Eva Potiguara

14/05/2024 08h49
 
DESTRUIÇÃO À MOLHO MADEIRA 
  
Até uma criança na fase inicial da sua escolaridade sabe que a falta de árvores nas cidades aumenta a temperatura do ambiente e gera desequilíbrio climático, mas parece que a maioria dos adultos ainda não aprendeu isso. Muitos cortam o pouco verde existente nas ruas e nas calçadas, por razões banais como: sujeira das folhas, ou até por causa de brigas com os vizinhos.     
Talvez essa prática dos adultos esteja relacionada a uma visão antropocêntrica do homem se afirmar dono e dominador da natureza e tê-la como útil aos seus interesses. Esse olhar tem base colonial capitalista que prevaleceu no mundo ocidental.  Essa raiz se consolidou nesta Terra Pindorama, desde a exploração da madeira ibirapitanga, termo no tupi que significa “árvore vermelha”. O comércio desenfreado dessa madeira, denominada de Pau Brasil, que influenciou chamar os nativos pelo apelido “brasileiros”, marca o processo de ecocídio (morte dos biomas) de nossas matas nativas a partir do século XVI. 
 
Dessa forma, a prática de derrubada de nossas florestas, tem sido um crime ambiental em processo crescente e sem pausa em todo o território brasileiro. Após o “ciclo do pau brasil”, conforme os livros didáticos de história contavam, vieram os “ciclos” da cana de açúcar, do café, das minas de ouro, dos diamantes e da borracha. Em todos esses ciclos, os desmatamentos foram orquestrados para preparar a terra para a monocultura, para a extração de minerais, para abrir estradas. Tudo em função de mais riquezas e comércio pela “ordem e progresso” de uma nação mapeada pelo racismo ambiental e pela desigualdade social.
 
Com o fim do uso exclusivo das terras pelos povos originários, a exploração da madeira de nossos biomas nesses últimos cinco séculos, causou a perda das matas ciliares, a desertificação, as estiagens e o avanço da temperatura. A redução da biodiversidade corresponde às mudanças climáticas que geram efeitos catastróficos como atualmente vemos no Rio Grande do Sul.  É o “choro da Terra Mãe lamentando a queda do céu”, que David Kopenawa tanto alertou.
 
O que ocorre hoje no RS e em vários outros lugares do planeta, é uma tragédia anunciada há quase dois séculos.  O aquecimento global foi descrito pela primeira vez em 1859, pelo cientista irlandês John Tyndall. O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de julho de 2021, o órgão de maior autoridade do mundo em ciência do clima, já declarava que isso é apenas uma amostra do que está por vir. O sexto relatório do Grupo de Trabalho I do IPCC mostra que o mundo provavelmente atingirá ou excederá 1,5 °C de aquecimento nas próximas duas décadas. Ou seja, bem mais cedo do que em avaliações anteriores. Limitar o aquecimento a este nível e evitar os impactos climáticos mais severos depende de ações nesta década.
 
Diante disso, os ambientalistas defendem o reflorestamento urgente, tendo em vista que a sombra das árvores consegue reduzir em até 2°C a temperatura do asfalto e até em 8°C no interior dos carros, além de diminuir a poluição e o excesso de gás carbônico em grandes centros.  Os cientistas alegam que somente mudanças extremas permitirão manter o aumento da temperatura global em 1,5°C, o limite que eles afirmam ser necessário para prevenir os piores impactos climáticos. Em um cenário de altas emissões, o IPCC (2021) constata que o mundo pode aquecer até 5,7°C até 2100. Isso significa, que cortar as árvores é promover a rapidez desse processo. 
 
Apesar da cultura dos povos originários não ter sido considerada de valor científico para a ciência ocidental, o bem viver indígena sempre foi conectado com as leis naturais. Os hábitos de caçar, plantar, colher, pescar, construir roçados, fazer artefatos de palha, cerâmica, madeira, eram parte dessas conexões com a Mãe Natureza, a nossa Abya Yala. Estudos demonstram cientificamente que os territórios tradicionais protegem mais os recursos naturais e o meio ambiente. Isto é, onde há povo indígena,”também há floresta em pé.”
 
Entretanto, as lideranças indígenas e os ambientalistas, são vítimas de ataques e emboscadas por lutarem em favor da preservação ambiental, denunciar e combater garimpeiros e latifundiários da cana de açúcar e madeireiros invasores de terras indígenas. Hoje em todo território brasileiro, várias lideranças indígenas sofrem ataques e riscos de vida, como o Cacique Luiz Katu da Aldeia Potiguara Katu, que recentemente foi vítima de perseguição de criminosos que retiram madeira das matas do Agreste Potiguar.
 
Sabemos que a luta pela vida em confronto com a destruição ambiental financiada e legislada pela elite que cria e gerencia as leis segundo as normas do capitalismo colonial, não tem previsão de acabar. Mas antes que mais cidades sejam inundadas, que mais vidas sejam perdidas, se unam a nós pela vida que se faz na comunhão com as árvores e com os seres vivos.  Nós somos a própria natureza lutando pela vida.
 
 
Sobre a autora:
 
Eva Potiguara pertence ao Povo Potiguara Sagi Jacu, em Baía Formosa/RN. Graduada em Artes visuais, Mestrado e Doutorado em Educação pela UFRN, é Professora e pesquisadora do IFESP-SEEC, atuando nos cursos de Pedagogia e Letras. É produtora cultural da EP Produções, escritora, ilustradora, contadora de histórias, articuladora nacional do Mulherio das Letras Indígenas, membro da UBE/RN, da SPVA e de várias academias de Letras no Brasil e em Portugal. Tem livros solos infantis e de poesia, publicados no Brasil e em Portugal. Ganhadora do Prêmio Jabuti 2023 na categoria Fomento à Leitura e do Prêmio Literatura de Mulheres Maria Carolina de Jesus 2023, na categoria Romance.
 
 
 

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