O artista potiguar durante a pandemia e o isolamento: José de Castro

31/07/2020

Por: CEFAS CARVALHO
Foto: Arquivo pessoal
 
José de Castro, mineiro, que em suas próprias palavras, "gosto de rios, montanhas e trens, maria-fumaça, principalmente, mas por querer o mar, vim para o litoral potiguar, abraçar dunas e ventos", é poeta e escritor, principalmente de livros infantis, com várias obras publicadas. É militante cultural com ampla participação em eventos literários e fomento à leitura em escolas. Confira entrevista onde ele fala sobre o momento atual e sua obra:
 
 
Como observa a situação da arte nacional e potiguar como um todo durante este período de pandemia e isolamento?
 
Observo que tem havido bastante movimentação nos bastidores da arte, muita gente produzindo trabalhos diversificados. Vejo, com alegria, artistas oriundos dos povos indígenas com arte pictórica tribalista comercializando seus trabalhos pela internet. A obra, assim que é exposta, é vendida. Ou, muitas vezes, é exposta já com a observação: “vendida”. Tenho observado também que a produção musical no RN está em alta. Vários artistas compondo bastante e mostrando isso via redes sociais. Alguns, com regularidade semanal. Sem contar a quantidade de pessoas que eu nunca imaginei que tocava algum instrumento, de repente aparecendo nas telas de celulares. No âmbito nacional, esse fenômeno também tem ocorrido. Outro dia, assisti a uma escritora e um ilustrador de peso, entrevistados por um escritor de ancestralidade indígena, a debater sobre a importância do seu trabalho durante a pandemia. Falando da luta dos excluídos da arte, da literatura, do mundo dos livros, principalmente mulheres e mulheres pretas. Alertando de que ainda existe muito preconceito, racismo, homofobia, misoginia e outros vieses sociais a serem vencidos. A importância da arte é destacada. E, muitos – cada vez mais pessoas –  estão buscando um refúgio na sua arte como estratégia e trincheira de luta, seja ela qual for. E erguendo sua voz contra as injustiças nesse país.  
 
 
Você está conseguindo produzir poesia e literatura durante este período de isolamento?
 
A resposta é sim. Uma das lições de sabedoria da vida é conseguir que o universo conspire a seu favor. O que é o isolamento senão a oportunidade de estar mais perto de si mesmo? Isso é o que busco fazer. Por isso, no lugar de ficar me lamentando, procuro qualificar melhor o tempo fazendo o que mais gosto: ler e escrever.  Claro que, em paralelo, outras tarefas precisam ser cumpridas: compras via delivery, cuidados com a casa, comida, louça, roupa, jardim, dentre outros. Mas tenho escrito bastante, diversos gêneros. Esse período é muito propício para que se escrevam crônicas. Vou dar um exemplo: remexendo gavetas, curiando fotos, encontrei um registro meu, em preto e branco. Na foto,  eu devia ter um ano de idade, no colo de uma das minhas irmãs. Aquela visão remeteu-me à longínqua infância, lá em Minas,  às margens do rio Doce. E rendeu-me uma bonita crônica. Na mesma vibe, inspirando-me em fotos, escrevi outros textos. 
 
Participo de um grupo de poetas no whatsapp. Diariamente, produzimos poetrix – terceto contemporâneo,  de tema livre, com título que pode ter até 30 sílabas métricas. Os temas são escolhidos pelos membros do grupo. Um tema fica “no ar” por 3 dias e depois é trocado. Esta é uma excelente oportunidade de a gente não se enferrujar, pois temos sempre um novo desafio criativo pela frente. Outro dia, tivemos o tema “força ancestral”. Veja um dos poetrix escritos: 
 
herança
minha raça, minha força
minha lança – meu jeito
de ser criança tupiniquim
                   josédecastro
 
Nesse período, participei da organização de um livro digital de poetrix, a partir do material produzido em nosso grupo.   Quem quiser ver a I Mostra Poetrix, acesse o link
https://coletaneaspoeticas.blogspot.com/
 
Um dos meus poetrix que estão por lá:
 
ampulheta
anjos de areia
esfarinha-se a vida
–  grãos de luz.
  josédecastro
 
Fui convidado pela editora CJA a organizar um livro digital de poemas com base no tema pandemia: O que vem depois? É um projeto de poemas, contos e crônicas, em andamento, com editais já publicados, criando uma oportunidade para poetas, contistas e cronistas escreverem sobre suas visões do pós-pandemia.  Quem quiser participar, ainda está em tempo. Acesse o link: http://editoracja.com.br/arquivos/lista
 
Aproveitei também a oportunidade e, desde o início da pandemia, já produzi quatro livros novos para crianças. Um sobre brinquedos e brincadeiras, um de parlendas, um de trava-línguas e um de poetrix sobre animais. Três deles estão certos de serem publicados  – a depender do desfecho da pandemia – no próximo ano, pelas editoras CJA e 3M, de Natal.  Além desses mencionados livros, enviei diversos originais a várias editoras de fora do estado, e estou aguardando o retorno. Registro que publicar livros no Brasil não é fácil. É sempre um parto meio complicado.  
 
