Lau Siqueira: ´Existe uma interação entre autores e autoras de todas as regiões`

17/04/2021

Por: CEFAS CARVALHO
 
Gaúcho de Jaguarão, onde nasceu em 1957,  Lau Siqueira mora em João Pessoa desde os anos 1980 (quando se casou com uma pernambucana e passou a morar na capital paraibana), e fez e faz parte do grupo de escritores e poetas que consolidou a forte cena literária paraibana. Escritor, poeta e cronista, tem diversos livros publicados, além de ter participado em antologias e coletâneas. Foi Secretário Estadual de Cultura da Paraíba durante o governo Ricardo Coutinho, tendo realizado diversas ações culturais estruturantes e de formação de leitores e público, além de ter apoiado a realização do primeiro encontro nacional do Mulherio das Letras em João Pessoa. Escreve para portais e sites culturais com regularidade. Em entrevista ao Portal PN, Lau falou sobre sua trajetória literária, projetos, expectativas e muito mais. Confira: 
 
 
Você é gaúcho de Jaguarão, mas já se tornou um paraibano, após tantos anos morando e produzindo em João Pessoa. Como essa mudança de cidades, de regiões, impactou sua vida, sua forma de ver o Mundo e sua literatura?
 
No Sul temos uma cultura e duas línguas. A cultura pampeana é uma só. No Brasil,   Uruguai e no norte da Argentina, principalmente. A Paraíba também se localiza numa região culturalmente muito forte. Fica exatamente no centro do Nordeste. Absorve a sua essência. Tudo isso influenciou e impactou minha vida em todos os sentidos. Existem diferenças, mas também semelhanças fortes. Tanto lá como aqui, a grande paisagem é o povo. Cheguei na Paraíba em 1985, quando o país saía aos poucos de um período sombrio. As marcas da ditadura ainda eram muito fortes naquele momento. Claro, a minha literatura caminhou comigo e passou a beber também nessas circunstâncias. Naquele tempo eu era fascinado pelas vanguardas francesas do final do século 19  e início do Século 20. Na verdade, tudo vai impactando a poesia e consolidando o estilo que, segundo Schopenhauer é “a fisionomia do espírito”. 
 
 
Você participou de antologias no Brasil, Portugal, Moçambique e Argentina, e já foi traduzido para outros idiomas.  Como vê atualmente a amplitude da poesia e como as redes sociais funcionam nesse processo?
 
Acho que as antologias cumprem uma função importantíssima. Revelam apenas um recorte, mas dão luz pra muita voz silenciada. Não falo apenas as nacionais e regionais, mas as internacionais também. Principalmente as que buscam aproximar as culturas abrigadas na Língua Portuguesa. Também as que querem nos aproximar da América Latina. Na UNIPAMPA, em Jaguarão, existe um grupo de pesquisa sobre a literatura feita nas fronteiras. A riqueza é grande. Diferenças e semelhanças. As redes sociais te dão o recurso da troca: receber e oferecer experiências.  O resto é perfumaria ou bafafá de miliciano. 
 
 
Seu primeiro livro foi “O Comício das Veias”, de 1993 e de lá para cá você lançou muitos outros livros. Como vê as diferenças na sua poesia e como avalia a sua linha de livros lançados? Vê equidades conceituais ou diferenças entre eles?
 
Meu primeiro livro foi quase um acidente. Já estava com 36 anos e não tinha vontade de publicar. Escrevia por um permanente exercício poético. Em O Inventário do Pêssego, meu último, fiz uma antologia dos meus quatro primeiros livros. Nunca me preocupei muito com as diferenças e semelhanças. O que mudou, mudou.  O minimalismo me acompanha e define muita coisa na minha escrita: “o máximo de canto, no mínimo de corpo”. Eis o exercício permanente. Na verdade, acho que com o tempo comecei a escrever sem muita preocupação com essas tramas conceituais. 
 
 
Você foi Secretário de Cultura da Paraíba e fez um trabalho elogiado. Fale sobre essa experiência.
 
