O Currículo das Escolas do Estado do Rio Grande do Norte a partir da BNCC

06/07/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Francinaide Silva (IFRN)
Foto: Naama Pegado Ferreira

O Currículo das Escolas do Estado do Rio Grande do Norte a partir da BNCC

Entrevista concedida pela Professora Mestre Naama Pegado Ferreira, ao portal de jornalismo Potiguar Notícias. A entrevistada é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2012), Especialista no Ensino de Ciências Naturais e Matemática (IFRN) e Mestre na mesma área (PPGECNM/UFRN). Atualmente é docente da rede pública (SEEC-RN) e atua como membro do Núcleo de Formação da CODESE (Coordenadoria de Desenvolvimento Escolar) na SEEC/RN. É docente na rede privada de ensino (Rede Salesiano). A professora foi a redatora da Área de Ciências da Natureza do Documento Curricular do RN para a Educação Infantil, para o ensino Fundamental (2018) e está sendo redatora do Documento Curricular para o Ensino Médio.

1.Quem participou da implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) no Rio Grande do Norte (RN)?

Antes da efetiva reelaboração curricular do estado do RN havia o Grupo de Trabalho (GT) de Currículo, grupo da Secretaria Estadual de Educação e Cultura (SEEC-RN) responsável pela escrita do documento, juntamente com a Fundação Vanzolini. Após a homologação da BNCC da Educação Infantil e do Ensino Fundamental (2017), 22 redatores de todas as áreas foram selecionados para contribuir com a reestruturação do documento. Um dos pré-requisitos solicitados pelo Ministério da Educação (MEC) foi que os colaboradores da elaboração dos documentos fossem no mínimo especialista na área e que estivessem dando aula na rede.

Todo o processo foi feito em regime de colaboração com a Undime e com a Consed. Posterior à consulta pública foi homologado o Documento Curricular da Educação Infantil e Ensino Fundamental. O do Ensino Médio não passou por consulta pública e apesar de homologado está sendo, atualmente, reestruturado.

2. Comente sobre como se encontra informado o conteúdo na estrutura curricular da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) no Rio Grande do Norte (RN).

Foi decidido pela equipe curricular colocar no quadro dos componentes curriculares uma tabela contendo: as problematização, as habilidades, os objetos de conhecimento e sugestões didáticas de orientação ao professor. Ao final de cada etapa alguns instrumentos e procedimentos avaliativos também foram acrescidos.

No Ensino Fundamental, a área de Ciências da Natureza ficou dividida em 3 unidades temáticas: Terra e Universo, Vida e Evolução e Matéria e Energia. No Ensino Médio as unidades temáticas ficaram apenas 2: Matéria e Energia; Vida, Terra e Cosmos, contendo 26 habilidades. Alguns pontos positivos foram relatados na mudança da área, como: maior integração entre as disciplinas e os componentes de física e química desde as séries iniciais. Porém há alguns pontos a serem considerados, como: não há garantia de carga horária mínima no Ensino Médio, além de ser repensada a formação inicial e continuada dos docentes.

3. No Rio Grande do Norte, a implementação da BNCC do Ensino Médio ocorreu concomitante à reorganização da Rede de Ensino com a proposta de tempo integral para algumas escolas e a ampliação da oferta de Educação Profissional nos CEEP. Como se deu a implementação dessas demandas?

O Novo Ensino Médio pelo Plano Nacional de educação (PNE) foi dividido na Parte Comum (1800 h), conhecida como Formação Geral Básica, onde será desenvolvida a BNCC e a Parte diversificada (1200 h) que serão divididas em Itinerários Formativos, Projeto de Vida e Disciplinas eletivas.

A Subcoordenadoria do Ensino Médio (SUEM) é responsável pela implementação do Novo Ensino Médio, por escrever o Documento Curricular do Ensino Médio e por implantar esse documento nas escolas públicas no Estado do RN.

Em 2017, as escolas do PROMEDIO (Tempo Integral) e do CEEP (Centro Estadual de Educação Profissional) foram implantadas em algumas escolas através da SEEC, com parceria com alguns institutos, como Instituto Sonho Grande e ICE  que são Institutos de Corresponsabilidade da Educação os quais têm como premissa educacional colaborar com o Projeto de Vida dos estudantes. A carga horária dessas escolas foi alterada de 800 para 1000 h anuais, sendo 25h semanais, conforme orienta o Novo Ensino Médio.

Já a implantação do Novo Ensino Médio, iniciou em 2019, com 89 escolas pilotos que foram cadastradas voluntariamente e receberam a 1ª parcela do fomento previsto, mas estão funcionando 25h semanais, apenas com as disciplinas eletivas e o Projeto de Vida, pois a proposta de inserção de Itinerários Formativos  (4 áreas de conhecimento ou Educação Profissional) está prevista para essas escolas piloto no ano de 2021 para que seja implantado efetivamente em toda a rede, no ano de 2022.

4. Dentre as principais inovações presentes na reorganização da Educação Profissional, estão as perspectivas curriculares e metodológicas. Comente sobre as concepções de “Escola da Escolha” e de “Projeto de Vida”?

A “Escola de Escolha” é um modelo educacional que tem o “Projeto de Vida” como principal elemento que perpassa todos os componentes curriculares e foi implementado em algumas escolas tendo como alicerce 3 pilares para serem desenvolvidos nos estudantes: autoconhecimento, inserção social e o mundo do trabalho. 

O “Projeto de Vida” é uma concepção teórica metodológica. É um requisito do Novo Ensino Médio que vai além da carreira profissional dos estudantes. Além desses pilares citados na “Escola de Escolha”, há dimensões psicológica, sociológica e filosófica, em que os estudantes planejem um projeto, baseado em suas perspectivas futuras e autoconhecimento que seja exequível e possível de ser efetivar na realidade.

Alguns estados, como SP, estão inserindo como disciplina curricular, mas no RN estão estudando todas as possibilidades se será como disciplina curricular, como tem sido nas escolas que aderiram a “Escola de Escolha” ou terá uma abordagem mais transversal.

5. O que a literatura sobre a ideia da “escola de escolha” sinaliza sobre o perfil dos estudantes?

Os especialistas dividem em 6 tipos os estudantes quanto ao Projeto de Vida,  não para classificá-los mas para compreender como será trabalhado durante as aulas: 1) Alunos com conflito de identidade que não sabem quem são nem o que pretendem fazer; 2) Estudantes com projeções normativas, em que suas escolhas dependem das expectativas sociais; 3) Estudantes com projeções idealizadas, tem sonhos, mas não sabem como lográ-los; 4) Estudantes com Projetos Parciais; 5) Com Projeto de Vida prontos e ainda os estudantes; e, 6) com Projeto de Vida e compromisso ético.

6. Como os estudantes do Ensino Médio têm correspondido a essa expectativa de formação quanto ao projeto de vida? Quais os desafios dos educadores?

Os cuidados que devemos ter serão em não culpar os estudantes pelo fracasso escolar em suas escolhas que terão que ser feita a partir do Ensino Médio, além das escolas privadas não fazerem dos itinerários formativos cursinhos preparatórios, aumentando ainda mais as desigualdades, pois o objetivo desses itinerários será aprofundar as habilidades em cada área escolhida.

Outros desafios à implementação do Documento Curricular do RN, baseada na BNCC, ainda é que a aprendizagem seja centrada no estudante e a mudança de concepção de ensino durante a formação dos professores.

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

  

 

Fonte: Naama Pegado Ferreira