Além do mais, nesse mês de julho/2020 fui convidado a integrar a Academia Internacional Poetrix, idealizada pelo  criador do poetrix, o poeta e historiador baiano Goulart Gomes. A academia está com site próprio, no qual se disponibilizam informações e produções nossas, inclusive o meu  discurso de posse e dos demais colegas acadêmicos, de várias partes do Brasil e de países do exterior, como USA, Portugal e Argentina. Quem quiser conhecer os meus colegas de academia, todos autores e autoras poetrixtas, e os nossos patronos – o patrono da minha cadeira é o poeta e escritor Paulo  Leminski - pode acessar o site:
www.poetrix.net.br 
 
E para comprovar que minha produção poética anda a mil, inscrevi alguns trabalhos recentemente num concurso literário da Academia Marianense de Letras, lá de Minas, e obtive um primeiro e um segundo lugar, em dois  gêneros poéticos diferentes. Isso ajuda a aquecer nosso coração. 
 
Todos esses acontecidos durante a pandemia significam que, apesar de sentir falta de visitas a escolas, saudade de conversar e abraçar meus leitores mirins, professores, professoras, mediadores e mediadoras de leitura, refugio-me na minha escrita. E novas obras vão surgindo, todas elas servindo para dar sustento a esse terrível tempo de espera de um novo tempo, mais à frente, no qual poderemos sair novamente às ruas, às praças e visitar amigas e amigos de sempre, festejando a vida. Além do mais, estou com saudades de sair para almoçar com meus dois filhos que moram em Natal – pois apenas um deles está comigo. E abraçar minha neta Malu e meu neto  Théo, lá na Cidade da Esperança.  
  
 
Como está a divulgação do seu trabalho neste período?
 
Ah, tem havido um bom espaço para isso. Tenho sido convidado para muitas lives. Até mesmo para coordenar algumas. Além disso, muitas escolas vêm me pedindo vídeos com declamação de poemas, tanto públicas quanto privadas. Inclusive para redes escolares fora do Rio Grande do Norte. Os professores e as professoras precisam de material gravado para enviar aos seus alunos. Esta é uma boa alternativa que eles estão vislumbrando, pois trabalhar a poesia de forma remota acaba sendo algo prazeroso. Nessas horas é que a gente percebe a força e a importância da literatura através do trabalho com a leitura literária, ajudando as pessoas a não se sentirem tão sós.  
 
Também fui convidado a enviar depoimentos em vídeo para professoras que estão tendo formação sobre a arte de contar histórias. Porque um dos bons trabalhos que se faz com a literatura é através dessa arte da contação. Várias contadoras, por exemplo, gostam de apresentar a história de “O palhaço e a bailarina”, livro que publiquei pela CJA, em parceria com a poeta Clécia Santos. As crianças gostam demais. 
 
Além disso, tive a oportunidade de conversar com  professoras e professores que coordenam as DIRECS, que são as Diretorias Regionais de Educação e Cultura do RN, debatendo sobre a importância da leitura de obras literárias nas escolas. Tudo isso de forma virtual, em salas de vídeo ou videoconferência fechada. Ou seja, espaço para divulgar meus livros não têm faltado, o que muito me gratifica, pois percebo que o interesse pela literatura, pela poesia, vêm crescendo  no  Rio Grande do Norte. E isso pode contribuir para que, aos poucos, construa-se um estado leitor.  
 
 
Você é autor de diversas obras para o público infantil. Como percebe a situação das crianças neste período?
 
Como sou autor nessa área infantil, tenho recebido  feedback de mães postando fotos e/ou vídeos de seus filhos entretidos na leitura, folheando livros, tanto os meus quanto os de outros autores. Mas, reconheço que estou falando de um público privilegiado, que tem acesso a livros, que compra livros para seus filhos e está realmente empenhado em que eles sejam bons leitores. Infelizmente são poucos, pois a maioria do povo brasileiro, principalmente em certas camadas da classe média e abaixo dela, estão mais preocupados é com a sobrevivência, na batalha para conseguir comida para seus filhos. Nesses casos, infelizmente, livro acaba virando artigo de luxo. E não deveria ser assim. 
 
Em relação à educação remota, percebo que muitos pais e mães estão tendo dificuldades em lidar com as lições de casa dos seus filhos, pois, na verdade, são aulas que são enviadas com um número de tarefas superior ao que estavam acostumados. Além do que, nem todos têm uma internet e redes wifi para garantir um bom sinal. É uma situação inteiramente nova para todos, tanto para professores e professoras – para preparar materiais – quanto para os pais administrarem em casa o cumprimento dessas obrigações escolares. E as crianças também estão passando por muitas privações no seu lazer, pois precisam de espaço/tempo para extravasarem suas incansáveis energias. Para a criança, esse isolamento fica um pouco mais difícil de se enfrentar. O refúgio das crianças acaba sendo também através dos eletrônicos, seja televisão, tablet ou celular. Quando os pais têm condições de oferecer tais recursos para seus filhos. 
 
