Cefas Carvalho

24/02/2021
 
´Nomadland`: Filme poético que discute o caos do sonho americano e o capitalismo
 
 
O filme necessário para o momento, o filme que deve ser visto. Assim como "Parasita" no ano passado, antes da pandemia, "Nomadland" possivelmente é o filme do ano, da mesma forma que já é favorito a vencer os principais prêmios (Oscar, Bafta, Independent), como já venceu Veneza em julho de 2020.
 
Não que "Nomadland" fale de pandemia, na verdade a história se passa entre 2012 e 2014, mas fala de isolamento. Mais ainda: Sobre um mundo que parece em colapso e em extinção, o do capitalismo, o fim do sonho americano, mas, expandido para todo um mundo que, como um certo país dos Trópicos, acha que ´o que é bom para os EUA, é bom para o Brasil´.
 
Divagações demais, antes de voltarmos a elas vamos ao filme em si. Trata-se da história de Fern, mulher de 60 anos cujo marido morreu há pouco tempo e que perde a casa onde morava. Sem teto e sem filhos, acaba por morar em sua van (que ele adapta e trata como a um lar) e vagueia pelos EUA atrás de empregos precários e sazonais, fazendo amizades e relações humanas tão sólidas como breves pela estrada e pelos acampamentos.
 
Este é o plot do filme, mas, ele tem muito mais leituras e profundidades em relação a forma e conteúdo. A narrativa do longa não é convencional. Filme independente em essência, dirigido pela jovem sino-americana Chloé Zhao (do ótimo "The rider") "Nomadland" parece uma poesia de uma 1h45 minutos. Lento, sem ser arrastado. Poético e cheio de imagens belíssimas sem parecer ´publicidade`, a estrutura do filme convida a termos empatia para com os personagens e mergulharmos no mundo de solidão de cada um, principalmente da protagonista vivida pela sempre ótima Frances McDormand.
 
Quanto ao contudo, o filme, sim, sem agressividade e com poesia em cada frame, como já dito, põe em xeque o ´sonho americano´ onde os personagens tentam se convencer que estão embarcando em um estilo de vida natural e aventureiro mas, na verdade, perderam casas e dinheiro para bancos e o sistema. Em algumas cenas este diálogo é explicitado, quando Fern visita a irmã casada com um corretor de imóveis e fica evidente que o que é bom para ele é justamente o que destrói a  vida de pessoas como Fern e seus companheiros de nomadismo.
 
O filme também aborda a situação dos empregos precários, uma constante nos EUA. Vivendo de subempregos ao logo da estrada, seja de embalar produtos num deposito da Amazon ou limpar banheiros em um spa, Fern estimula a quem assiste a pergunta: Por que ela, como professora de Literatura que foi, não está vivendo com dignidade com o dinheiro da sua aposentadoria? Simplesmente porque não é possível, é o que percebemos. E a crítica cirúrgica ao capitalismo selvagem, por mais que algumas cenas nos acampamentos mostrem a solidariedade entre os nômades, não significa uma contraposição ao Comunismo, não se trata aqui de um embate ideológico, mas sim de uma constatação do que não deu certo. No caso, o modelo de Capitalismo dos EUA e do Brasil, que empobrece e adoece as pessoas.
 
Como registrado no início, um filme necessário, além de excelente. Tem condições de convidar à reflexão coletiva que "Parasita" fez no ano passado. Que "Nomadland" chegue logo aos cinemas e plataformas de streaming.