Renisse Ordine

11/02/2021
 
Entrevista com José Almeida Júnior
 
 
José Almeida Júnior é o autor do livro “O homem que odiava Machado de Assis”, um dos mais vendidos e comentados do ano de 2019 e que continua em evidência. Pois, foi o primeiro livro em que o autor está retratado na capa, como ele realmente é: um homem negro.
 
Sobre o enredo, ele traz uma ficção bem desenvolvida, em uma narrativa sobre o dualismo existente entre o escritor e Pedro Junqueira, desde a infância no Morro do Livramento. 
Machado de Assis foi um homem negro que nasceu na favela. Fato que os intelectuais literatos sempre negaram. Pelos motivos que conhecemos sobre a questão da desvalorização do negro na sociedade.
 
1- Quem é José Almeida Júnior?
 
R: Sou natural de Mossoró, moro em Brasília há 12 anos, onde trabalho como defensor público. Desde 2012, comecei a escrever ficção. Meu primeiro romance escrito foi “O Homem que Odiava Machado de Assis”, sendo que a primeira versão foi concluída em 2015. Em seguida, escrevi “Última Hora”, que foi concluído durante o prazo de inscrição do Prêmio Sesc de Literatura de 2017. O livro foi vencedor na categoria romance. Com a repercussão do primeiro livro publicado, voltei a trabalhar em “O Homem que Odiava Machado de Assis”, que saiu em junho de 2019, pela Editora Faro.
 
2- Sobre os seus livros, você constrói enredos sobre personagens reais, numa mistura de ficção e realidade. No primeiro, Ultima hora, que lhe rendeu o Prêmio Sesc Literatura em 2017, você abordou sobre uma importante batalha de impressas que houve no Brasil, a época de Getúlio Vargas; e atualmente, O Homem que odiava Machado de Assis. Esse é o estilo literário que você pretende seguir, ou os seus leitores, podem esperar por alguma mudança?
 
R: O romance histórico é um gênero que eu me sinto muito à vontade para escrever, porque eu leio muito esse tipo de literatura. A ficção é uma ferramenta muito eficaz de revisitar a história, principalmente pela ótica das pessoas comuns. O livro que atualmente estou escrevendo também é histórico, tem como pano de fundo o turbilhão que o Brasil vivia no período pré-golpe militar de 1964. Mas quero fazer outras experimentações. Já pensei em escrever um romance de não-ficção e também uma distopia.
 
3- No Brasil, Machado de Assis continua a ser uma grande referência para a literatura. Você acha que o enredo de “O homem que odiava Machado de Assis” de alguma maneira possa vir a quebrar o encanto que alguns leitores possam ter sobre ele? Mesmo se tratando de uma ficção?
 
R: Considero Machado de Assis o nosso escritor maior. Produziu por muitos anos, escrevendo romances, contos, crônicas e poesias. “O Homem que odiava Machado de Assis”, no fundo, é uma homenagem minha ao nosso grande mestre. Desde o início, meu romance deixa claro que o narrador é inimigo de Machado de Assis e coloca a sua visão sobre o escritor, muitas vezes baseada no preconceito racial. O retorno que tenho recebido dos leitores é no sentido de eles voltaram a ler Machado de Assis depois do meu livro. 
 
4- Como é o seu trabalho de pesquisa? Como você define os seus temas/personagens de estudo?
 
R: Antes de começar a escrever, eu faço uma longa pesquisa histórica sobre o tema que eu quero retratar no meu livro. A maior parte da pesquisa não é utilizada no romance, mas serve para que eu me ambiente no período histórico. Ainda antes de iniciar a escrita, eu faço um esboço dos principais personagens de ficção e como eles vão se relacionar com as personalidades que existiram. Mas eu não tenho um método sobre temas e personagens que vou tratar. Geralmente parte de um interesse particular que eu vou aprofundando à medida que vou pesquisando.
 
5- Qual a imagem que você tem de Machado de Assis? Diante das pesquisas e leituras que você realizou. 
 
