cidade de Jequié, Bahia, vinte anos depois. Professor da Rede Estadual de Ensino, licenciado em Letras e Filosofia, trabalha com jovens e adolescentes há mais de 20 anos. O autor de Ouça no volume máximo! tem dois outros livros publicados, ambos vencedores de concursos literários, Histórias de um lugarejo (2007) e Contos áridos (2014).