Quando assumi, em janeiro de 2015, fui almoçar com Chico Cesar que naquele momento estava deixando a secretaria. Ele me contou algo espetacular. Disse que quando assumiu a SECULT-PB em 2010, procurou Gilberto Gil para se aconselhar. Sábio, Gil olhou pra ele e disse: “cometa seus próprios erros”.  Esta foi a minha primeira grande lição. Sim, tivemos um trabalho elogiado, mas também criticado. Ainda bem.  Viva a democracia! Desconfio muito de quem se propõe a agradar todo mundo. Não é o meu caso. Administrar é contrariar interesses e ter posição. A gestão teve avanços notáveis em algumas áreas. Por exemplo conseguimos consolidar a restauração de praticamente todos os equipamentos culturais sob administração do Estado. Alguns estavam na beira da interdição.  Mais de trinta anos de abandono completo. Todavia faltou dinheiro para a produção. A massa artística na Paraíba é enorme. Faltaram editais  pelo FIC – Fundo de Incentivo à Cultura e pela Lei do Audiovisual. Isso foi muito ruim, pois administrar a cultura sem recursos para fomento é desolador. Foi um tempo de recessão. Tivemos um golpe no meio do caminho. Foi bem difícil. Não me arrependo, mas não repetiria essa experiência. Fechei um ciclo. Reconheço algumas coisas. Por exemplo, conquistarmos o acervo de Abelardo da Hora foi uma grande vitória para a Paraíba. Em breve o Espaço Cultural vai inaugurar o maior acervo de arte impressionista da América Latina. Algo avaliado em nove milhões de reais. Não é pouca coisa. Uma articulação delicada que deixou o governo de Pernambuco de quatro no ato. Destaco algumas coisas pontuais que me deram alegria. Entre elas, o incentivo às feiras literárias e rotas culturais. Momentos de grande mobilização das regiões e interiorização das intervenções da SECULT. Lembro ainda de quando recebi a missão de conduzir Geraldo Vandré na volta aos palcos e fui direto no Youtube pesquisar. Vi pessoas como Zuza Homem de Melo e o Maestro Julio Medalia dizendo que ele jamais voltaria. Voltou e ainda republicamos o livro de poemas que ele havia lançado em 1973, no exílio, no Chile. Tenho boas e más lembranças, fiz amizades preciosas e ganhei desafetos. Gestão de cultura não é fácil. Não é apenas o que se vê e aplaude, mas principalmente as invisibilidades, os silenciamentos e a necessidade de comprar essas brigas.
 
 
Além de poeta você é bom cronista. Como analisa atualmente o gênero no país?
 
Acho engraçado que a crônica sempre foi vista como um subgênero e na verdade nos apresentou gênios da prosa, como Rubem Braga. Alguém com uma escrita tão impecável que é difícil até encaixar em algum escaninho. Drummond também escreveu crônicas que tornaram maior a Literatura Brasileira. Acho que o gênero mudou um pouco ao migrar das páginas do jornal impresso, onde o espaço não era tão generoso, para as revistas virtuais onde o limite é infinito. É o gênero mais multicultural, mais mestiçado. A exemplo das crônicas do saudoso Aldir Blanc. Eu estou na trilha das descobertas, mas já posso afirmar que um dos meus próximos livros será de crônicas. Será meu primeiro livro de prosa. 
 
 
Considera que o Sul-Sudeste lê e conhece autores e autoras do Nordeste? Existe diálogo entre as literaturas de diferentes regiões?
 
Atualmente, acho que sim. Existe uma interação entre muitos autores e autoras de todas as regiões nas redes sociais. Cada vez mais o mito do poeta municipal tende a desaparecer se é que já não desapareceu. Parece que voltou para a Caverna de Platão. A literatura nordestina ofereceu grandes nomes para o Brasil, a exemplo de Jorge Amado, Augusto dos Anjos, Graciliano Ramos que escreveram alguns dos maiores momentos da literatura brasileira de todos os tempos.  Mas atualmente acho que esse diálogo está acontecendo sim. Estamos quebrando paradigmas. No mais, toda periferia tem seus centros e nós vivemos num país periférico.
 
 
O cenário literário paraibano nas últimas duas décadas parece mais forte, unido e consolidado do que de outros estados nordestinos. Qual o segredo desse ´boom` literário paraibano?
 
É impossível definir esse segredo, mas um estado que tem um poeta como Sergio de Castro Pinto e uma prosadora como Maria Valéria Resende (a ex-paulista) é mesmo um lugar muito especial.  Terra de Bráulio Tavares, Chico Cesar e Marília Arnaud. Além disso, novíssimas gerações despontando o tempo todo. Jennifer Trajano, Aline Cardoso, Anna Apolinário, Jon Moreira. Jovens e já premiados, como Bruno Ribeiro e Débora Ferraz. A renovação é permanente e de alto padrão. No Sertão temos a Editora Arribaçã. Linaldo Guedes além excelente poeta, vai se revelando um grande editor. Astier Basílio tá lá, mergulhado na poesia russa, como se estivesse no Parque do Povo. Transbordando o tempo todo. Antônio Mariano publicando romance. A efervescência é grande e a grande maioria é amigo e amiga. Um vibra com o outro. Se tem algum segredo, deve ser isso.