Evandro Borges

Advogado e especialista em gestão pública.

Estradas vicinais e as identidades municipais

28/03/2025 03h42

 

As estradas vicinais ligam as sedes municipais as comunidades, aos imóveis rurais, áreas de assentamento, são o elo de ligação da população dos Municípios, por onde passa a produção, a garantia da prestação de socorro, o comércio, as comunicações, o acesso as festas comunitárias e locais, em bom estado ou mal conservadas pelas intempéries do bioma ambiental. É um bem municipal.

 

No ofício da profissão, muito ligado ao meio rural, conheço bastante as estradas vicinais e me deparo com novas realidades. Considero viagens maravilhosas. São oportunidades diferenciadas. No semiárido a vegetação aflora em verde vivo nos períodos chuvosos, nos períodos de estiagem toda a característica da resistência é deslumbrante com a bravura e a capacidade de adequação da flora e fauna. É de fato inquietante as vivências humanas adaptadas ao meio.

 

Viajar pelas estradas vicinais é descortinar as serras, o afloramento das pedras, dos riachos, as grutas, a transformação humana com passagens molhadas, pontes, açudes de todos os portes, as barragens, as barragens submersas, as lagoas, poços, cata-ventos, as moradias, as casinhas brancas, verificar o plantio das culturas de segurança alimentar, escolas, igrejas, unidades de saúde, mercearias e bodegas. Uma efervescência.

 

As estradas vicinais que permite descortinar o paisagístico é a própria identidade dos Municípios, agora mais bem conservadas pelo poder público compromissado com os seus munícipes, chegando em todos os rincões a energia elétrica, a internet, acesso a água com razoabilidade, as políticas públicas presentes, com a marca do programa de cisterna para a primeira água de consumo humano. O reúso da água em programas especiais. O algodão agroecológico.

 

A alimentação nas paragens é de uma gastronomia muito própria, a comida a base de milho, feijão, e galinha estão sempre presentes, mas, também o leite, queijos, coalhadas, manteiga da terra e a carne de sol, linguiças caseiras, e bolos de toda natureza destacando para os bolos de milho e pé de moleque. Cocadas a base de coco, leite e maracujá consiste em uma constante.

 

As estradas vicinais para a sua manutenção exigem muito do poder público que deve manter em bom estado de conservação, principalmente para os Municípios com vastas áreas, aqui podendo destacar no Rio Grande do Norte os bastantes conhecidos por suas áreas, Lajes, Santana dos Matos, São Tomé, Pedro Avelino, Mossoró, inclusive que devem receber o tributo de Circulação de Mercadorias diferenciados em face dos seus territórios.

 

As estradas vicinais com manutenção vêm permitindo o acesso à Escola, uma parte ainda seriada, embora logo se vê a presença dos “amarelinhos” ônibus adequados ao transporte dos estudantes pelas estradas vicinais e suas adversidades, com o seu balançado, conduzindo diariamente a jornada escolar, pois o ensino fundamental II, considerado maior são em escolas na sua maioria nas sedes municipais.

 

A maioria dos assentamentos de ações da reforma agrária encontram-se no interior dos Municípios, que tem acesso pelas estradas vicinais, seja em Mossoró, ou na Região Metropolitana de Natal, em Ceará Mirim e Macaíba com as suas vilas rurais, o lote residencial, verdadeiras comunidades, algumas já contando com pequenas agroindústrias, de casas de farinha, produção de polpas, produção de doces, dentre outros.

 

“O Brasil profundo” é uma vastidão, que precisa de mais modernidade, de acesso as tecnologias alternativas já disponíveis, de uma boa assistência técnica, de mais organização econômica, inclusive o saneamento rural, de conservação ambiental, e as estradas vicinais mantidas adequadamente as custas do poder público municipal cortadas agora pelas motos de todas as cilindradas, contribuem para fixação das famílias na terra, evitando o êxodo rural que tanto mal fez ao ser humano.

 


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