Ana Carolina Monte Procópio

06/04/2020
ÁGUA SALGADA
 
 
A cura para tudo é sempre água salgada:
suor, lágrimas ou o mar.
(Isak Dinesen)
 
 
Quando pensei em escrever esse texto, lembrando-me desse pensamento maravilhoso da escritora Isak Dinesen, estava pensando no mar, na cura que ele traz. Era o fim do ano e as habituais oferendas a Iemanjá, que muito respeito, já se prenunciavam, tendo o mar como cenário. Bem, naquele momento escrevi sobre outro tema. E agora, quando me lembrei desse pensamento como mote para um texto, pensei que neste instante a cura talvez esteja nas lágrimas. 
 
O mundo vive uma nova pandemia desde a Gripe Espanhola, no ínicio do século passado, que matou mais de 50 milhões de pessoas entre 1918 e 1920. Em 2009 também foi declarada pandemia de H1N1, mas não se fez sentir como uma ameaça fatal sobre todo o planeta como está ocorrendo agora dada a rapidez e facilidade do contágio. 
Nesse cenário de medo, uma percepção que vem à tona é que estamos realmente no mesmo barco. Em todos os continentes, nos mais diferentes cenários, diante da morte de um ente querido sente-se a mesma dor. Somos iguais no sentir, somos todos feitos da mesma fibra e do mesmo espírito. Essa condição tão óbvia parece que vem revestida de surpresa para tantos. Nosso sentimento de separação do “outro”, nossa falta de alteridade agora se dissolve na fragilidade e medo comuns. 
 
No belíssimo livro De Profundis, Oscar Wilde afirma que “onde há dor, o território é sagrado”. Sim, e é essa sacralidade que estamos percebendo agora na vida, a partir do sofrimento causado pelo isolamento, solidão ou falecimento de alguém que amamos, ou mesmo pela perda temporária da possibilidade de viver a vida em todas as suas dimensões.
 
Talvez o sentimento mais corrente hoje seja o de medo. Estamos todos com medo, alguns de forma mais intensa e explícita, outros de maneira mais velada. Mas sabemos que estamos todos com uma espada suspensa por um fio sobre nossas cabeças. Lidar com esse medo que se tornou companhia constante nos faz refletir sobre a fragilidade e brevidade da vida. Tempus fugit, o tempo foge. Das distantes aulas de literatura no então 2º grau (hoje ensino médio para que os mais jovens entendam), vem a recordação dessa expressão, muito utilizada na escola literária do arcadismo, que tanto me encantava (lembram do poema sobre Marília e Dirceu?). Sim, o tempo foge e a consciência de sua fugacidade é real e quase palpável. Medo de que o tempo, que sempre foge, esteja chegando ao seu termo. Não sabemos, realmente não podemos prever o que virá. Podemos apenas nos prevenir, cuidar de nós mesmos e dos demais e aprender a conviver com a angústia que é a presença permanente. Como uma hóspede que não foi convidada, ela entrou em nossas casas e não se sabe quando vai sair. 
 
Uma palavra que tem sido muito utilizada nestes tempos de pandemia é ressignificar. Quem já não leu algum texto que fale sobre isso? Então, mesmo com o risco de ser clichê, falemos sobre. Ressignificar se traduz, pois, nesse novo pensar sobre si, sobre o outro e sobre como estamos vivendo. A pressa da vida que levávamos até há tão pouco tempo hoje parece inútil e sem sentido. Sempre sem disponibilidade para os seres que mais amamos, agora somos efetivamente impedidos de vê-los, para segurança de todos. Que vontade das barulhentas e risonhas reuniões em família! Como o simples é bom. Na verdade, é o essencial. 
 
Algo que tem sido também um lugar comum é o pensamento de que nada será como antes. Concordo com essa ideia. Não se vive uma situação de pandemia dessa natureza sem que algo se altere dentro de nós, sem que revisemos profundamente nossa escala de valores e prioridades. 
 
O novo coronavírus, além de toda a dor e pânico que vem causando, também traz valiosas lições a serem aprendidas. Espero que consigamos e que passemos a enxergar a vida, finalmente, como o presente que é.