Entrevista com Rogério Bernardes, que lança novo livro de poesias em Brasília

25/04/2019

Por: Cefas Carvalho
Foto: Divulgação/Editora Penalux
 
Poeta por vocação e servidor público federal por profissão, Rogério Viana Bernardes é fluminense de São Gonçalo mas mora em Brasília há dez anos, onde trabalha e milita culturalmente. Aos 43 anos, se ´repara para lançar seu terceiro livro, "Cinzas de fazer Fênix", pela Editora Penalux,  no sábado dia 27, das 15h às 19h, no Empório Buongustaio (Quadra 205 Lote 02 Paço Linea Mall Lojas 22/23, 71,  Águas), em Brasilia.  Autor de "Olhar de andorinha" (Scortecci, 2014) e "Cantigas de ninar dragões" (Penalux, 2017)., o poeta concedeu entrevista ao Portal Potiguar Notícias, onde falou sobre processo literário, cenário cultural e poesia em geral. Confira:
 
O livro que será lançado, "Cinzas de fazer Fênix" fecha a sua Trilogia Alada. Como definiria esta trilogia e qual o conceito que une as três obras?
 
Na verdade, a ‘trilogia alada’, como eu carinhosamente chamo os meus livros, não foi algo pensado. Só percebi que havia uma continuidade entre eles ao publicar o segundo livro (Cantigas de ninar dragões) e já ter alguns poemas que fariam parte deste terceiro. Notei que, além de cada livro ter um ser alado no título (andorinha, dragão e fênix, respectivamente), os poemas que os compõem são, em sua essência, sobre liberdade, (re)descobertas, enfrentamento de horizontes. Há na ideia das asas, do voo, da imensidão vista do céu, algo que me conforta e me inspira. Eu sempre admirei e invejei a liberdade dos seres alados (quando não são subjugados pelo homem, é claro!), e esse sentimento perpassa a maioria dos meus poemas, independente dos temas abordados por eles. Eu só me sinto livre quando escrevo; são os meus poemas que me dão a coragem para enfrentar as gaiolas que o mundo impõe. Não fui eu que idealizei a trilogia alada, foi ela, a cada livro, que me moldou. Meus poemas são as minhas asas.
 
Como definiria "Cinzas de fazer Fênix"? O título remete, mais uma vez, a criaturas aladas como andorinhas e dragões?
 
Todo fim é, na verdade, uma chance de recomeço. Até mesmo o fim da vida (em minha concepção) não é um fim, mas o início de uma nova existência, nem que seja na memória dos que ficam.
 
A figura mitológica da Fênix e o que ela representa sempre me cativou. Já no segundo livro eu flertava com essa ideia de fim/recomeço em alguns poemas. Como eu queria encerrar um ciclo e, ao mesmo tempo, indicar que não era o fim, encontrei na Fênix a analogia ideal para o que eu queria escrever neste último livro. Ao longo dele, palavras como cinzas, brasa, fogo, fumaça e outras que remetem ao campo semântico da Fênix se repetem, em diversos poemas.
 
Os textos que foram ilustrados pela Lu Valença têm sempre, em algum momento,  uma dessas palavras. Ainda assim, as figuras da andorinha e do dragão continuam aparecendo em minha poesia, remetendo aos livros anteriores. Não por acaso, o último poema do livro (Trilogia alada) é, na verdade, um conjunto de três micropoemas (Andorinha, Dragão e Fênix), que encerram essa etapa da minha produção poética.  
 
Quais suas principais influências poéticas? E qual o impacto que elas têm em sua obra?
 
Eu cresci apaixonado por livros, que me salvaram, em vários sentidos, de uma vida sem perspectivas. Quando entrei em contato com a poesia, foi por meio de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Fernando Pessoa; enfim, os grandes poetas que sempre eram mencionados nos livros didáticos de português e literatura, na época da escola.
 
