Renisse Ordine

07/05/2020
 
Dia da Língua Portuguesa: com todas as suas variantes e reformas ortográficas, problema continua sendo o contexto
 
 
Lembro-me como se fosse hoje. Certo dia, em meados de 2011, estava eu sentada com uma das maiores escritoras do país, Ruth Guimarães, em sua casa. Nesse dia, estava ocorrendo uma discussão sobre a reforma ortográfica da língua portuguesa. Ela virou pra mim e disse: Eu não gosto disso.  Eu respondi: Eu também não, D. Ruth. Mas estão dizendo que é para igualar o Português do Brasil com o Português de Portugal. 
 
Ela pensa e diz logo em seguida: Pra que isso, essa diferença é o que temos de mais nosso! 
 
E não é? O que temos de mais importante é o nosso idioma.
 
Partindo dessa reflexão, nessa semana em que comemoramos o Dia da Língua Portuguesa, nós devemos levar em consideração o quanto o idioma foi modificado para se adequar à população desde a colonização. 
 
A primeira modificação significativa ocorreu após a Independência do Brasil, em 1822, quando a sociedade brasileira começa a cortar os seus laços com a Europa. Para que isso ocorresse, seria necessário ter o nosso próprio símbolo nacional. 
 
Dando início a esse processo, alguns escritores, denominados regionais, começaram a introduzir personagens naturais em suas produções textuais. O índio foi a primeira escolha para ser o símbolo nacional, por serem os primeiros habitantes dessa terra. 
 
Nesse período, predominava no Brasil, o Romantismo, um estilo literário que marcou a literatura do país, por conter elementos representantes da nossa nacionalidade, e outro fator de relevância, foi o posicionamento de José de Alencar. 
 
Para conhecimento, José de Alencar, autor de “O Guarani”, foi um dos primeiros escritores a idealizar o registro da língua nacional, tendo os vocábulos indígenas (o tupinismo) inseridos em suas obras como uma caracterização de um posicionamento linguístico e cultural. 
 
Intitulado como Literatura Regionalista, outras importantes obras foram escritas, motivando, um novo modo de se expressar através da escrita. Vindo a contrariar o português culto que dominava a sociedade da época. Com a Semana de Arte Moderna de 22, houve a ruptura dessa barreira e a escrita simples e regional passou a valer oficialmente. 
 
A partir daí, a língua escrita vem livremente se adaptando aos diversos falares do nosso imenso Brasil, podendo as expressões regionais ser incluídas em produções literárias, e a manipulação das palavras no texto (estilística) de acordo com a intenção do autor. Como também, a permissão da criação de novas palavras (neologismo), fato que ocorre na produção de Guimarães Rosa, no livro Grande Sertão: Veredas. 
 
Porém, ainda temos regras a seguir. Tanto que numa prova de vestibular e concurso, temos que seguir esse padrão, ou seja, as regras gramaticais que estão nos livros escritos por renomados gramáticos como Cegalla. 
 
Mas e quanto ao contexto?
 
O grande problema que percebo é que falta interpretação de texto na vida das pessoas. Uma mensagem simples não compreendida. Não somente os estudantes, mas a sociedade como um todo, apresenta dificuldade em entender o que se pede e o que é informado. 
 
O português do Brasil por ser uma língua tão intimista e bonita, como apontava Ruth Guimarães, que nesse dia em que a celebramos, ela torne-se alvo de preocupação por parte dos governantes. Pois não adianta a simplicidade se o principal objetivo não está sendo alcançado: o da comunicação.