Kalina Paiva

Professora, Escritora e Pesquisadora da área literária.

07/06/2024 09h23
Um dos mitos do amor
 
Abro o mês de junho, prestando reverência ao amor com “A mulher esqueleto”, um antigo mito do povo inuíte, popularmente conhecido como esquimó, originários do Canadá, do Alasca e da Groenlândia. A escolha se deu menos pelo aspecto geográfico e mais pelo fato de, nessa forma de narrativa, encontrarmos ensinamentos em suas camadas mais profundas sempre que ouvimos ou lemos, embora muitos acreditem que mito é história para ninar crianças.
 
“A mulher esqueleto” chegou até mim pela recolha da Clarissa Pinkola Estés, uma psicóloga junguiana que escreveu “Mulheres que correm com os lobos”. Situou? Essa história está lá. 
 
Sem querer testar a ansiedade de quem estiver lendo esse texto, antes de trazer a narrativa, preciso deixar uma recomendação. Em literatura, campo do simbólico, as imagens guardam sinalizações, funcionando como chaves de leitura, isto é, abrem caminhos para desvendarmos esses textos predominantemente figurativos. Vou explicar de outra forma: nesse tipo de texto, as palavras concretas (figuras) são revestidas de conceitos (temas). De posse dessa leitura do universo figurado, construímos o sentido, descobrindo quais temas as figuras revestem. Quer ver? Acompanhe, então, a narrativa em fôlego único no próximo parágrafo.
 
Créditos: Mulher esqueleto criada por IA, programa Copilot.
 
A história narra que uma filha desobedeceu ao pai, enfurecendo-o. Tomado pela ira inconsequente, o pai pune a jovem, empurrando-a de um penhasco sobre um rio. Ela morre e seu corpo fica submerso no rio, preso nas profundezas. A partir daí, pescadores começam a relatar aparições de uma mulher no local – fato que o torna amaldiçoado. Com o passar do tempo, porém, um pescador decide ir ao local para pescar, mesmo sabendo que era tido como mal-assombrado. Ao chegar lá, lança seu anzol que captura algo pesado, criando nele boas expectativas. Contudo, a felicidade logo se transforma em pavor quando, ao puxar a linha, depara-se com um esqueleto nela emaranhado. Com o susto, o homem rema o barco e corre para se refugiar em seu iglu sem perceber que, durante o percurso de volta, aqueles ossos o perseguiam atados ao seu instrumento de pesca. Quando finalmente chega ao seu lar, acende uma lamparina e percebe que a mulher esqueleto veio junto, enredada na linha do seu anzol. Ele respira até se acalmar, observa o amontoado de ossos. Paulatinamente, vai perdendo o medo, desenrola os ossos dos fios delicada e vagarosamente. Depois, estende-os ao seu lado, na cama, cobrindo-os com uma pele e adormece. Enquanto dorme, uma lágrima cai de seus olhos tornando-se a água que sacia a sede da mulher esqueleto. Ela arranca o coração dele, toca-o como um tambor e canta até que o corpo dela crie cabelos e carne e pele, voltando à vida. Por fim, devolve o coração dele, deita-se rente ao corpo, aquecendo-se. Eles seguem abraçados, enredados, de um jeito bom e duradouro.
 
Esse mito começa com um acontecimento impactante, um filicídio. A maldição se constrói dadas as circunstâncias da morte da jovem. Contudo, como estamos em terreno simbólico, essa personagem volta à vida. Aliás, a narrativa – entre tantas lições – nos ensina sobre vida-morte-vida. Por mais absurdas que as imagens pareçam, elas cumprem uma função de trazer verdades e ensinamentos.
 
Platão falava que a História é uma verdade que, depois, se revela uma mentira, enquanto o mito é uma mentira que revela verdades. Certamente, porque o tempo, essa grandeza inexorável, é o que traz à luz novos elementos para reconstituição de narrativas. O mito é a única que sobrevive a Cronos, já a História é por ele devorada, à medida que novos fatos são trazidos à tona.
 
E o que o amor tem a ver com isso? Tudo, pois o sentimento “tem que morrer para germinar”, como bem cantou Gilberto Gil na canção Drão. O pescador precisou enfrentar a maldição que diziam cercar aquele lugar. É dessa forma que ele sai de sua zona de conforto para pescar em águas cuja superfície aparentemente calma esconde a correnteza em suas profundezas. Foi das profundezas que o amor e a vida ressurgiram, por isso mesmo não devemos temer fundo do mar, de rio ou de poço. Há vida, muita vida em nosso subterrâneo psíquico.
 
O espanto do pescador é algo também digno de observação. Ao se deparar com a imagem de um esqueleto, na verdade, daquilo que nos tornaremos um dia, o susto foi inevitável. Depois, ele correu, tentou fugir do amor. Quem nunca fez isso (sobretudo os que já passaram por términos - e todo término é doloroso), que atire a primeira pedra.
 
Somente quando esse homem amedrontado “respira”, consegue raciocinar até ter a atitude de separar os ossos dos fios. Aqueles ossos, vestígios da vida, constituíam um ser humano igual a ele. Apenas, ele ainda não o enxergava assim. Reflexão, paciência, atitude, aconchego... tudo leva tempo até que os ossos se revistam de carne e o peito carregue um coração para amar novamente. O segredo é cantar sobre eles até que voltem à vida.
 
Como bem cantou o poeta mineiro Carlos Drummond no poema Campo de Flores, belíssimo e sutil: “Mas, porque me tocou um amor crepuscular, / há que amar diferente. De uma grave paciência / ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia / tenha dilacerado a melhor doação. / Há que amar e calar. / Para fora do tempo arrasto meus despojos / e estou vivo na luz que baixa e me confunde.
 
Com o mito e o trecho do poema drummondiano devidamente entrelaçados como a alma dos amantes, declaro aberto o mês do amor: junho.
 
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Sobre mim
Kalina Paiva, professora do IFRN - Campus Natal-Central, é natural de Natal/RN. É autora de poesia e contos de terror. Gatilhos Poéticos (2022), Cantigas de amor e guerra (2023) são seus livros mais recentes. Membro da União Brasileira dos Escritores - Seção Rio Grande do Norte (UBE/RN), da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do RN (SPVA), do Mulherio das Letras Nísia Floresta, e da Associação Literária e Artística de Mulheres Potiguares (ALAMP); Coordenadora de Letras e Literatura do Movimenta Mulheres RN. É pesquisadora na área de Literatura, História e memória, e mídias. Instagram: @kalinissima

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