Bia Crispim

14/08/2020
 
Marília Mendonça esqueceu-se...
 
 
Sábado passado, 08 de agosto, a cantora Marília Mendonça fez mais um show-live para seus fãs e seguidores. A live corria bem até o momento em que ela iniciou uma narrativa sobre um dos integrantes de sua banda que supostamente teria ficado com uma garota trans na extinta boate Diesel em Goiânia, boate essa conhecida por ser frequentada pelo público LGBTQIA+.
 
Em meio a risos, frases debochadas e um preconceito escancarado, ela e seus músicos estavam, naquele momento, ridicularizando a relação entre um cara cis e uma mulher trans. Como se o envolvimento de um homem cisgênero com uma pessoa transgênero fosse motivo de chacota ou mote para deslegitimizar esse tipo de relação.
 
O mais grave dessa história é que a cantora, sendo mulher, se apropriou de um discurso machista, transfóbico, cheio de “tiração de onda”, muito comum nas rodas de conversa masculinas, em que o falocentrismo, a masculinidade tóxica e a objetivação da mulher são temas recorrentes e que alimentam toda essa opressão vivenciada por todas as mulheres. TODAS!
 
Parece que Marília Mendonça esqueceu-se de que era mulher;
Esqueceu-se que sendo trans, gorda, preta, magérrima, nariguda, sem bunda... enfim, uma mulher fora do padrão, uma mulher será sempre motivo de chacota nas resenhas de homens.
 
Pausa pra resenha:
(...)
- Aiiiiií, ficou com a gordinha!
- Hahahahahaha!
- E você que pegou aquela que parecia uma tábua...
- Sobrou pra mim a criolinha... Eu não ia era perder a viagem...
(...)
 
Marília Mendonça esqueceu-se de que, sendo também vítima, ela deveria estar do lado das vítimas, e não dos algozes.
 
Esqueceu-se de que a piada também era com ela e com tantas outras mulheres.
 
Esqueceu-se de que estar numa roda de homens fazendo piada sobre uma mulher (transgênero, nesse caso), só contribui para aumentar o estigma de que a travesti e a mulher trans é só “puta” de descarte. Sem direito a “affair” e/ou “love is in the air”.
 
Esqueceu-se que esse descarte, não é só o descarte depois do sexo, é o descarte social, o descarte humano... O descarte que legitima nossos corpos retalhados, perfurados, encontrados nas sarjetas, nas valas, no fundo dos rios, como foi o caso de Alice Garrefa, mulher trans cujo corpo foi encontrado no Rio Piracicaba dia 11 desse mês.
 
Marília Mendonça esqueceu-se da sororidade que nos une e que deve ser vivenciada e partilhada por todas as mulheres, pois somos alvos fáceis de um sistema pratriarcal e tirano que nos objetifica e nos oprime enquanto seres femininos. Marília Mendonça esqueceu-se de se colocar no lugar do outro, esqueceu-se de que tem fãs trans, esqueceu-se de tanta coisa... É, Marília Mendonça esqueceu-se...