Tomei conhecimento de casos do tipo: criança arteira derruba aparelho de TV, o único da casa, que já era velhinho; os pais só têm o celular de uso próprio, já bem usado também. E ficam com a mão na cabeça sem saber o que fazer para ocupar o tempo da criança. Nessas horas é que fazem falta as “velhas” brincadeiras do meu tempo de criança,  quando não  tinha TV em casa e a gente criava o próprio brinquedo. Uma lata de goiabada virava carrinho ou usávamos caixas de fósforos e tampas de garrafa como rodinhas dos carros. Nesses tempos de reclusão, tem que se botar a criatividade para funcionar. E reinventar os modos de ocupar o tempo próprio e o das crianças também.
 
 
Em casa, as pessoas estão consumindo mais poesia e literatura potiguar?
 
Difícil de se fazer uma avaliação objetivo disso. Mas creio que sim, pois tem havido mais postagens e muitas indicações de leitura via facebook, redes sociais em geral, principalmente através de grupos de WhatsApp. As pessoas que estão em casa têm poucas alternativas de lazer. Sobra-lhes ler, assistir à TV ou a seriados. Ou ficar zapeando pelos grupos, via celular. Quero acreditar que estão buscando um pouco mais de refúgio na literatura, seja de prosa ou poesia. 
 
 
Qual a sua opinião sobre as lives e como vê o contexto delas neste período?
 
Tenho a impressão que está ocorrendo um saturamento de lives. No começo, veio a febre, pois era novidade. E muita gente se lançou a isso. Agora, corre-se o risco de se ter mais lives do que público para assistir. Tem momentos que três pessoas que conheço estão em lives, simultaneamente. Fica difícil acompanhar. E os conteúdos podem ficar repetitivos, além da superexposição que isso gera em determinados segmentos. Se a pandemia continuar, creio que as pessoas, em geral, terão que repensar isso e, aos poucos, reinventarem a maneira de abordar os conteúdos e a forma de apresentação. É necessário uma certa dosagem e melhor escolha de temas, variação de convidados e mais oportunidades de aprofundamento. Um dos problemas é a live ficar na superficialidade, sem conseguir alçar voos de reflexão em torno do assunto. Não sou contra as lives. Elas têm cumprido um papel importante. Mas já está na hora de serem repensadas criticamente. E de haver renovação no modelo. Eu mesmo estou programado para participar de três lives durante o próximo mês de agosto. Espero,  em cada uma delas,  trazer algo novo. Mas isso depende muito de quem conduz a entrevista, das perguntas que são feitas e do tempo disponível para as respostas. E do modelo de interação proposto. Porque as lives seriam mais ricas se o público pudesse participar de forma mais ativa. Isso, geralmente, não acontece. E perdem-se oportunidades de se abordar o tema sob ângulos diferentes, advindos do público. As lives, em geral, excluem o público. Isso não é saudável.
 
Apesar de tudo, tenho visto com bons olhos lives produzidas pela SPVA/RN, pela UBE/RN, e outras, por militantes dos movimentos feministas, movimento negro e dos povos indígenas, por exemplo. Tudo isso serve para alargar a nossa visão acerca de segmentos sociais que costumam ter pouca visibilidade em nosso país, infelizmente.  
 
 
Como acha que serão os saraus e os encontros literários no pós-pandemia?
 
Em primeiro lugar, precisamos saber quando é que todo esse pesadelo findará. E quantos de nós e amigos nossos resistirão, não só ao vírus, mas a todo o ambiente negativista e depressivo gerado em consequência dele. O que virá depois não me preocupa tanto. O depois, para mim, será como ter acordado de um pesadelo. E ver que sobrevivemos. Nós,  filhos, esposas ou maridos – conforme o caso – netos, amigos e todos aqueles a quem queremos bem. Será uma espécie de renascimento. Acredito que, desde agora, já se começa um repensar de atitudes perante o outro, perante os que estão próximos, perante a vida, diante das relações com o trabalho, com o lazer. Tudo está passando por redefinições e necessita de um olhar aguçado sobre cada detalhe dos nossos comportamentos no dia a dia. Com certeza, nenhum de nós será o mesmo. Alguns emergirão mais confiantes. Outros, talvez fiquem, por um bom tempo, ainda sob o efeito de protocolos extremos de segurança. Porque, enquanto não for descoberta uma vacina, ainda seremos reféns desses cuidados de higiene, alimentação e rotinas de vida em geral. Nesse cenário, não vislumbro, ainda, grandes festas. Apenas quando estivermos em absoluta segurança, pelo menos diante desse vírus, poderemos arriscar alguma celebração. Mas, tendo a consciência de que, em nosso país, infelizmente, esse vírus não é o nosso único mal. Padecemos de doenças cruéis no nosso arcabouço político e econômico que conspiram, a olhos vistos, contra a nossa dignidade de cidadãos do bem.
 
Assim, durante muito tempo, a arte deverá entrincheirar-se no bom combate a outros vírus que nos assolam e nos tiram a paz. Só depois de vencermos a pandemia e a “doença Brasil” é  que poderemos, nos festivais literários,  nas bienais de livros e nos saraus, entoar as canções todas que, por enquanto, estão represadas em nossa garganta.