Daniel Minchoni: ´Quero tornar a poesia esporte ou paixão nacional e fico feliz em trabalhar nisso`

22/01/2022

Por: CEFAS CARVALHO
 
 
Daniel Minchoni é uma força da Natureza, ou melhor, da Poesia. Autodenominado poeta-palhaço e experimentador da palavra, Minchoni é paulista que já morou em Recife e Natal e voltou a residir na pauliceia, onde milita (e este é o termo adequado) em projetos como O menor Slam do Mundo, O sarau do burro e Cabaré revoltaire, de reunião de poetas e democratização do fazer poético. Tem diversos livros lançados, como Escolha o título (2006), Iapois poisia (2013), Ex-porro, poema sugo (2014)  e é um dos membros fundadores do selo Jovens Escribas (hoje Escribas) em Natal, cidade onde também criou o PEC – Poesia Esporte Clube. Nesta entrevista ao PN, Minchoni fala sobre poesia, produção, pandemia e muito mais. Observação: A edição manteve a forma como Minchoni respondeu as perguntas, entendendo que a subversão de regras já é em si uma poesia.
 
 
Você é paulista, mas morou em Recife e em Natal e hoje novamente reside em São Paulo. Como esse nomadismo em um país continental influenciou sua literatura e seu modo de ver a vida e arte?
 
Cogito
(Torquato Neto)
 
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
 
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
 
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
 
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
 
resposta opcional: 
 
digo sempre que sou um natalense do ipiranga. o que já define de cara como me vejo como poeta. sou nascido em são paulo mas me considero um poeta do rio grande do norte, pois foi em natal e influenciado por um jeito de pensar a poesia de forma performática muito presente na cidade que criei a minha forma de fazer poesia. não sem influência muito forte da minha vivência em recife e sampaulo. minha poesia é fortemente atravessada pela minha primeira impressão sobre as performances dos repentistas. mas também pelo rap, pelo samba/partido alto, a capoeira e as vivências de roda e todas manifestações da cultura de raiz. em natal comecei no blasfêmia zine a escrever poemas e na spvarn a falar poesia. depois criei o poesia esporte clube na casa da ribeira, que definiu muito o que viria a ser o sarau do burro que faço até hoje em são paulo. então carrego todo esse mix no dna e acho que isso me deixa sagaz pra seguir jogando meu corpo, da forma que aprendi ali no comecinho, na capitania das artes ou na ribeira. fazer poesia fazendo. esse faça você mesmo, esse criar espaços, me deu muitas possibilidades, como o jovens escribas e selo doburro, projetos editoriais que surgiram da disposição da querência. 
 
 
Em Natal você criou o Poesia Esporte Clube e em São Paulo, ações como o Sarau do Burro e O menor Slam do Mundo. Fale sobre essas experiências de poesia enquanto processo presencial e em coletivo.
 
viver ainda vai me matar
viver
viver é uma benesse
um biscoito da sorte
recheio stress
viver
viver é travessia irregular que se desvia para fora de ser e de lugar 
 
não é causa nem efeito
pra travessia não há jeito
atravessar é fatal
só há um leito de lama e lodo no final
 
caí nessa travessia 
sequer me perguntaram se eu queria
e de repente me vem poesia
querendo correr uma maratona por dia
 
não sei o que me quer a poesia
essa mulher que me fantasia 
e me consome
só sei que elas está e me levar
e não sei o lugar 
onde ela se esconde
e se sinto passar
quando vou olhar 
ela já me some
 
esqueço até meu nome
é minha companheira inseparável
danada, levada,
estou sempre a perguntar sua morada 
e ela me diz muito maleducada:
não te direi
pois devo te lembrar que 
és apenas um rapaz,
um aprendiz,
de mim, não sabes nada.
 
- eita poesia danada!
 
