Marilia Kubota: ´Ainda existem barreiras para se divulgar livros de escritoras`

05/04/2021

Por: CEFAS CARVALHO
 
 
Escritora, poeta, jornalista e mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, Marilia Kubora é paranaense e autora de diversos livros, como Velas ao vento (Medusa, 2020), Eu também sou brasileira (Lavra, 2020), Bicicletas caiçaras (Edição da autora, 2020), Diário da vertigem (Patuá, 2015), micropolis (Lumme, 2014), Esperando as Bárbaras (Blanche, 2012) além de organizadora das coletâneas Um girassol nos teus cabelos – poemas para Marielle Franco (Quintal, 2018),  Blasfêmeas: Mulheres de Palavra (Casa Verde, 2016) e   Retratos Japoneses no Brasil – Literatura mestiça (Annablume, 2010).  Marilia milita no coletivo literário Mulherio das Letras. Em entrevista ao Portal PN, falou sobre identidades, feminismo e literatura. Confira:   
 
 
Marilia, você publicou diversos livros de poesia. O que difere um do outro e qual a visão que você tem hoje de sua obra poética?
 
Até hoje eu publiquei três livros de poesia: “Esperando as bárbaras”, “micropolis” e “Diário da vertigem”. Quando eu os publiquei , não me preocupei com a unidade temática, então os três têm diversidade  : poemas sociais, existenciais, metalinguísticos. “micropolis” é um livro que simula a forma de haicai, quando eu ainda estava conhecendo esta forma poética.  Não acho que três livros configurem uma obra poética. Para mim, escrever ainda é um exercício de experimentação. O “Velas ao vento”, meu quarto livro de poesia, que lanço este ano, apesar de girar sobre as questões da ancestralidade e identidade cultural, também se configura como  obra experimental. 
 
 
 Você organizou coletâneas como “Um girassol nos teus cabelos – Poemas para Marielle Franco”,  em 2018,  “Blasfêmeas: Mulheres de Palavra”, em 2016 e “Retratos Japoneses no Brasil – Literatura Mestiça”, em 2010. Fale sobre esses projetos e a importância de se reunir pessoas da literatura em publicações com temas relevantes.
 
As três coletâneas têm em comum a questão da identidade. “Girassol” e “Blasfêmeas” reúnem poemas de mulheres escritoras. “”Retratos”, contos e crônicas de escritores asiáticos nascidos no Brasil. As coletâneas  são projeções do impacto dos acontecimentos.  “Girassol”, pela comoção do assassinato de Marielle, “Blasfêmeas”, como uma ideia da outra curadora, a professora Rita Lenira Bittencourt, de reunir poemas de mulheres. Já o “Retratos” nasceu da amizade com alguns escritores asiáticos. Coletâneas ainda continuam sendo um motivo para reunir poetas e escritores de diferentes cantos do país e do mundo. Para os novos autores, podem ser uma porta de entrada para o universo da literatura, ou para entrar em outros países. 
 
 
 Sobre a relação geográfica entre a autora e a escrita, em que o fato de nascer e morar no Paraná impacta sua literatura? Se não morasse em Curitiba, onde escolheria no país morar e produzir literatura?
 
Sou autora paranaense deficiente, no sentido  de cantar a  terra natal. Não escrevo sobre araucárias e gralha azul, ícones  do estado.  Me sinto exilada de Curitiba e do Paraná, ao mesmo tempo que paradoxalmente, dedico  grande afetividade aos lugares em que moro. Não tenho desejo de morar em outra cidade. Qualquer cidade é boa para escrever. Para escrever, só é preciso ter um quarto fechado, como dizia Virgínia Woolf.  
 
 
Existe uma cena literária paranaense atualmente? Por falar no assunto, você percebe "cenas literárias" pelo país ou a produção está individual e difusa?
 
Quando eu orientei oficinas pela Fundação Cultural de Curitiba, eu tinha mais contato com os poetas e escritores da cidade. Nunca fui adepta a participar de grupos literários, a não ser de escritoras. As redes sociais criaram condições para muitos escritores se conhecerem e encontrarem. Mesmo dentro de grupos, o trabalho de criação do  escritor continua sendo solitário. Participar de um grupo é bom para divulgar o trabalho.  
 
 
Você publicou recentemente um livro, "Eu também sou brasileira", sobre suas raízes nipônicas e a percepção que as pessoas têm sobre os descendentes de japoneses. Como foi o processo de escrever e publicar esse livro?
 
Eu já escrevia crônicas há tempos, em meu blog. Daí, decidi publicar um livro. Reescrevi todas as crônicas. Como eestava envolvida com um grupo de estudos sobre identidades asiáticas, resolvi pinçar o tema em algumas crônicas. Ainda é difícil a percepção de que os povos asiáticos,  descendentes de avós e pais japoneses, chineses, coreanos, indianos, árabes, são brasileiros. A nossa vivência é a de ser estrangeiro, ou viver em comunidades étnicas, até como forma de defesa ao conviver com descendentes de europeus brancos. O meu livro trata sobre questões de identidade, de ancestralidade - revisito histórias de meus antepassados e da cultura e do  legado cultural. Também falo sobre feminismo, política e viagens.  
 
 
 Você faz parte do coletivo Mulherio das Letras, que vem se impondo de maneira poderosa no cenário literário há uns anos, com encontros presenciais e virtuais. Como observa o impacto do Mulherio sobre a cena literária, sobre como os homens percebem a literatura feita por mulheres e sobre as próprias participantes do coletivo?
 
Desde 2017, participo do movimento Mulherio das Letras. Fiquei contente por conhecer  escritoras que, sem o movimento, jamais teria contato. De certa forma, os encontros e grupos acabam derrubando muros. Mesmo com as redes sociais, ainda existem barreiras para  divulgar livros, se a autora não for publicada por grande editora. E ainda que seja publicada por grande editora, pode não ter divulgação suficiente. Os divulgadores continuam sendo, em sua maioria, homens que privilegiam o trabalho de outros homens. Por isto é importante a construção de uma rede de autoras. E que mais pesquisadoras estudem autoras, para que as obras de mulheres sejam reconhecidas e perpetuadas na história, como vemos acontecer agora com a redescoberta de Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus. Estamos assistindo a uma transformação gradual do cânone literário e este fenômeno é extraordinário.