Renisse Ordine

06/08/2020
 
Chaves e o primeiro vínculo do Brasil com a cultura latina 
 
 
Eu cresci assistindo o seriado Chaves. Sendo eu, uma criança da geração de 80, tudo era novidade no que dizia respeito aos programas de televisão. Naquela época, não tínhamos essa diversidade de entretenimentos de hoje.
 
Na sala de minha casa, na única e antiga tv de tubo que possuíamos, estava somente à disposição apenas Globo, Record, Band, Manchete e SBT, antes conhecida como TVS (diziam que significava TV do Silvio, não sei ser era verdade ou fake news).  Para trocar de canal era necessário levantar para mudar. Por isso, quando uma emissora agradava era ela o dia todo. Certo professor dizia que era por isso que as pessoas antes eram mais magras do que agora, tudo era manual.
 
E nessa época de escassos recursos e novidades, eis que surgiam o Chaves e o Chapolin Colorado, um programa que encantava e te mantinha preso no sofá, donos de um roteiro simplista e sem altas produções, mas que fazia a gente chorar de rir. Era um puro retrato do cotidiano das crianças com as suas bizarrices, manhas e porque não, maldades que elas têm. Um programa para crianças que conquistou toda a família e acredito que não há  exceção.  Bom, eu não conheço quem não goste do Chaves e do Chapolin.  Os jargões “foi sem querer querendo” e “Oh! E agora quem poderá me defender? “se tornaram tão conhecidos quanto o feijão com arroz. 
 
Quando dizem que o menos é mais, Roberto Bolaños, o criador da porra toda, está aí para comprovar essa fórmula. 
 
Mas a importância dos seriados produzidos por Bolaños não se mantinha somente pela identificação infantil e pelo puro divertimento que ele proporcionava. Sendo o povo brasileiro tão preconceituoso no que se refere à cultura latina, eles foram à primeira aceitação do público nacional a algo vindo de um país de língua espanhola. Uma amizade sincera, mesmo! Não há um brasileiro que não conheça os atores (personagens) da turma do Chespirito. Talvez esse fenômeno não se repita nunca mais.
 
Nem as novelas mexicanas tiveram esse poder, apesar de conquistarem um bom público e ainda ser um bom atrativo para a emissora de Silvio Santos. 
 
O povo brasileiro sempre teve dificuldade em se aceitar como latino; é um conceito cultural, pois poucas coisas são voltadas para o espanhol no Brasil; partindo da aprendizagem da língua sendo vista como um conhecimento linguístico secundário. A cultura americana tem uma influência total em nossas preferências e escolhas. 
 
Por exemplo, quase não se tem conhecimento sobre os sucessos latinos, sempre estamos na dependência da Globo e da Anitta para as novas tendências musicais serem sucessos em solo brasileiro. De boa vontade, os cantores latinos raramente aparecem. Marcam show por toda a América Latina e puf! Pulam o Brasil. Os fãs desse estilo musical sofrem por não os terem por aqui, e os mais populares como Alejandro Sanz, Shakira e Rick Martin, só apostam no Brasil quando suas músicas estão na novela da Globo. 
 
Para mim, não somente essa simplicidade foi cativante no seriado, mas foi o meu despertar para um novo idioma. Com Chaves e Chapolin me apaixonei pela língua espanhola. Tentava no enrosco da língua pronunciar “El Chavo del ocho” e entender que  significava os nomes que apareciam nos cartazes e placas do cenário.  Conforme fui crescendo, e me entendo como cidadã do mundo, pude também perceber os simbolismos presentes que acabavam por nos unir como nação.
 
Além da comédia, o Chaves foi uma critica a sociedade latino-americana. Aquele menino pobre e abandonado e a sua turma, mostraram as mazelas da sociedade: a falta de conhecimento de classe e empatia, o abandono social e educacional e a luta pela sobrevivência. Minha avó dizia: _Porque eles não adotam o menino? Coitado vive dentro de um barril, sendo que tem os vizinhos tão próximos. 
 
Passaram-se 36 anos, com a astúcia de manter o grande sucesso na TV e dando esse gostinho latino a vida dopovo brasileiro.  E, agora, pelo que tudo indica, esse ciclo se encerrou. Chaves e Chapolin Colorado agora acompanham o silêncio de seu criador. 
 
Calma, calma, não criemos pânico! Ainda nos restará o carnaval para que vários Chaves, Chapolins, Chiquinhas, Quicos, Nhonhos, Donas Florindas e Senhores Barrigas, se mantenham vivos na memória do brasileiro e continuem a instigar a imaginação das próximas gerações. 
 
Assim a vida segue e “Sigam-me os bons!”.