Eva Potiguara

Eva Potiguara pertence ao Povo Potiguara Sagi Jacu, em Baía Formosa/RN. Graduada em Artes visuais, Mestrado e Doutorado em Educação pela UFRN, é Professora e pesquisadora do IFESP-SEEC, atuando nos cursos de Pedagogia e Letras. É produtora cultural da EP Produções, escritora, ilustradora, contadora de histórias, articuladora nacional do Mulherio das Letras Indígenas, membro da UBE/RN, da SPVA e de várias academias de Letras no Brasil e em Portugal. Tem livros solos infantis e de poesia, publicados no Brasil

04/06/2024 08h59

EU, VOCÊ E O MEIO AMBIENTE

 Amanhã, 05 de junho de 2024, é Dia Mundial do Meio Ambiente, uma data criada em 1972, durante a Conferência das Nações Unidas em Estocolmo, a Organização das Nações Unidas (ONU). Esta data, que foi escolhida para coincidir com a data de realização dessa conferência, tinha como objetivo principal, chamar a atenção de todas as esferas da população para os problemas ambientais e para a importância da preservação dos recursos naturais que, até então, eram considerados, por muitos, inesgotáveis.

Passados mais de quarenta anos do estabelecimento dos princípios para orientar a política ambiental em todo o planeta, a proposta de se mudar o olhar e a forma de tratar as questões ambientais não prevaleceu.

Aliás, se tornou mais uma mera data pouco levada a sério. E, aqueles que são ativistas que lutam em favor da preservação ambiental, quando não são presos e ridicularizados, sofrem com ataques e emboscadas.   Fez dois anos das mortes do indigenista Bruno e do jornalista Dom, assassinados no Vale do Javari. Ambos foram alvo constante de ameaças por denunciar e combater os pescadores, garimpeiros e madeireiros, invasores de terras indígenas. Mas, quem se lembra deste e de outros casos hediondos de crimes às vítimas que defendem o meio ambiente?

Esta era digital das comunicações velozes, das relações infláveis, da “modernidade líquida”, de uma humanidade cada vez mais distante de sua afetividade e espiritualidade, a memória aos fatos mais trágicos muitas vezes evaporam na efemeridade cotidiana. O próprio ser humano se distanciou de sua natureza orgânica e sensível com a biodiversidade. Isto é, se distanciou de sua condição de sistema vivo da natureza.

Ao contrário disso, o bem viver indígena sempre foi conectado com as leis naturais, com as fases da lua e das estações. Os hábitos de caçar, plantar, colher, pescar, construir roçados, fazer artefatos de palha, cerâmica, madeira, são parte dessas conexões. Tudo o que os povos originários produzem segundo as tradições milenares, se articula de forma ecossistêmica e sagrada com a Terra.  Quando o branco invasor ancorou seus navios neste território latino-americano, nossas festas e rituais eram e são em reverências à Mãe Natureza, a nossa Abya Yala.  Estudos demonstram cientificamente que os territórios tradicionais protegem mais os recursos naturais e o meio ambiente do que qualquer outra iniciativa.

Os portugueses chegaram no século XVI e determinaram todas as suas culturas como as únicas "superiores e verdadeiras".  A terra, as árvores, os animais, eram vistos como produtos de consumo e de produção de riquezas para os usurpadores que usaram as armas de fogo para oprimir e massacrar os nativos da terra.

E assim, o processo histórico colonial do Brasil, inicia com o cenário de ecocídio, a morte da flora e da fauna, a partir da exploração de madeira da Mata Atlântica, concomitantemente as expulsões violentas dos povos indígenas de suas terras.

Hoje a bancada ruralista do agronegócio e do gado, segue o processo de depredação da natureza juntamente com as empresas milionárias do minério e do petróleo, causando desmatamento e queimadas, além de outros crimes ambientais.

Com a aprovação da Lei do Marco Temporal em outubro do ano passado, mesmo sendo considerada inconstitucional pela Supremo Tribunal Federal, STF, este “crime legislado”, conforme declarou a Deputada Federal Célia Xakriabá, promoveu o fim das demarcações de terras, ao impor a manutenção perversa da exploração do meio-ambiente nos territórios tradicionais dos povos indígenas. 

 Apesar de nossas marchas em Brasília em plena pandemia da Covid 19, pedindo o apoio do STF, para derrubar a Lei do Marco Temporal ter sido reconhecida legalmente pelo principal órgão da justiça brasileira, a maioria do Senado Federal deu o “jeitinho brasileiro” de reverter em favor dos interesses de mercado, do esquema ganancioso e colonizador de exploração indevida e destrutiva ao meio ambiente, que desrespeita a Terra Mãe e os direitos humanos dos povos indígenas do Brasil. 

Enquanto escrevo, centenas de arvores nativas são derrubadas, milhares de indígenas sofrem com a terra infértil pela contaminação das ações químicas em nome da ganância do mercado de minério. Outras famílias choram o luto de suas filhas violentadas e de seus filhos mortos nas emboscadas por invasores às terras que até hoje aguardam a tão esperada demarcação.

Preservar os povos originários, defender e apoiar a luta dos indígenas expulsos de seus territórios tradicionais, é se juntar a eles na preservação da vida que se faz na comunhão dos seres vivos, é também cuidar da própria vida, é assumir ser parte da natureza que pulsa e pede o fim de sua exploração criminosa. 

   Penso que as terras indígenas demarcadas e em processo de demarcação, se estivessem protegidas de fato, das organizações criminosas que destroem, ameaçam e matam quem se coloca na defesa da floresta, eu e você poderíamos celebrar o Dia Mundial do Meio Ambiente com mais esperança. Temos que acordar a consciência de que preservar e honrar os povos originários, é também cuidar do meio ambiente em que vivemos.

 

Aûîébeté

Eva Potiguara

 

Sobre a autora

Eva Potiguara pertence ao Povo Potiguara Sagi Jacu, em Baía Formosa/RN. Graduada em Artes Visuais, Mestrado e Doutorado em Educação pela UFRN, é Professora e pesquisadora do IFESP-SEEC, atuando nos cursos de Pedagogia e Letras. É produtora cultural da EP Produções, escritora, ilustradora, contadora de histórias, articuladora nacional do Mulherio das Letras Indígenas, membro da UBE/RN, da SPVA e de várias academias de Letras no Brasil e em Portugal. Tem livros solos infantis e de poesia, publicados no Brasil e em Portugal. Ganhadora do Prêmio Jabuti 2023 na categoria Fomento à Leitura e do Prêmio Literatura de Mulheres Carolina Maria de Jesus 2023 do MINC, na categoria Romance.        


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