A alfabetização na perspectiva do letramento e da cidadania social

21/06/2020

Por: Andrezza Tavares & Ana Lúcia Sarmento Henrique
Foto: Profa. Dra. Ana Lúcia Sarmento Henrique

 

 

   A modalidade de educação de jovens e adultos, historicamente, é negligenciada no Brasil. Sofre com financiamento escasso, com a falta de infraestrutura adequada nas escolas, com a falta de formação de professores, com a percepção equivocada de que ela se restringe à alfabetização, com a concepção de alfabetização circunscrita à decodificação. Considerando essas questões tão caras à sociedade, o Jornalismo Potiguar Notícias entrevistou com a Profa. Dra. Ana Lúcia Sarmento Henrique sobre “a concepção de alfabetização presente na atual Política Nacional de Alfabetização”.

1. Professora Dra. Ana Henrique, é uma constatação lamentável que a modalidade de educação de jovens e adultos, historicamente, tem sido negligenciada na política educacional Brasil. Quais os espaços políticos destinados a esta pauta no atual governo federal de discurso fortemente neoliberal?

    Com a sanção da Lei Nº 9.759/2019, foi extinta a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI/MEC) e a Diretoria de Políticas de Alfabetização e Educação de Jovens e Adultos (DPAEJA). A nova estrutura administrativa do MEC, de 2019, entre outras secretarias, criou a Secretaria de Alfabetização (SEALF), que é responsável por planejar, orientar e coordenar a implementação de políticas para a alfabetização de crianças, jovens e adultos. No âmbito dessa secretaria, está a Coordenação de Alfabetização Baseada em Evidências, que, em agosto de 2019, lançou um guia explicativo para a Política Nacional de Alfabetização (PNA). Segundo o documento, os métodos fônicos são necessários para alfabetizar, e outras abordagens que desprezam esses processos não são eficazes, como o construtivismo, por exemplo.

2. Em síntese, qual a proposta Pedagógica do Guia Explicativo para a Política Nacional de Alfabetização (PNA) mencionado anteriormente?

     Na cartilha, se explicita que alfabetizar crianças, jovens e adultos é ensinar explicitamente o princípio alfabético e as regras de codificação e de decodificação  que concretizam o princípio alfabético na variante escrita da língua para habilitar à leitura e à soletração de palavras escritas à razão de 60 a 80 palavras por minuto com tolerância de, no máximo 5%, de erro na leitura.

3. Como a Pesquisadora Dra. Ana Henrique avalia a dimensão político-pedagógica do citado guia PNA? 

    Compreendemos que a codificação e a decodificação fazem parte do processo de alfabetização, mas compreendemos também que a alfabetização não pode se restringir ao princípio alfabético e à velocidade de leitura. Subjacente a esse princípio, está a concepção de língua como código, que desconsidera que a língua só existe a partir do uso que seus falantes fazem dela, desconsidera que a língua é uma prática social que intermedia todas as demais práticas sociais e, portanto, está transpassada pelas relações de poder que também existem nas relações sociais. Então, se vamos alfabetizar crianças e, principalmente, jovens e adultos para o pleno exercício da cidadania, o princípio alfabético e a concepção de língua como código são insuficientes.

4. Quais ideias o campo teórico da alfabetização transformadora defende sobre o processo de alfabetização de jovens e adultos?

      Defendemos que a concepção de língua como prática social é fundamental e, em consequência, a concepção de letramento é essencial, para que se possa alfabetizar  o sujeito na perspectiva de utilização da escrita e da leitura nos mais diversos contextos sociais e nas mais diversas práticas sociais de que participa.

5. Para Paulo Freire, o Patrono da Educação brasileira, “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Que problematizações podemos construir a partir desta filosofia Freiriana?

    Para os jovens e adultos, inseridos no mundo do trabalho, é necessário que a concepção de alfabetização esteja pautada no desenvolvimento do uso competente da leitura e escrita nas práticas sociais; que a língua seja ensinada na perspectiva de uso social; que se considere alfabetizada quem usa a leitura e a escrita de acordo com as demandas sociais, quem sabe organizar discursos, interpretar e compreender textos, refletir, compreender o mundo da palavra escrita a partir de sua inserção no mundo da vida e no mundo do trabalho, porque, para esses jovens e adultos que vivem do trabalho, necessariamente, “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, como já afirmou muito acertadamente Paulo Freire, o Patrono da Educação brasileira. É a alfabetização na perspectiva do letramento e da cidadania social.

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

 

Fonte: Profa. Dra. Ana Lúcia Sarmento Henrique