(joão xavier, de orelhada )
 
o pec (poesia esporte clube) foi criado na casa da ribeira com suporte de henrique fontes, por mim, ruy rocha e joão xavier, pra livre experimentação poética muito inspirado num disco do cep20000 (grupo do rio capitaneado pelo chacal e guilherme zarvos) que saiu na trip com o título de o celeiro do underground carioca, e foi semente geradora de um formato informal de apresentar que culminou no sarau do burro que já completa 14 anos com eventos mensais que possibilitam o diálogo entre pessoas e artes através especialmente da poesia. e acho que o rito, a presença, o evento, ajudam demais na criação de poesias mais complexas e dialógicas. a poesia é uma ampliada e potente forma de comunicação e experimentar constantemente de forma relacional ajuda expandir seus horizontes e formas. talvez nessa poesia de autoria compartilhada em espaços coletivos nos aproximemos de nossos ancestrais e da função primeira da poesia, a de reunir as pessoas ao redor do fogo. do próprio fogo do fazer. 
 
 
Também em Natal  você foi um dos fundadores do grupo e da editora Jovens Escribas (hoje Escribas), que publicou centenas de livros e ganhou alcance nacional. Como foi esse processo e como você vê o papel da editora?
 
A educação pela pedra
(João Cabral de Melo Neto)
 
Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
 
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra, 
uma pedra de nascença, entranha a alma.
 
ou
 
o projeto jovens escribas foi uma grande escola pra mim. Foi lá que entendi que poderia pensar poesia pra livro, me organizar e lidar com as críticas oriundas desse processo, quase de parto (com muitas aspas pois antes da paternidade já usei de forma mais aleatória e irresponsável essa palavra, hoje sei melhor a dimensão do que ela traz), de um livro. e como sempre foi a fórceps, a escola foi boa e continua sendo construída dia após dia, sempre se reinventando, no eterno malabarismo que é ser um artista brasileiro em 2022.
 
ao mudar pra sampaulo criei o selo doburro que era pra publicação de primeiros livros de jovens autores da cena de poesia falada e saraus. alguma coisa deve ter dado certo pois o selo já completa 10 anos publicando mais de 100 livros de diversas pessoas, algumas já com um certo reconhecimento na cena nacional contemporânea e esse tem sido meu principal ofício hoje, de poeta, editor, agitador cultural, organizador de eventos. resumindo, um verdadeiro a.s.g. (artista de serviços gerais). 
 
 
Você publicou vários livros como "Escolha o título", "Iapois poesia", e percebe-se neles uma intenção de provocar o leitor, questionar a própria poesia. Como você vê sua produção editorial e realmente existe uma ideia conceitual de instigar quem lê sobre o processo poético?
 
AO PASSO
[para Chacal]
 
Poeta é aquele
que sabe uma
maneira maneira
de fazer de uma
cascata
cachoeira
 
amo essa definição de poeta do Pedro Rocha.
 
ou
 
UM ATO
a poesia é o pulo do gato.
sem o gato.
sem o pulo.
 
de natalia barros
 
ou se precisar de mais explicação:
 
a cartinha que tirei nesse war que é o jogo da vida foi: tornar a poesia esporte ou paixão nacional e fico feliz de ter trabalhado arduamente por isso até aqui, nos últimos 22 anos, seja nos eventos que organizo, seja nos livros que publico, seja em minha produção poética, seja simplesmente sendo. tenho tatuado em minha alma a premissa do poeta "vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas", e é a isso que tenho me dedicado, arte como retorno ao meu povo. como poeta, sinto que dialogar através de provocações que estabeleçam com leitores a relação de criação de poesia muito me interessa. sendo eu um popular, de natureza operária até, compartilhar esse biscoito fino com os meus é motivo de muito orgulho. então esse jogo de pé dentro pé fora, além de ser divertido e afetivo pra mim, é efetivo pois provoca rupturas políticas inclusive nos campos de criação de linguagem. e muito me alegro em ver que o que faço hoje ainda dialoga e preserva o que me motivou a escrever meu primeiro livro de poemas. a chama ainda não apagou. chamaaa. 
 
