Eva Potiguara pertence ao Povo Potiguara Sagi Jacu, em Baía Formosa/RN. Graduada em Artes visuais, Mestrado e Doutorado em Educação pela UFRN, é Professora e pesquisadora do IFESP-SEEC, atuando nos cursos de Pedagogia e Letras. É produtora cultural da EP Produções, escritora, ilustradora, contadora de histórias, articuladora nacional do Mulherio das Letras Indígenas, membro da UBE/RN, da SPVA e de várias academias de Letras no Brasil e em Portugal. Tem livros solos infantis e de poesia, publicados no Brasil
Ah, o mês de abril! O momento em que, de repente, todos lembram que existem indígenas no Brasil. Corre-se para comprar cocares de plástico, pintar o rosto das crianças com tintas especiais e encher a sala de aula com "brincadeiras e comidas típicas" que fariam qualquer ancião indígena tremer de desgosto. Afinal, se está na agenda escolar, deve ser suficiente, não é mesmo?
E lá estão eles, os primeiros habitantes dessa terra, reduzidos a um estereótipo folclórico. Quem se importa se suas terras são roubadas diariamente? Se sua identidade é questionada, sua língua silenciada, sua existência constantemente julgada como um entrave ao progresso? Importante mesmo é garantir que, por um dia no ano, possam ser lembrados como personagens de um livro infantil, com arcos e flechas de papelão.
Alguns afirmam que o progresso não pode parar. Daí, o agronegócio avança, a floresta recua. O grito dos indígenas ecoa nas redes sociais, mas o algoritmo parece não gostar muito do assunto. E a sociedade? Segue tranquila, celebrando o "Dia dos Povos Indígenas" com uma empatia tão rasa quanto a preocupação com a crise climática.
Mas, e se trocássemos a fantasia pela realidade? Se, ao invés de celebrar, as escolas, os educadores e os pais das crianças e adolescentes, iniciassem projetos educativos contracoloniais?
Alguém pode dizer: - não sei o que é isso que chamam de “contracolonial”.
Isto é simples de responder. Ações contracoloniais são atitudes e práticas que contrariam, ou diferem das estabelecidas pelo eurocentrismo ocidental colonial, a respeito das culturas dos povos originários desta Terra Pindorama chamada Brasil. Atitudes e práticas anticoloniais e antirracistas, que devolvem aos povos indígenas o protagonismo sociohistórico, político, sociológico e espistemológico, ignorado por séculos pelos colonizadores brancos europeus.
Eis algumas ações contracoloniais concretas que todas as pessoas podem adotar nesta contemporaneidade em prol de uma educação escolar intercultural e antirracista: valorizar a literatura e a arte indígena, investindo em livros, filmes, músicas e exposições feitas por artistas indígenas. Em vez de contar histórias sobre eles, que tal ouvir as histórias contadas por eles? Suas vozes precisam ser ouvidas. Fortalecer a educação decolonial, rompendo com termos e conceitos racistas que reforçaram ideias coloniais de que os indígenas foram "descobertos". Vamos questionar os livros didáticos, trazer intelectuais indígenas para debates e reformular as narrativas que perpetuam o apagamento histórico. Apoiar a luta pela demarcação de terras, se envolvendo em campanhas e petições contra propostas de leis que desconsideram os direitos humanos dos povos indígenas, , pressionar políticos, denunciar invasões e apoiar iniciativas indígenas de resistência, são formas de garantir que as suas terras continuem sendo suas, como sempre foram. Consumir de forma responsável os recursos naturais, pois o que você compra e consome tem impacto diretamente na preservação da natureza. Optar pelo artesanato autêntico, alimentos agroecológicos e produtos feitos por comunidades indígenas são uma forma de resistência e sustento. Fortalecer as vozes indígenas nas redes sociais e na mídia, seguindo, compartilhando e apoiando os comunicadores indígenas, para romper o monopólio das narrativas tradicionais.
Por fim, participar de eventos e ações organizadas pelos próprios indígenas, ao invés de criar festas estereotipadas. Ou seja, frequentar rodas de conversa, feiras culturais, exibições de cinema indígena e outras iniciativas feitas por quem realmente vive essa realidade.
Então, que tal parar as comemorações aleatórias e rever as implicações dessas práticas na formação humana? Os povos indígenas não precisam de palmas em abril, mas lhe convidamos para se aliar as lutas que enfrentamos durante todos os dias e meses do ano.
Aûîébeté / “muito obrigada” pela leitura e escuta.
Eva Potiguara
#leiamulheresindigenas
#obrasiléterraindigena
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