Renisse Ordine

26/09/2019
 
O livro da capa preta 
 
 
A cor preta remete a sigilo, a algo misterioso, que deve ser escondido e intocável. Seria o medo do desconhecido ou uma da fuga da realidade?
 
Sabemos exatamente o que se pretende quando é sugerido esconder um livro, e embalá-lo em volto com um saco plástico. Seria somente medo da contaminação? 
 
Um sinal preto contra a liberdade social e literária. 
 
 Aos desinformados, diga-se de passagem, que a literatura é um reflexo da sociedade. É um espelho que reflete a largas letras, o que presenciamos com as lentes coloridas dos nossos olhos. 
 
A sociedade se transforma. As pessoas se modificam, saem do seu casulo como uma borboleta. Libertam-se, quando se sentem livres o suficiente para poderem se revelar ao mundo.  Isso é essencial, para vivermos o que tiver que ser vivido, amar a quem queira, e nos afastarmos de quem for necessário. 
 
Não somos iguais, os dedos das mãos também não são; os gostos muito menos. Nem quem nasce de nosso ventre, está fadado a ser igual a nós. Sim, fadado, pois é um fardo seguir o pensamento de alguém, e não o nosso próprio. 
 
Nem nós mesmos somos iguais. Dormimos com um pensamento e acordamos com outro. Um dia amamos, e no outro não mais; um dia amamos, e no outro, amamos muito mais. Triste daquele que não se transforma, e não que se permite evoluir. 
 
Quando se pede para se esconder livros, é o mesmo que prender pessoas em quartos escuros e abafados.  Vendando, com tarjas pretas, suas bocas e os seus olhos. Para que não contaminem os outros. 
 
Que outros?
 
Que outros seriam esses, que não podem descobrir que na vida há pessoas de todas as raças e sexos? 
 
Medo. Medo da descoberta. Da revelação que é possível sim, que se sigam os próprios instintos. De podermos ser agentes transformadores na natureza. Lançando o mundo a verdade que existe em cada um de nós. 
 
Somos livros, com páginas em branco. 
 
O livro da capa preta é a significação da própria inibição da consciência humana, que não aceita que na estante há vários livros de diferentes formas, tamanhos e cores. Que ao invés de procurar se adaptar, vai escondendo as diferenças, inibindo os “coloridos”, para que todos, gradualmente, se tornem como ele: misteriosos, cheios de inverdades e preconceituosos.
 
Não há embalagem que dure para sempre! A cor preta desbota, e a mudança ocorre, por mais que essa capa esteja resistente.