 
Como foi a sua formação enquanto leitor, quais suas primeiras leituras e quais suas influências literárias? 
 
 
ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA
 
a poesia está morta
 
mas juro que não fui eu  
 
eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la
 
imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres car-
    los  drummond de andrade   manuel bandeira   murilo
    mendes vladimir maiakóvski  joão cabral de melo neto
    paul éluard  oswald de andrade   guillaume apollinaire
    sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos
 
não adiantou nada
 
em desespero de causa cheguei a imitar  um  certo (ou
    incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada
    de ferro araraquarense
 
porém ribeirãozinho mudou  de nome a estrada  de ferro
    araraquarense foi  extinta  e  josé paulo paes  parece
    nunca ter existido
 
nem eu
 
 (Poema "Acima de qualquer suspeita") José Paulo Paes 
 
e  essa pergunta é muito difícil e muito ampla pois não restrinjo minhas influências à literatura de antemão justamente por não considerar a poesia estritamente ligada ao livro e até por enxergar de forma "possibilista", como diria o grande marcelus bob, e mais ligada a outras linguagens artísticas ou meios de difusão e criação mais amplos, poesia 720º. então esse balaio envolve muita música e cinema na minha formação como poeta, primeiro no samba, depois no rap, nas ladainhas e chulas de capoeira, nas músicas populares e depois no vasto cancioneiro. diria que sou itamarista do sétimo disco, pois o músico de tietê influenciou muito minha poesia e meu jeito de pensar sonoridades na poesia. mas cabe muita coisa no meu balaio em poesia eu leio especialmente poesia brasileira, de cabral, bandeira, alice ruiz, cecília pavlón, angélica freitas, carla diacov, wislawa szymborska, josé paulo paes, drummond, décio pignatari, os irmãos campos, paulo leminski, ferreira gullar, murilo mendes, hilda hilst, orides fontela, glauco mattoso, piva, viviane mosé, bianca ramoneda, eveline sin, michel melamed, chacal, guilherme zarvos, pedro rocha, levy, toda galera do cep20000 (esse cd que saiu pela trip virou minha cabeça), marcelino freire, joão antônio, italo calvino, campos de carvalho, murilo rubião, guimarães rosa, clarice lispector e tantos outros nomes contemporâneos que deixariam essa lista imensa. sou constantemente influenciado por muitas pessoas. vale um destaque pro modo de pensar a poesia e seus afluentes e desdobramentos do joan brossa. mas a poesia em artes visuais de cildo meirelles, paulo bruscky, lenora de barros, os concretos, tantas coisas que me movem que estou certamente sendo injusto aqui e essa lista está sempre passível de atualizações. 
 
 
Acredita que no Sul-Sudeste leem o que escrevem no Nordeste, Norte, Centro Oeste? Existe intercâmbio entre autores/leitores que permita essa leitura de pessoas para além das próprias bolhas?
 
Não espere nada do centro
Se a periferia esta morta
Pois o que era velho no norte
Se torna novo no sul
 
Eu tenho feito samba pesado
Misturado sons, inventado estilos
Repensando o sucesso
E destruindo a camada de ozônio
 
Eu venho perseguindo bandidos
Pedindo a pena de morte
Recitando psico-trópicos
Aplicando eletro-choques
E destruindo a camada de ozônio
 
Eu só queria ser, Romário
Eu só queria ser, Romário
Eu só queria ser, Romário
Destruindo a camada de ozônio
 
Destruindo A Camada De Ozônio
Mundo Livre S/A
Composição: Tony Regalia
 
ou 
 
nos lugares que ando e na poesia que acredito é fato que as pessoas estão realmente interessadas no que é feito no nordeste. o tempo todo. me incluo muito nessas pessoas, pq tem muita coisa de vanguarda sendo criada nestistante em todos lugares. e nos lugares que tem a cultura como motivo principal, ainda mais. as periferias são os centros. furar bolhas é tarefa árdua pra qualquer campo artístico e em poesia que é um pouco mais restrito, ainda mais. mas sinto que as pessoas que trabalham com poesia tem cada vez mais inventado forma de se fazer chegar, de serem notadas e de criarem públicos. a tarefa é complexa, de investir na própria produção e estar atento ao que criam e tals, mas muites poetas estão bem antenades com isso. e acredito que esse movimento fura bolhas sim. e solta outras bolhinhas dentro das bolhas, criando mais refração e fragmentação mas também criando beleza e flutuância. 
 