R: Como falei, acho Machado de Assis o escritor em língua portuguesa mais completo. A maioria das pessoas só conhece os romances, mas ele teve uma longa produção em contos e crônicas. Muitas pessoas criticam uma suporta ausência de militância política de Machado. Mas é por pura falta de conhecimento. O Brasil do Segundo Reinado, com todas as suas contradições, inclusive a escravidão, está na obra machadiana. Mas exige uma leitura atenta do leitor.
 
6- Um ponto que me chamou à atenção foi a capa do livro, em mostrar Machado de Assis, como ele realmente era: um homem negro. Por que essa representação é importante para a literatura e a sociedade brasileira? 
 
A campanha Machado de Assis Real veio num momento muito importante. O Brasil sempre foi racista e tentou esconder essa condição com o mito da democracia racial. Depois de alguns anos de avanços, com reparações históricas, o país começa a retroceder na questão racial. A campanha Machado de Assis Real, além de fazer uma correção histórica, é importante para a questão da representação dos negros. Embora os livros escolares tragam Machado de Assis como um mestiço do Morro do Livramento, poucos o identificam como negro em razão das fotos embranquecidas do escritor.
 
7- Se Machado de Assis revivesse nesse cenário politico e social em que vivemos. Como seriam os seus escritos? Será que ele teria coragem de continuar observando as pessoas para poderem retrata-las ou partiria direto para a ficção? 
 
R: Acho que Machado de Assis nos dias de hoje teria o mesmo olhar a atento que teve para retratar a sociedade brasileira do século XIX. Continuaria usando a sua ironia fina para descortinar os problemas atuais.
 
8- Para a construção do enredo, você aborda questões muito relevantes para a nossa história, como é o caso do processo da Abolição da escravidão. Durante a narrativa, percebe-se o quanto os políticos lutavam alguns a favor e outros contra a libertação dos escravos. Pode-se dizer que mudamos após um século, ou que a nossa sociedade ainda é engessada nos mesmos princípios? Digo na questão comportamental dos políticos.
 
R: Certamente o sistema político evoluiu desde então, embora ainda tenhamos muitos problemas. Mas algumas posturas permanecem parecidas, principalmente quanto à questão racial. Hoje uma parte da sociedade e da classe política tende a se negar os efeitos da escravidão. Por isso, é importante sempre revisitar a história.
 
9- Após todos os seus estudos sobre a pessoa de Machado de Assis e a sua literatura. O que você concluiu sobre Capitu. Ela traiu ou não Bentinho? Ou você ainda não chegou a nenhuma conclusão, como a maioria de nós, leitores. 
 
R: O principal foco de Dom Casmurro não é o adultério, mas o ciúme. Nunca saberemos a resposta para essa pergunta, porque o romance foi narrado por Bentinho de maneira absolutamente parcial. Mas eu tendo a acreditar que não houve traição e um dos principais argumentos é a forma que a história é contada. Bentinho era advogado e usava da retórica para desviar do assunto. Mais de 70% do livro trata da infância dele com Capitu, sempre tentando representá-la como uma mulher não confiável. Nos pouco mais de 20% finais do romance, Betinho escreve sobre a fase adulta, mas não consegue apresentar uma única prova da traição. Apenas uma suposta aparência física de seu filho com Escobar. A partir daí, chegue à conclusão de que não houve adultério.
 
10- Como a sua literatura contribui para a transformação da sociedade?
 
R: Eu não tenho nenhuma pretensão de que meus livros transformem a sociedade. Mas acho que a literatura em geral pode ser transformadora de uma realidade. Então, se meus livros puderem contribuir para que as pessoas ponham a literatura como um hábito nas suas vidas, eu já me considero vitorioso.
 
11- Para finalizar. Por que ler “O homem que odiava Machado de Assis”?
 
R: “O homem que odiava Machado de Assis” tem várias camadas de leituras. Pode ser uma história sobre um triângulo amoroso, mas pode também ser um livro sobre a vida de Machado de Assis, sobre a escravidão e os temas que permeavam a sociedade brasileira do século XIX. Então, acho que é um livro que pode ser lido sem grandes pretensões, mas também por quem quer conhecer mais sobre a história do Brasil e sobre a vida de nosso escritor maior.