Ana Carolina Monte Procópio

28/10/2019
 
 
INSTRUMENTOS DE PAZ
 
 
 
Louvado sejas, 
meu Senhor, 
por todas as tuas criaturas.
CÂNTICO DAS CRIATURAS – Francisco de Assis
   
Na cidade italiana de Assis, no início do século XIII, um jovem rico, sociável, alegre, amante de festas e diversões, filho de um próspero negociante da cidade, após uma áspera discussão com o pai - que lhe cobrava atenção aos negócios e condenava o modo de vida mundano que estava praticando -, entregou-lhe tudo o que tinha, inclusive as roupas que estava usando e despediu-se da vida abastada que havia experimentado até então, entregando-se a uma radical vivência do Evangelho de Cristo. Nesse momento, disse ele que não mais chamaria de pai ao senhor Pedro Bernardone, seu genitor, mas sim a Deus.  Francisco Bernardone passava para a História como Francisco de Assis. 
 
Ao se despedir da vida de riquezas materiais, Francisco adotou a pobreza como irmã, como a definiu, retirou-se do centro urbano e passou a viver em espírito de humildade, frugalidade, amor e alegria em meio à natureza. O desapego dos fartos bens materiais de que desfrutou por toda a vida produziu em Francisco um sentimento de genuína liberdade. Sem ter a que se apegar, estava disponível e sem amarras para cumprir a missão que escolheu. A pobreza quase ascética, a radical submissão ao texto do Evangelho encontrou em Francisco um fiel seguidor. PAZ E BEM era a saudação dele para com todas as pessoas. Pode-se dizer que Francisco praticou, com fidelidade, a Teologia do Amor ensinada pelo mestre Jesus Cristo. 
 
E esse amor, tão falado por todos que com ele conviveram, que está presente nos textos e biografias a seu respeito, era um sentimento universalista. Ele amava não só os demais seres humanos, como todos os animais e toda a natureza. Para ele, tudo o que existia era criação divina e mereceu seu profundo respeito e cuidado. Foi por essa razão considerado o primeiro ecologista. A todos os seres, animados e inanimados, a todas as manifestações da existência, Francisco chamou de irmão e irmã. Irmãos eram os animais, o vento, o sol, a lua, a água e até a morte. Entre os irmãos humanos, Francisco dedicou-se especialmente aos mais pobres, mais desfavorecidos, doentes, leprosos, aos excluídos da sociedade do seu tempo. 
 
Além dessa faceta muito conhecida de sua vida, Francisco teve também o protagonismo de gestos e iniciativas que surpreendem mesmo nos dias atuais. Uma delas: Francisco participou da V Cruzada e, encontrando-se no Oriente Médio com o sultão do Egito, propôs conversar com ele e conseguiu, em um exercício de diplomacia, um pacto de não-violência e que seus discípulos pudessem andar livremente pelo território, desde que sem armas. Francisco de Assis também defendeu a oposição de consciência para os jovens que se recusassem a participar de guerras frequentes entre cidades vizinhas naquele tempo histórico.
 
Francisco foi um homem do seu tempo, mas muito à frente dele. Vivendo em suas circunstâncias, ele mansamente as transformou de maneira profunda.
 
A mensagem radical de desapego de Francisco ecoou, mais de oito séculos após, em outro missionário, também um instrumento de paz: o cardeal argentino Jorge Bergoglio que, eleito papa, escolheu pela primeira vez na História da Igreja usar o nome pontifício Francisco. O motivo de tal escolha foi justamente seguir o exemplo do abnegado santo que viveu o desprendimento dos bens materiais mas, muito mais do que isso, que escolheu a paz, a humildade, a simplicidade e a entrega amorosa como divisas. 
 
Oitocentos anos depois de Francisco de Assis, a Igreja Católica volta o seu olhar para os desfavorecidos, para os humilhados da sociedade, para os mais fragilizados e lhes acolhe novamente. O papa Francisco repete, como Francisco de Assis, os abraços naqueles que a sociedade se recusa a abraçar. É inspiradora a semelhança entre os dois homens. É nítida em ambos a prática do verso do Francisco de Assis que roga a Deus, na célebre Oração de São Francisco: Onde houver ódio, que eu leve o amor!
 
Laudato Si. Louvado Seja. Este é o nome da encíclica escrita pelo Papa Francisco em 2015 e que tem como subtítulo e tema ‘o cuidado da casa comum’. Essa encíclica fala da relação do ser humano com a Terra, a natureza, com os demais seres e a necessidade de cuidar do planeta e, não por acaso, recebeu como título um verso do belíssimo Cântico das Criaturas, escrito por Francisco de Assis.
 
Há textos que, quando são escritos, parecem não provocar muita atenção ou não causar muita consideração. Só depois, com a distância proporcionada pelo tempo, é que alguns documentos ganham a dimensão que verdadeiramente têm. Talvez sejam muito vanguardistas pra sua época, certamente não entendidos em sua complexidade e em sua completude. Creio que seja este o caso dessa Encíclia Papal Laudato Si. A partir do título, já é um material surpreendente. E o é muito mais ao longo da leitura, a qual recomendo vivamente, para todos quantos se interessem pelos assuntos do planeta em que coabitamos. 
 
Inicialmente, dois aspectos merecem realce na Encíclica Laudato Si. Primeiro, é um documento direcionado não apenas aos fieis católicos, mas a todos os seres humanos do planeta. Isso, por si só, já é uma atitude muito inovadora, pois mostra um líder que não se volta apenas ao seu rebanho de fieis religiosos, mas que entende a humanidade como um só e grande grupamento humano, independentemente do credo que professe cada um ou mesmo a ausência de qualquer fé. A mensagem é universal, transcende as verdades absolutas com que muitas religiões se digladiam. Papa Francisco chama a todos, convoca os seres humanos da Terra a meditar e agir sobre o cuidado da casa comum.  
 
Outro ponto de grande relevância é o sentido de ecologia integral que é reafirmado muitas vezes no texto. A ecologia de que trata o chamado papal não se refere apenas ao cuidado com a natureza, mas a uma concepção dela como um ser vivo, como um sujeito e não um objeto deixado aos caprichos e desmandos humanos. Essa ecologia integral faz mais: conclama a humanidade a um refazimento de caminhos, à prática de uma “solidariedade universal” (item 14). O texto, além de bem contextualizar a situação dramática causada ao meio ambiente em razão da ação humana, também exorta a humanidade a um questionamento sobre ética e responsabilidade. Não é apenas a ação humana sobre o planeta que é trazida à tona, mas a própria interação entre os seres humanos e os modelos em que tais relações se fundam. 
 
“Tudo está interligado.” (item 117). “Não se pode exigir do ser humano um compromisso para com o mundo, se ao mesmo tempo não se reconhecem e valorizam as suas peculiares capacidades de conhecimento, vontade, liberdade e responsabilidade” (item 118). “Se a crise ecológica é uma expressão ou uma manifestação externa da crise ética, cultural e espiritual da modernidade, não podemos iludir-nos de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais.” (item 119).
 
O Papa Francisco tem uma concepção profunda da interrelação entre as vivências humanas e entre elas em relação à natureza. Como ele mesmo afirmou, está tudo interligado. E é sob prisma de uma renovação ética, axiológica e inclusiva que será possível pensar em proteger e cuidar da casa comum. 
 
Que venham mais Franciscos para sacudir e transformar as estruturas do nosso mundo. E acima disso, que sejamos todos nós também instrumentos de paz.