O que é a demografia e como ajuda a entender a pandemia do coronavírus?

28/03/2020

Por: RICARDO OJIMA
 
 
Nas últimas semanas temos recebido uma quantidade absurda de informações relacionadas a um único tema: coronavírus. Desde as notícias de jornais tradicionais até os memes pelo Whatsapp, entre manchetes alarmantes e Fake News. No meio disso tudo, frequentemente se ouve falar sobre a demografia. Às vezes é devido a demografia da Itália não ser parecida com a do Brasil, outras tantas porque a população daqui ou acolá tem mais idosos. Mas será que você sabia que a demografia é um campo de estudos e que existe uma formação específica para trabalhar com a análise do perfil populacional?
 
Muitas vezes a demografia é associada a um campo da geografia, da economia ou até mesmo da sociologia. Em parte é verdade, pois trata-se de um campo de estudos interdisciplinar e as ciências não são mais isoladas umas das outras. Mas a formação de demógrafo vai além de um ramo dessas áreas de conhecimento. É mais interdisciplinar ainda. É também parte da formação do demógrafo, conhecimentos ligados à estatística, matemática, saúde pública, políticas públicas. De certa maneira, o demógrafo precisa ter um conhecimento geral de cada uma dessas áreas, mas há um elemento central na sua formação que é quase que exclusiva da área: a compreensão da dinâmica da população através das relações entre a natalidade, mortalidade e os movimentos populacionais.
 
Extrapola, portanto, a mera contagem dos volumes populacionais. É uma área que busca entender as relações recíprocas entre a natalidade, a mortalidade e movimentos populacionais e sua interação com os diversos aspectos sociais, políticos, econômicos, ambientais, etc. É nesse sentido que nessa atual enxurrada de informações sobre o coronavírus e a Covid-19 a dimensão demográfica tem um papel importante. Entender que a proporção de idosos de uma população influencia nas taxas de letalidade da doença é entender que as taxas de mortalidade por qualquer doença são específicas por idade, ou seja, as doenças não matam as pessoas da mesma forma conforme as idades. As doenças que afetam mais as crianças não são as que afetam os adultos ou os idosos.
 
Da mesma forma, os grupos de idade mais infectados pela doença são aqueles de adultos jovens, na faixa dos 30-40 anos. É nessa idade em que as pessoas possuem maior mobilidade e para maiores distância tanto para o trabalho como para outros fins. Um ir-e-vir que muitas vezes, e cada vez mais, extrapola os limites do mesmo país. E é essa mobilidade que explica, em parte, a velocidade que o coronavírus saiu de uma província na China, que muitos brasileiros nunca haviam ouvido falar até o início desse ano, e chegar até Nova Iorque em um prazo de três meses.
 
A figura acima evidencia essa relação. O Estado de São Paulo, que detém a maior quantidade de casos confirmados e também de óbitos relacionados ao Covid-19, concentra quase metade dos seus casos confirmados entre os dias 21 e 26 de março de 2020 nas idades entre 20 e 49 anos. Ou seja, entre os mais jovens e, portanto, os que apresentam maior mobilidade no dia-a-dia da cidade. Por outro lado, os casos de óbitos se concentram entre os idosos, notadamente a partir dos 70 anos. Percebe-se, para o caso do Rio Grande do Norte (abaixo), a mesma distribuição de casos confirmados entre as idades de adultos jovens. Essa situação é uma das justificativas, que guardam boas relações com aspectos demográficos, para questionar a medida de isolamento parcial (ou vertical), pois a maior chance de infecção é justamente nos grupos de idade jovens e manter sob isolamento apenas os mais idosos, não evita o crescimento das contaminações que deverão ocorrer com o contato destes jovens com os idosos que, grande parte das vezes residem juntos.
 
A área de estudos de demografia é muito ampla, como podemos perceber, e é também uma área de conhecimento muito relevante para a aplicação e monitoramento de políticas públicas. No Brasil, existem apenas quatro centros de formação em demografia (que só existe em nível de pós-graduação). O único centro de formação na região Nordeste é aqui na UFRN. O Programa de Pós-Graduação em Demografia da UFRN completa em 2020 dez anos desde a sua aprovação pela Coordenação para o Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Formados em qualquer área de graduação podem ingressar para o mestrado e, da mesma forma, mestres em qualquer área podem ingressar no doutorado.