Depois, conheci a poética de Pablo Neruda, Manoel de Barros, Adélia Prado, Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen (cuja obra foi apresentada por uma prima portuguesa; foi paixão à primeira leitura). No entanto, se eu tivesse que citar apenas dois nomes como meus ídolos e maior inspiração, sem sombra de dúvida seriam Mário Quintana e Cora Coralina. A sua linguagem simples, sem firulas, me emociona. Eu acredito que a poesia não pode ser hermética, inalcançável, com palavras e estruturas difíceis, que isolam alguns textos quase num Olimpo da erudição. Poesia é emoção, e toda emoção precisa ser sentida por todos, indistintamente. Quintana e Cora são mestres nessa arte de escrever um texto ao mesmo tempo simples e profundo, acessível e espetacular. Se algum dia eu for capaz de emocionar com um poema simples (mas não simplório), como Cora e Quintana faziam (e ainda fazem, porque a arte deles é imortal), eu saberei que me tornei um bom poeta, ou ao menos digno de dizer que me inspiro neles.
 
Qual seu processo criativo? Acredita em inspiração ou em transpiração?
 
 Como poesia, para mim, é emoção, eu preciso senti-la, ou sairá algo sem vida, desprovido de sentimentos. A inspiração é importante para mim, e pode vir a qualquer momento, de uma notícia de jornal, de uma situação que vi na rua, de uma história que gostaria de viver ou, ao contrário, que nunca queria que tivesse existido. A poesia é a forma como me posiciono sobre várias questões. Escrever por escrever, apenas como um hábito, nunca deu certo para mim. Todas as vezes em que tentei escrever algo apenas pela pressão de produzir, o resultado não me agradou.
 
Ainda sobre inspiração, ela pode vir até mesmo na forma de um poema metalinguístico, porque a palavra em si é algo que me emociona, com a sua musicalidade e as diversas possibilidades de construção de frases. Eu amo a minha língua e acredito realmente que o português é o idioma mais bonito do mundo. Então, a inspiração pode surgir simplesmente por meio de uma palavra que eu julgue bonita, como ‘saudade’, ‘inefável’ ou ‘libélula’.
 
Em especial neste novo livro, eu me permiti escrever sobre dores e dilemas que não são apenas meus, mas do mundo em que vivo. Há poemas sobre racismo, machismo, homofobia e vários outros tipos de intolerância; sobre depressão, tristezas sem explicação aparente, dúvidas existenciais e até mesmo sobre suicídio. Há desde um poema sobre o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro até outro sobre um atentado terrorista na Somália que quase não foi noticiado porque as vítimas não eram brancas. O mundo, com suas mazelas e maravilhas, me inspira.  
 
Do mesmo jeito, às vezes eu fico semanas sem escrever nada, para no momento seguinte escrever três ou quatro poemas no mesmo dia. Logo após um poema sobre amor não correspondido, pode vir outro sobre a minha própria vida resumida em algumas linhas. Tudo cabe num poema, e muitas vezes eu não escolho o tema, é ele que me escolhe.
 
Como vê o cenário literário em Brasília? E no Brasil?
 
Brasília é um celeiro de excelentes escritores, em todos os gêneros. Posso citar vários, mas seria injustiça com tantos outros não mencionados. O grande problema, a meu ver, é que tudo fora do eixo Rio-São Paulo é mais difícil de acontecer. Além disso, o próprio leitor brasiliense muitas vezes não se permite conhecer o autor local.
 
Especificamente na poesia a situação é ainda pior, porque há um preconceito contra o gênero. Muitas pessoas acham que qualquer um escreve poesia, que basta rimar flor com amor e está pronto. E, com isso, também acham que poesia nem devia ser comercializada, vendida nas livrarias, por exemplo. Muitas vezes, quando descobrem que tenho livros publicados, a primeira pergunta que fazem é sobre o que escrevo. Quando digo que sou poeta, a decepção é notável no semblante da pessoa. É como se a literatura que eu e meus colegas fazemos não fosse importante, digna de nota. 
 
 Não quero dizer com isso que um romancista ou contista tem a vida mais fácil. A desvalorização do escritor brasileiro é um fenômeno que atinge a todos. Se você não é um Youtuber famoso ou um autor já consagrado, publicado por uma editora grande, suas chances de encontrar um público leitor fiel e ter seus livros nas prateleiras das livrarias são muito pequenas. Escrevo por amor. Sou poeta por amor. Se fosse para pagar as minhas contas, eu já teria voltado com o que escrevo para a gaveta.
 
