O Quarto Poder do Amorim

10/07/2019

Por: José Pinto Júnior
Foto: Adurn
 
Ele começou no jornalismo impresso e foi diretor do Jornal do Brasil. Da Veja também - no tempo de Mino Carta, faz questão de registrar. Passou pelas TVs Globo, Band, Manchete e Cultura. Na internet: ZAZ, Portal Terra e UOL. Hoje apresenta o Domingo Espetacular, da Record do  Bispo Edir Macedo. Também pilota seu prestigiado blog Conversa Afiada. Se difícil é escrever fácil, o jornalista Paulo Henrique Amorim é campeão com a pena na mão. Escreve como fala. Seu texto, mesmo tratando de temas complexos, é um bate-papo com o leitor. É bem escrito.  Desafeto da família Marinho, escreveu sobre o Dr. Roberto, os filhos e a Rede Globo. Mais recentemente, lançou mais um livro: “O Quarto Poder – Uma Outra História”. O livro foi recusado por várias editoras por colocar o dedo em muitas feridas e temas tabus, como a democratização da comunicação no Brasil. Com 553 páginas, saiu pela editora Hedra, de São Paulo, no ano de 2015.
 
O livro é composto por textos curtos, formato moderno, pois o jornalista - com parte dos cabelos brancos - é adaptado aos tempos da internet. Muitos já foram publicados no seu blog. Estes textos formam três grandes capítulos: O Quarto Poder, Bônus e Anexos. Neste primeiro capítulo, traz informações da história do Brasil e da história do jornalismo brasileiro, principalmente da TV. Explica a opção da TV brasileira pelo modelo comercial, ainda no governo Vargas, e a astúcia de Assis Chateubriand. Conta ainda como Getúlio Vargas foi a primeira vítima do  que chama de PIG (Partido da Imprensa Golpista). Na página 57, afirma: “Lacerda e O Globo atiraram no peito de Vargas”.  Quem lê a biografia escrita por Lira Neto percebe um Getúlio Vargas cercado pelos adversários, pelos militares e pela mídia. Forçado a sair como ladrão, preferiu a morte.
 
O livro traz a frase de JK admitindo que transferiu a capital do país do Rio de Janeiro para Brasília por causa do opositor Carlos Lacerda. “Mudei a capital por causa do Lacerda na Rádio Globo”.  Se ficasse no Rio de Janeiro, JK temia não conseguir terminar o mandato. Os ataques eram diários e contundentes. JK decidiu governar no ar. Entre o Rio e Brasília. Escapou e passou o comando para Jânio Quadros, que não conseguiu concluir o mandato e renunciou.
Após isso, assumiu o  vice–presidente, o trabalhista João Goulart, conhecido como Jango, que primeiro teve os poderes diminuídos por um parlamentarismo de ocasião e depois deposto.
 
Amorim trata da resistência do então governador do Rio grande do Sul, Leonel Brizola, com sua defesa da legalidade através de uma cadeia de rádio instalada no palácio do governo gaúcho. “Brizola empossou Jango com o rádio”, é o título do texto estampado na página 80. A atitude de Brizola adiou o golpe, mas não o evitou. Como se sabe, em 1° de abril de 1964, foi dado um golpe militar, depondo Jango e levando o Brasil a ditadura que durou duas décadas. A mídia apoiou o golpe.  Roberto Marinho incluso, mas não de graça. Na página 108, Amorim escreve: “Em 1965, treze meses depois de ajudar os militares a derrubar Goulart, Roberto Marinho fundou a TV Globo. E numa operação ilegal. Afinal, o artigo 160 da Constituição de 1946 proibia a participação de capital estrangeiro em empresas de comunicação”. Comenta a relação próxima entre mídia e poder.
 
Em vários capítulos, Paulo Henrique Amorim disseca os negócios que fizeram a Rede Globo de Televisão tão poderosa, não só dominando o mercado, mas chegando ao ponto de escolher ministros e até concorrentes, como foi o caso da Manchete. Traz a relação com os governos  militares e a não divulgação das “Diretas já”. Além disso, o livro conta o apoio dado ao governo Sarney, a perseguição a Lula em 1989 e a busca de um nome para apoiar contra o petista. Primeiro a emissora queria o tucano Mario Covas, terminou apoiando Fernando Collor. O livro traz bastidores, estudos, pesquisas, teses e depoimentos. Demonstra o tempo usado para cada candidato e o tipo de notícias dispensadas a cada um. Na edição do debate, a ordem era: “mostrar o pior de Lula e o melhor de Collor”. Veio o impeachmant e a Globo abandonou Collor. Veio o governo de transição de Itamar Franco que fez o Plano Real. O tucano Fernando Henrique Cardoso, o FHC, era o candidato do Plano Real. Na página 398, “FHC é um filho pródigo para a Globo”. Trata das três eleições que Lula perdeu e das duas que venceu. Uma contra José Serra e outra contra Geraldo Alckmim. Segundo Amorim, Lula poderia ter vencido no primeiro turno, não fosse a cobertura parcial da Globo.  
 
O direito de resposta obtido na Justiça por Leonel Brizola também está no livro. A voz de Cid Moreira, lendo o texto integral criticando duramente o dono da emissora Roberto Marinho, é até hoje case obrigatório nos cursos de jornalismo. Assim como o filme Muito Além do Cidadão Kane, também tratado no livro.
 
A leitura do livro traz informações preciosas sobre a história do Brasil. Mas também revelações interessantíssimas sobre personalidades conhecidas do público: Assis Chateubriand, Roberto Marinho, Adolpho Bloch, Armando Nogueira, JK, Carlos Lacerda, Tancredo Neves, Fernando Collor Antônio Carlos Magalhães, Leonel Brizola, Delfim Neto, Alexandre Garcia, Boris Casoy, Abi-Ackel, José Sarney, José Serra, Willian Bonner e tantas outras figuras. Umas ainda nas telas, outras na história.
 
O capítulo Bônus é apresentado assim pelo PHA: “Pelo mesmo preço da capa, o autor oferece textos que se seguem...”. São seis escritos. Tem Pavarotti e Manual para Televisão. Mas a entrevista em homenagem aos cem anos de Oscar Niemeyer é imperdível. Frases como: “A vida é um sopro”, “A música do Tom é a casa desenhada por Niemeyer”, atribuída a Chico Buarque e “a  arquitetura não chega ao barraco”, do artista centenário, dão ritmo a entrevista.
 
Anexos  é o capítulo que vai da página 503 a 539. Este capítulo traz oito escritos, entre os quais Discurso de Almino Afonso em Defesa de Jango, trechos da Constituição que tratam da comunicação e entrevista de Delfim Neto a Veja sobre destruição de renda.
 
O livro trata também dos governos do presidente Lula e do primeiro mandato da presidente Dilma. Focando na forma como a grande mídia cobre as eleições. Independente de concordar ou não com as teses de PHA, o fato é que fez uma obra bem documentada. Carrega profissionalismo e lealdade aos fatos históricos. Li e recomendo. Como gosta de repetir Alberto Dines, “lendo o Observatório da Imprensa, nunca mais você vai ler jornal do mesmo  jeito”. Lendo PHA, no mínimo, o  leitor vai ver TV de forma diferente.