Renisse Ordine

22/04/2021
 
 
Perto do coração selvagem – uma análise da sociedade e do feminino
 
 
Quanto mais o homem se socializa, mais ele procura se enquadrar nos moldes estabelecidos pela sociedade. Por outro, quanto mais selvagem, mais liberto e livre ele irá se sentir. Ou seja, sentindo as dores e as alegrias de ser quem realmente é. E não sobrevivendo para agradar a quem seja.  
 
O primeiro romance escrito de Clarice Lispector causou uma grande revolução estrutural na escrita e social na década de 40. O Brasil vivia um período muito conservador, seguindo a corrente filosófica do positivismo, no qual uma mulher com coração selvagem seria contrária à figura feminina idealizada pelas famílias tradicionalistas. 
 
Com essa ideologia implantada na sociedade, um coração selvagem seria algo totalmente incompreensível. As pessoas fugiam de atitudes assim, e principalmente as mulheres escondiam e faziam morrer seus impulsos. Na área literária, ninguém esperava ler um romance como o de Clarice Lispector, que se atreveu e desenhou em palavras o que o seu íntimo dizia. 
 
Perto do coração selvagem foi escrito quando a autora tinha por volta de seus 20 anos. A vida da personagem Joana foi apresentada de forma muito reveladora, profunda, feminina e delicadamente atrevida, centralizada em seu interior. 
 
De um modo revolucionário o desenvolvimento da personagem segue um ciclo indicativo: Joana- menina; Joana – mulher; Joana- casada; Joana- traída e Joana-liberta. Características que também quebraram o rótulo literário da figura feminina comumente desenvolvida nos grandes clássicos, como sendo a conservadora, a adúltera ou a prostituta. 
 
Contrariando esse padrão, a história da personagem, aborda a busca pelo seu próprio prazer, no sentido de “ser” e “estar”. Apontando que o contrário de viver não é morrer, mas, sobreviver.
 
“Afinal nessa busca de prazer está resumida a vida animal. A vida humana é mais complexa: resume-se na busca do prazer, no seu temor, e, sobretudo na insatisfação dos intervalos. È um pouco simplista o que estou falando, mas não importa por enquanto... Toda ânsia é busca do prazer. Todo o desespero e as buscas de outros caminhos são a insatisfação.”
 
A obra também traz a questão da igualdade entre a mulher e o homem, no sentido de que os dois devem se complementar e não viverem em oposição de seus valores, que é a questão de gênero altamente debatida na sociedade atual. 
 
Outro ponto importante da obra, que remete a Joana-criança, é o posicionamento de sua forte personalidade, em que ela não gosta da vida rotineira e comum. Já como adolescente, após a perda de seu pai, ela vai morar com a tia. E ao roubar um livro e ser questionada pela parenta sobre a sua má ação, Joana fica indiferente, pois não vê nada de mal em sua ação, pois ela fez algo que lhe deixou feliz. E o que importa o que os outros pensem? 
 
A seguinte frase “Simplesmente eu sou eu, e você é você”, apesar de ser um trecho retirado de um dos poemas de Clarice, cabe perfeitamente na personagem Joana. 
Com o seu poder visionário, Clarice Lispector, deixou plantada a semente das transformações femininas que veriam a ser tão amplamente debatidas na sociedade moderna. 
Porém, os seus escritos não deve ser intitulado como sendo feministas. Ela fez das letras, o poder para o feminino, despertando na mulher o prazer de ser mulher. Apontando que a mulher tem os seus papeis a serem cumpridos, mas, para isso, ela não precisa estar em um papel secundário e nem se anular como ser humano. 
 
A leitura dessa obra é uma experiência única e cada um irá tirar as suas próprias impressões. O que pode vir a ser agradável ou desagradável. Ler Clarice é libertador, mas nunca confortável.