 Há diversas editoras pequenas e autores independentes publicando excelentes livros, mas que quase não são lidos. Vez ou outra alguns desses autores e editoras conseguem ganhar um prêmio literário ou ter boas resenhas publicadas num jornal de maior circulação, por exemplo, mas esses casos são exceções, e nem isso garante uma venda maior de suas obras. Na maioria das vezes, um autor desconhecido continuará assim, não importa quantos livros publique. Podem achar a minha visão um pouco extremada, mas não vejo muita perspectiva de mudanças num futuro próximo.
 
Você é carioca, mas radicado em Brasília. A capital federal tem algum impacto direto em sua produção literária e em sua maneira de ver a literatura?
 
 Na verdade, eu sou fluminense, porque não nasci na capital do Rio de Janeiro, e sim em São Gonçalo. Moro em Brasília desde 2009. Hoje, amo viver aqui na capital do país. Foi em Brasília que perdi o medo de mostrar os meus escritos a outras pessoas; foi aqui que enfrentei o pavor de publicar um primeiro livro e me expor; é aqui que praticamente tudo o que escrevo é produzido.
 
Acredito que, por eu morar fora de cidades como Rio e São Paulo, passei a ter uma visão mais ampla do Brasil. Aqui é uma convergência de pessoas de todos os lugares do país e também do mundo (temos aqui as embaixadas), e essa mistura faz de Brasília um lugar único para mim.
 
Por estar no meio de outros autores locais que também enfrentam a situação de ficar um pouco à sombra de Rio/São Paulo, eu desenvolvi uma empatia grande por meus colegas de ofício, em especial os poetas como eu. Essa empatia me ajuda a escrever com mais liberdade, sem medo de ter de encontrar um estilo que agrade editores e críticos do Sudeste.
 
Brasília, com seus habitantes, também é uma grande inspiração para mim, e há vários poemas que provavelmente só existem porque estou aqui. Sou grato a tudo que tenho vivido nesta cidade que me acolheu e me adotou. Minha origem é fluminense, mas meu coração já é brasiliense.
 
Além do lançamento em Brasília, pretende lançar o livro em outras cidades, em outras capitais?
 
 Sim. Pela primeira vez, farei um lançamento fora de Brasília, em Niterói/RJ. Sempre tive esse sonho de fazer um evento com um de meus livros perto de minha terra natal e de minha família (Niterói é cidade vizinha de São Gonçalo), mas nunca havia surgido a oportunidade. Desta vez, a Lu Valença, que faz a arte da capa e as oito belíssimas ilustrações de Cinzas de fazer Fênix, tem me ajudado a realizar um lançamento no mesmo local em que ela atualmente expõe seus trabalhos, e eu ficarei pertinho de onde tudo começou. Já estou muito emocionado apenas com a proximidade do evento (em 17 de maio), que tem um valor afetivo sem tamanho para mim.
 
Além de Niterói, ainda pretendo lançar o livro em São Paulo, por ser a maior cidade do país e por eu ter leitores fiéis que são de lá, a despeito de toda a dificuldade de divulgar meu trabalho fora da cidade em que vivo. Se tudo der certo, até o fim do ano estarei lá, nem que seja numa banquinha em alguma praça, colocando a cara a tapa com meu novo livro, também.
 
Após a trilogia, quais serão seus próximos projetos literários?
 
 Eu já tenho os originais de mais dois livros, todos de poesia. O próximo será em coautoria com um amigo fotógrafo. Estamos idealizando um álbum que unirá vários poemas de amor (em todas as suas concepções) às fotografias dele, que tem um talento ímpar para captar imagens do Cerrado e de Brasília, com suas quadras, seus monumentos, seus impressionantes ipês. Será, na verdade, uma grande declaração de amor a Brasília e à minha história aqui.
 
 O segundo original terá novamente ilustrações, desta vez de um outro artista que eu admiro, do Rio de Janeiro, e deverá sair logo após o livro-poema fotográfico.
 
Por fim, tenho um projeto em andamento do meu primeiro livro em prosa, que será um romance, mas como ainda é bastante embrionário e será um desafio para mim, que sou poeta – com muito orgulho! – ainda deve demorar um pouco. Talvez em 2021.