Manifestação: Quem me representa.

26/06/2013

Por: José Pinto Junior
Sinto-me representado como cidadão brasileiro ao acompanhar a rebeldia dos jovens nas ruas de Parnamirim, de Natal e do Brasil. Tirar os olhos da TV e caminhar por um Brasil melhor, é uma atitude que vai além do direito sagrado ao voto.É exercício da cidadania.  Mas, a juventude de hoje ensina aos arcaicos que democracia vai além do voto. Que democracia é mobilização. Que democracia é debate. Que o fosso deixado entre os anos de eleição quebrou o elo entre representante e representado. Por isso, querem distância dos políticos. Já alguns políticos não têm paciência de esperar o movimento amadurecer suas bandeiras e tentam infiltrar as suas. É preciso deixar surgir as novas bandeiras para debater com as velhas e as atuais. Isto será inevitável. Os jovens pintam o rosto e vão às ruas. Uma palavra. Se emocionam com o Hino Nacional sem estarem presos numa Arena. Sem estarem diante de um vídeo diante da Seleção Brasileira. Se emocionam no caminhar livre das ruas. No cantar o seu País e seus sonhos. Se emocionam com o próprio gesto de cidadania. Estes jovens me representam.
 
Alguns dizem que os jovens ainda não sabem o que querem. Mas com certeza sabem o que não querem! Não querem passagem cara em ônibus ruins. Não querem a imobilidade do sistema viário. Não querem o País que não reforma o sistema político, que propicia terreno fértil para a corrupção. Não querem partidos fracos e omissos. Não querem um Legislativo que se distancia dos representados e que deixe suas atribuições para o Judiciário. Não querem mais educação e apontam de onde deve vir o dinheiro. Querem que o País não priorize o supérfluo, diante de necessiddades imediatas. Diante de demandas históricas nos serviços básicos. Não querem continuar lendo nas notas fiscais, o quanto os pais pagam de imposto e o quanto recebem de retorno na ponta, quando precisam de um equipamento público. Quase nada! Não querem os juros nos céus e as escolas públicas no inferno. Estes jovens me representam.
 
O movimento dos jovens de hoje é mais maduro que os movimentos juvenis do passado. Eles não são contra um ou outro dirigente específico. São contra o sistema atual, que mostra cansaço e ineficiência. Em Natal, não lutam prioritariamente contra o prefeito Carlos Eduardo Alves. Não lutam prioritariamente contra a governadora Rosalba. Não lutam contra a presidenta Dilma Rousseff. Lutam, sim, pela mudança ampla e profunda que vai além das pessoas que ocupam cargos. Querem mudança nas regras do jogo e não apenas substituir o jogador. Sabem que nada adianta tirar Carlos Eduardo e deixar Wilma de Faria. Que nada adianta tirar Rosalba e deixar Robinson Faria. Que nada adianta tirar Dilma Rousseff e colocar Temer. Depois tirar Temer e colocar Henrique? Colocar Renan? Os jovens que preferem as ruas ao conforto do sofá da sala de TV, querem uma mudança nos costumes envelhecidos e carcomidos. Querem transparência em relação aos financiamentos das eleições. Querem saber porque continuar com senador sem voto. Por que os homens públicos votam secretamente. Por que imunidade parlamentar é confundida com impunidade parlamentar. Querem debater cara a cara com as autoridades encasteladas e inacessíveis em palácios de mármore. Os jovens de hoje estão conectados com a realidade. Os meninos de hoje têm muitas informações. Sabem que os governantes são inquilinos e com mandatos finitos. Que não são donos dos palácios suntuosos. Sabem que, como brasileiros, são os legítimos “donos” de tudo que é público. Por isto, a maioria não depedra.  Por isto, ocupam para dizer: “Vocês não nos representam”. Para dizer: “Não temos a fórmula, mas o jeito de vocês está errado”. Para indagar: “Por que não se faz o óbvio se Países mais pobres fizeram?”. 
 
Não me representa os marginais. Os idiotas. Os criminosos que depredam os móveis e imóveis, seja público ou privado. Não me representam, os ladrões que se aproveitam de uma movimentação saldável para tentar maculá-la ao arrombar lojas e saqueá-las. Não me representa os canalhas que viram carros de reportagem ou queimam. Não me representa os frustrados que agem com a violência e não com o sentimento de cidadania e de paz. Não me representa os que cobrem o rosto para praticar vandalismo, quando a democracia nos oferece a alegria de discordar e de protestar de cara limpa. Não estamos, felizmente, em uma ditadura para nos tornarmos anônimos. 
 
Me representa, enfim, quem vai para rua em paz consigo e com os demais.  Quem  mostra a cara e se orgulha de caminhar, cantar, protestar, escrever, twitar, curtir, comentar, compartilhar,  berrar, fotografar, encenar, declamar e sonhar muito acordado, com um País melhor amanhã. Melhor que o de hoje. Muito melhor que o de ontem.  
 

Fonte: Potiguar Notícias