Jantar da Propina: mais de 500 mil vidas servidas

11/08/2021

Por: Jessyanne Bezerra
Foto: Reprodução

 

Após o representante da Davati Medical Suply, Luiz Paulo Dominguetti Pereira, que atuou para venda do lote da vacina AstraZeneca, confirmar na CPI da Covid, no começo de julho, que o Ministério da Saúde pediu US$ 1 de propina por doses do imunizante, ficou explicito que a vida do brasileiro não vale mais do que cinco reais.

Ainda segundo Dominguetti, o então diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, foi o responsável por negociar a corrupção no contrato.

Mais precisamente, o jantar aconteceu no dia 25 de fevereiro, o fato foi revelado por Dominguetti, um cabo da PM que entrou na intermediação para fazer a aproximação da Davati com o ministério. De acordo com Dominguetti, foi o coronel Blanco quem apresentou Roberto Dias a ele.

Para salientar, enquanto o jantar acontecia, os brasileiros morriam. No mês de fevereiro, o Brasil tinha mais de mil mortes diárias, taxa de leitos de UTI no vermelho e registrando, ao final do mês, 30.484 mortes por Covid-19, sendo o segundo maior número em toda a pandemia até aquele momento. E, até o final de fevereiro, o país tinha 10.551.259 casos confirmados.

Além disso, o Brasil já passava da marca de 200 mil mortes e se encaminhava para o aumento assombroso desse número, visto que nos meses seguintes a mortalidade duplicou. Em março, o Brasil registrou 66.573 mortes e esse número continuou aumentando com o passar dos meses.

Para se ter uma ideia, o Covid-19 já havia matado mais brasileiros em 4 meses de 2021 do que em todo ano de 2020. Enquanto outros países, como Israel, se viam livres das máscaras e do isolamento social, graças ao avanço da vacinação, o Brasil estava negociando qual é o valor da vida da própria população.

Além de participar do esquema de corrupção, o coronel Marcelo Blanco, ex-diretor substituto do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, que participou do jantar com pedido de propina na compra de vacinas, confessou na CPI da Covid que negociava com o mercado privado mesmo não existindo lei permitindo essa ação.

No apurado, Dominguetti iria vender a vacina para os dois, Dias e Blanco, um com propina e outro por fora da lei, todas para o governo federal brasileiro.

Na CPI da Covid, o depoente disse que a primeira proposta de vacina era de US$ 3,50, a menor do mercado. A Davati estava ofertando 400 milhões de doses. Dentro desse valor, US$ 1 por vacina seria repassado de propina ao governo federal.

Vale relembrar que Roberto Dias chegou ao cargo por apadrinhamento do Centrão e foi exonerado do posto em 29 de junho, depois da denúncia de que teria pedido propina de US$ 1 para autorizar a compra da vacina AstraZeneca pelo governo federal.

Logo, o ex-diretor de Logística da Saúde deu sua versão para o famoso jantar em que o cabo da Policia Militar, Dominguetti, afirma ter ouvido dele um pedido milionário de propina em troca de contratos para fornecimento de vacina ao Ministério da Saúde.

Já sobre o Coronel Blanco, o que se sabe é que ele era o “amigão” do Roberto Dias e participou do jantar da propina da Davati com Dominguetti e ainda abriu uma empresa de fachada às vésperas deste encontro. Segundo Dias, a reunião foi “incidental” e ocorreu quando “saiu para tomar um chope”.

Em um jantar que deveria salvar vidas, o povo foi servido à cabidela.