 
Como acredita que serão os eventos literários presenciais no chamado pós-pandemia e com a vacinação na dose de reforço?
 
passa passado
me interessa 
o futuro
 
não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. hehehheeh. não me atrevo a fazer futurologia nesse momento pois a cada dia somos mais pegos de surpresa. por hora me cabe pedir encarecidamente que as pessoas sejam responsáveis e usem máscaras e mantenham hábitos de higiene. isso parece ser o óbvio ululante, mas não é. então seguimos pra uma terceira onda e ainda temos que falar do básico, nem me arrisco a dizer mais. por hora, se a gente conseguir se manter fazendo os parcos eventos que tinha, e continuarmos vivos sem pirar, já seria vitória. 
 
 
Quais seus projetos literários para 2022?
 
Palavrear
 
Minha mãe me deu ao mundo
e, sem ter mais o que me dar,
 
me ensinou a jogar palavra
no vento pra ela voar.
 
Dizia: “Filho, palavra
tem que saber como usar.
 
Aquilo é que nem remédio:
cura, mas pode matar.
 
Cuide de pedir licença,
antes de palavrear,
 
ao dono da fala que é
quem pode lhe abençoar
 
e transformar sua língua
em flecha que chispa no ar
 
se o tempo for de guerra
e você for guerrear
 
ou em pétala de rosa
se o tempo for de amar.
 
Palavra é que nem veneno:
mata, mas pode curar.
 
Dedique a ela o respeito
que se deve dedicar
 
às forças da natureza
(o animal, a planta, o ar),
 
mesmo sabendo que a dita
foi feita pra se gastar,
 
que acaba uma, vem outra
e voa no seu lugar.”
 
Ainda ontem, lá em casa,
me sentei pra conversar
 
com as minhas duas meninas
e desatei a lembrar
 
de casos que a minha mãe
se esmerava em contar
 
com luz de lua nos olhos
enquanto fazia o jantar.
 
Não era bem pelo assunto
que eu gostava de escutar
 
aquela voz que nasceu
com o dom de se desdobrar
 
em vozes de outras eras
que voltarão a pulsar
 
sempre que alguém, no vento,
uma palavra jogar.
 
Gostava era de poder
ver a voz dela criar
 
mundos inteiros sem quase
nem parar pra respirar
 
e ganhar corpo e fazer
minha cabeça rodar,
 
como roda ainda hoje,
quando, pra me sustentar,
 
eu jogo palavra no vento
e fico vendo ela voar
 
(jogo palavra no vento
e fico vendo ela voar)
 
Ricardo Aleixo
 
2022 é um ano político, impossível não falar disso. então em 22 eu vou lançar livro que dialoga com a semana de arte moderna mais ou menos na mesma proporção que escreverei panfletos e poemas incendiários, pois um poeta dialoga com seu tempo. e esses tempos são de guerrear. guerrear por uma retomada de país, guerrear por paz pra toda gente, guerrear por uma virada nesses atrasos que insistem em ficar dando a cara por aqui. o foco será mudar, inventar novos passos, reinventar, então tudo isso vira bastante impregnado dessa necessidade política de nossos tempos. a poética não pode deixar de dialogar com essa dimensão ética e política desses dias esquisitos. enfim, de concreto sei que não sei o que me quer a poesia nem dela o que quero por mim. só sei que seguiremos lutando, até que um de nós encontre seu fim.