Ana Carolina Monte Procópio

20/06/2021
 
Até mais ver, amigo Pinto Júnior
 
 
 
“Porque se chamavam homens             
também se chamavam sonhos                                                                                                                         
 e sonhos não envelhecem.”
                            (Clube da Esquina nº 2 – Lô Borges)
 
Meu querido amigo Pinto Júnior encantou-se. Deixou tão cedo este mundo que queria tanto ver diferente, agora continua em outro plano seu bom combate.
 
Homem de coração bom, sorriso largo, palavras gentis, escuta acolhedora, Pinto Jr. foi gigante em seu humanismo. A ele se aplica perfeitamente a máxima “nada do que é humano me é estranho”, do autor romano Terêncio, e frequentemente citada por Marx. Sim, o ser humano era o referencial primeiro do amigo que partiu. 
 
O menino que foi submetido, por necessidade, à realidade dramática do trabalho infantil que tira de muitas crianças do sertão nordestino o direito e a possibilidade de frequentar a escola e que, por isso, foi alfabetizado tardiamente trouxe por toda a vida o sentimento de empatia e da mais funda compaixão com a dor humana. Dedicado a causas sociais e humanitárias, ele sempre encontrava uma forma de ajudar, cooperar, apoiar iniciativas, juntar pessoas em torno de uma ideia. Um grande fomentador do bem é o que o amigo foi, entre tantos outros papeis bonitos que vivenciou em sua jornada.
 
Falar da morte de uma pessoa remete, por outro lado, a sua vida. E cabe a pergunta: essa vida teve um sentido? Penso ser uma bem-aventurança quando se diz sim a essa pergunta a respeito da existência de alguém. Com relação a Pinto Jr., a resposta é, sem dúvida, SIM. Ele, que construiu uma trajetória de superação, escolheu um lado e nunca se afastou dele. Em sua trajetória acreditou na utopia de possibilidade de transformação do mundo. E digo utopia aqui não considerando inexistente esse lugar (u-topos = lugar nenhum), mas no sentido que lhe deu Eduardo Galeano, quando considerou que a utopia era o que fazia caminhar. Como um Quixote contemporâneo, Pinto Jr. transitou incansavelmente pelos temas políticos, econômicos e sociais, fazendo acontecer, promovendo encontros, escrevendo com maestria e perspicácia, entrevistando pessoas dos mais diferentes pontos de vistas, sempre prezando pela pluralidade de pensamento e pelo livre e respeitoso debate de ideias. Entrevistador primoroso e atento, sempre conseguia ir ao ponto mais importante do tema em discussão, de forma suave e inteligente, encantando entrevistados, ouvintes e espectadores. No silêncio de sua abnegação, dedicava-se grandemente a causas sociais, educacionais e culturais. Amava os livros, a música, o cinema, a poesia. Amante da vida, intensamente humano.
 
Perder esse ser humano tão pleno já é em si motivo de muita tristeza. Mas ter sido sua morte causada pela Covid-19 enche o coração de revolta. Essa morte, como outras centenas de milhares, poderia ter sido evitada se a opção do governo à frente do Brasil hoje fosse pela vida e pelo humano. Como, ao contrário, o Brasil vive regido pela necropolítica, por um sentimento amargo que se regozija com o mal e com a dor, que se enche de êxtase ao contemplar pestes como doença, fome, sofrimento e morte, indignação é o substantivo mais suave para nominar o que se sente agora, mormente quando o Brasil atingiu a marca de 500.000 mortos pelo vírus. Que sua morte, como a de tantas outras pessoas queridas que cada brasileiro certamente já experimentou, seja motivo de mais luta para restaurar um país em que a dignidade humana seja o valor primordial. 
 
Quando uma pessoa amiga e importante se vai, aflora o sentimento de ausência. Mas como pode estar ausente o que mora em nós? Os grandes encontros humanos, como o são as amizades verdadeiras, não passam sem deixar e levar um pouco de cada um. Não somos a soma de tudo o que foi vivido, sentido? Quem mereceu ser chamado de amigo deixou sua marca e levou também algo consigo. Não há ausência, a presença é permanente.
 
A esse respeito, Santo Agostinho proferiu palavras sábias e belas, quando disse que: 
 
“A morte não é nada. 
Eu somente passei 
para o outro lado do caminho. 
...
A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?
Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho.”
 
Se é assim, estamos apenas em margens opostas de um mesmo rio, o rio da existência.  
 
A língua italiana tem uma forma muito bonita de dizer tchau, até logo. Lá diz-se arrivederci, que significa, em tradução livre, até que nos vejamos novamente. Se é verdade que não morremos, só partimos antes, então cabe dizer: Arrivederci, caro amigo.