Artista potiguar durante a pandemia e o isolamento: Laryssa Costa

10/07/2020

Por: CEFAS CARVALHO
Foto: Arquivo pessoal
 
Como está sendo produzir música durante este período de isolamento? 
 
Como meu trabalho de cantora está mais relacionado a intérprete, diria que produzir música não, mas produzir conteúdo, sim (seja ele um vídeo, uma live, um texto, etc). E também não é sempre. Percebi que essa exigência em cima do artista de que ele “tem que” produzir é algo que não combina comigo. Produção carece movimento, energia, disposição, criatividade e nem sempre estamos nesse pic. O isolamento pode ser momento também de desaceleração, de recolhimento, meditação e quando sentimentos isso, é preciso recuar.
 
 
Como está a divulgação do seu trabalho musical? Confinadas, as pessoas estão ouvindo mais música local?
 
Por meio das redes sociais faço questão de manter algumas memórias vivas. Então vez por outra eu relembro um momento especial e compartilho seja um vídeo, seja uma foto e assim vou alimentando e movimentando as minhas redes. Quando vejo relevância em algum tema, também faço questão de me expressar e deixar algum tipo de contribuição. Portanto divulgo/produzo algum vídeo, faço uma live assim como fiz em homenagem ao aniversário de Chico, Gil, o dia do choro, e por aí vai. 
Não sei se confinadas as pessoas tem escutado mais música local não. Ouvir música local depende muito de como a música chega em cada um. Aí o trabalho da mídia é extremamente importante. A tv, as rádios, precisam explorar e dar espaço ao trabalho artístico local ampliando as possibilidades de acesso. Além de um bom trabalho de divulgação nas redes que neste caso, funciona melhor quando se tem um bom Marketing digital. Muito mais que isso, é fazer com que as pessoas se abram para essa importância, enxerguem o trabalho local como algo que pode ter valor. Então considero que quem ouve música potiguar continua ouvindo durante o confinamento, quem não ouve continua sem ouvir.
 
 
Qual a sua opinião sobre as lives, você que as realiza com frequência, e como vê o contexto dela neste período?
 
Nada substitui a emoção de um palco real. Acho as lives do ponto de vista da divulgação, algo importante e necessário para o momento. Ou seja, pode ser uma ferramenta indispensável para a divulgação do trabalho que cada um desempenha, aí me refiro a todo e qualquer tipo de trabalho pois já vi lives que vão de músicas a aulas de ciências e dança. É o espaço que cada profissional achou para movimentar o seu trabalho, seja ele qual for. No ponto de vista emocional, pode ser perigoso. Perigoso pois chega ser deprimente para um artista que tem anos de carreira, prêmios, currículo de tour, ver um público tão pequeno ou ausente dentro daquela janela. É desanimador, é um teatro sem plateia. Pior ainda é quando se tem a intenção de arrecadar algum tipo de “cachê virtual” uma vez que considera necessário para a manutenção do seu ofício e ninguém contribui. É mais desanimador ainda.  
 
 
Na sua opinião, as pessoas estão consumindo mais cultura e arte em geral no confinamento?
 
Quem enxerga arte e cultura como algo importante e inerente a vida do ser humano continua consumindo independente da situação de confinamento. O que vejo é que a diminuição do contato social aumentou a necessidade de contato virtual e por isso uma demanda variada e alta de manifestações nas redes o que acaba chegando nas pessoas.
 
 
Como será a dinâmica de shows ao vivo no pós-pandemia?
 
Acredito que vai demorar um pouco para que o artista volte a ocupar os palcos de verdade. Sentenciando uma situação de crise, o contratante irá oferecer condições inferiores (baixo cachê) e a demanda de artistas será desproporcional ao número de espaços, que diga-se de passagem muitos já foram fechados em meio a essa pandemia. Então é preciso se reinventar. Tentar com estratégias recuperar seu espaço nos palcos, no coração do público e principalmente daquele que contrata e paga pelo trabalho que fazemos. Como? Ainda não sei, mas sei que terei que ´rebolar` muito para conseguir voltar pro campo.
 
 
Qual a sua visão sobre os artistas potiguares neste período de isolamento? 
 
Ser um artista não é fácil, ser um artista potiguar também não, e ser um artista potiguar em tempos de isolamento, xiii... Assim como eu, muitos artistas potiguares sofrem com a falta de patrocínios e projetos de lei que amparem e nos auxiliem neste momento. Lives sem patrocínio e que funcionam de forma independente, muitas vezes contam com a contribuição voluntária de quem as assiste e nem sempre se consegue arrecadar algo. Sem renda, o artista sofre e lamenta essas ausências e vai se virando como pode e com o que tem. Canta com playback, vende produtos com a sua marca e faz de tudo para se manter em movimento. Não está fácil para o artista que vive exclusivamente de sua arte, é preciso se reinventar. Alguns se encontraram nesse universo das lives, outros preferiram o recolhimento, mas todos estão preocupados e temerosos quanto as incertezas do futuro.