Renisse Ordine

03/06/2021
 
O colono e o fazendeiro 
 
 
Uma das principais poesias de Carolina Maria de Jesus foi escrita em um dos piores momentos de sua vida, quando sua dor foi além do limite de seu corpo, com a exploração social, pela qual ela e sua família passaram no interior de Minas Gerais.  Além da miséria habitual, as vivências de exploração, vêm como um chicote que  fará a autora sangrar por muitos e muitos anos.
 
Sabe a famosa frase da semana “É só ir ao banco e fazer um empréstimo”? Essa poesia a define, e nos faz pensar como em pleno ano de 2021, o pobre ainda é a escória da humanidade. 
 
Os versos de seu acentuado clamor de socorro da poetisa deveriam ser apenas lembranças de um triste episódio da história de nosso país.  Mas, horripilantemente, não é.  Ainda pode ser lido com a mesma tonalidade de sofrimento de nossos antepassados.  
 
Carolina a escreveu quando ela e sua família foram tentar uma vida melhor na área rural, em uma fazenda. Por lá se reergueram trabalhando muito, mas tinham fartura à mesa, e uma vida com mais qualidade do que levavam em Sacramento. Viviam tão bem que o patrão, por vê-los trabalhando felizes, acabou-se por ficar incomodado e os mandou embora, alegando prejuízo e que eles eram preguiçosos. Perderam o que tinham e ainda tiveram que pagar o fazendeiro. 
 
Prestem atenção nestas linhas que foram escritas em 1939, basta trocar colono por operário. Se não fosse a data pra caracteriza-lo, poderia facilmente ser aludido a um poeta contemporâneo. 
 
“Diz o brasileiro 
Que acabou a escravidão
Colono sua o ano inteiro
E nunca tem um tostão.
...
Se o colono está doente
É preciso trabalhar. 
Luta o pobre no sol quente
E nada tem pra guardar.
...
Passa o ano inteiro 
Trabalhando- que grandeza!
Enriquece o fazendeiro
E termina na pobreza.
...
Conhecendo a biografia e a literatura de Carolina Maria de Jesus, percebemos que ela foi mais uma vítima dessa sociedade elitista que não soube e não sabe desgarrar de seus “negros” para fazerem a sua fortuna. 
 
Além da escravidão dos operários, em que basicamente vivem para trabalhar, e na maioria das vezes, na hora da morte, são largados doentes no chão de um hospital. Temos também àquelas pessoas, que até hoje, vivem sob o regime de trabalho escravo, presas em cativeiros, sem nenhum tipo de dignidade e pagamento. E, pasmem, para comer precisam pagar. 
 
Nos dois casos, esses trabalhadores precisam se endividar para se alimentarem, comprarem remédio. Isso é o básico que deveriam ter em suas vidas, mas não, é um elo vicioso com o trabalho sem fim, numa angustiada luta diária.  O que temos de público no país, não se faz necessário citar. A realidade é ao vivo! 
 
Fato que nos remete novamente a famosa frase da semana, já citado acima. Fico nauseada em ter que reescrevê-la.  Nas palavras de Carolina Maria estaria assim:
 
Nunca pode melhorar
Esta negra situação
Carne não pode comprar
Prá não dever o patrão.
...
Fazendeiro, ao fim do mês 
Dá um vale de cem mil-réis
Artigo que custa seis
Vende ao colono por dez.
 
Não é atoa que certos grupos sociais querem dificultar o acesso à educação, a leitura do pobre brasileiro e desmerecem programas sociais, as faculdades públicas e aos professores.  Pois, foi exatamente através dos livros, que essa fortaleza de mulher conseguiu sair desse circulo e não aceitar a vida imposta pela sociedade. E soube usar as palavras como instrumento para denunciar os abusos pelos quais passou.
 
 Por ser negra, ela deveria estar limpando pra branco, e não lendo. Fato, que em seus relatos, é levado como assombro pelas pessoas que a conheciam. E o que também a acabou levando à prisão. 
 
Imagina esse país letrado, informado, capaz de compreender toda a situação que nos prende cada vez mais à miséria e a suportar sermos tratados como escória. O país dos restos, do “se vira” e do “chega de mamata”. 
 
Só com o conhecimento e lucidez cultural, trabalho com pagamento digno e respeito fará que o nosso país vire a página da escravidão. E caminhe para a transformação verdadeira e não permaneça tão atual quanto em 1939. 
 
Em um país evoluído, não estaríamos sendo mandados aos bancos para não morrer de fome.