Ana Carolina Monte Procópio

08/02/2021
 
 
FIM DE VERÃO
 
 
“Mas como tudo que vive
Não desiste de viver,
Fevereiro não desiste:
Vai morrer, não quer morrer.
(...)
Sim, fevereiro resiste
Como uma fera ferida.
É essa esperança doida
Que é o próprio nome da vida.
 
Vai morrer, não quer morrer.
Se apega a tudo que existe:
Na areia, no mar, na relva,
No meu coração – resiste.”
 
                              Verão – Ferreira Gullar
 
Fim de verão, a vida útil é retomada (quase) plenamente na cidade semi-isolada, ainda no auge de uma pandemia que está prestes a completar seu primeiro ano.
 
Uma das instituições tradicionais da cidade é o veraneio e lembro dos que passei, que foram os da infância e início da adolescência, na casa de tios queridos e primos-irmãos em Pirangi. 
 
O veraneio tinha então um sabor peculiar, familiar, de reunião. Ano após ano, as mesmas famílias estavam ali nas mesmas casas e cada dezembro era um reencontro com algumas pessoas as quais somente se viam nesse período. Era como uma suspensão da vida cotidiana, da rotina escolar e afazeres de criança para um intervalo que durava quase três meses e no qual se viviam, anualmente, sonhos modificados pelo amadurecimento. 
 
Crianças se tornaram adolescentes e depois jovens adultos e a cada fim de ano era uma surpresa rever os veranistas tão conhecidos mas tão modificados. As brincadeiras à beira-mar se transformaram nos jogos de vôlei dos mais crescidos; os castelos construídos com areia molhada e levados pelas primeiras ondas da maré crescente tornaram-se os primeiros idílios amorosos; relações duradoras foram formadas a partir do vaivém dos passeios na praia nos fins de tarde. 
 
Pique-pega, pão quente e esconde-esconde; anos depois serestas com violão eram dedicadas às musas, e nelas as músicas mais tocadas eram Dia Branco, de Geraldo Azevedo e Canteiros, de Fagner. 
 
Dias brancos sim, dias de muito sol, praias limpas, gente amiga. Em que não havia ainda o conhecimento sobre os riscos do excesso de sol e a única proteção disponível era uma grossa camada de hipoglós no nariz e abaixo dos olhos, noskote nos lábios e rayito de sol, um creme argentino, para as mais crescidas e que gostavam de pegar um belo bronzeado. Todos muito vermelhos nos primeiros dias, rostos brancos de pomada por quase todo o verão e assim, sem glamour, mas com muita graça, viviam-se meses de puro prazer. 
 
Sem internet, redes sociais e fotos, a delícia era mesmo conviver, conversar, brincar, jogar, trocar ideias. À tarde, esperar pela Kombi do pão e, com sorte, comer um delicioso sonho, coberto de açúcar cristal que enchia a boca de prazer e o corpo de alegria. Ainda não havia dieta low carb na época! Os hábitos alimentares altamente calóricos eram compensados por atividades o dia todo, o tempo era passado fora de casa, o convívio era a lei. 
 
Primeiras festas na APURN, primeiros carnavais – Banda do Cajueiro, blocos, fantasias, pele bronzeada e a despedida do verão de cada ano. O Carnaval era a oficialização do fim do veraneio e deixava um gosto forte de quero mais e de até mais ver. E no ano seguinte, todos com novas expectativas, um ano mais velhos, tudo recomeçava. 
Com o tempo, foi-se alterando essa característica. Começou a fase dos megashows, praia muito cheia, internet, celular, outra linguagem, outras práticas. A impermanência é inevitável, há que se aprender com ela a vivenciar novas realidades. Novas gerações vieram, filhas daquela em que convivi. Nesse momento, há muito que já não vivia mais um veraneio, como o é até agora. 
 
Mas hoje, de volta à casa dos verões da infância, senti de novo aquele gosto bom dos anos ali passados. Velhos hábitos e prazeres simples, em que o mais importante é simplesmente o estar juntos. As mudanças impostas pela pandemia do COVID-19 alteraram muitas realidades, especialmente no que diz respeito ao convívio social.
Forçosamente nos isolamos e tivemos que rever práticas sociais para continuarmos vivos. E é claro que o veraneio não escapou dessa mudança. Sem as opções de aglomeração, houve uma volta às coisas simples, aos passeios à beira-mar, aos encantos de estar na praia e ao prazer de uma boa conversa, ao delicioso convívio direto, não permeado pela tecnologia. 
 
Verão que finda, mas que deixa no coração essa saudade deliciosa das coisas boas vividas e, de forma tão fugaz, revividas em um breve domingo de fevereiro.