Bia Crispim

04/12/2020
Oceano particular
 
 
Essa semana trago um texto de outrora... Uma brincadeira com meu elemento formador...
 
Uma vez me disseram que eu era um oceano particular. 
 
- Particular? – perguntei; e responderam-me: - Sim, porque é para poucos. Falaram-me ainda em navegar e usufruir e isso tudo me deu muito o que pensar...
Realmente sou um oceano, sou água, fluídica, densa ou cristalina, calma ou intempestiva.
 
Já me puseram num aquário, já me tornei tsunami, já escorri lentamente como garoa, já desabei como tormenta.
 
Sim, sou oceano, definitivamente. Sou água, muita, que aquece ou esfria, que se movimenta sinuosa ou bravia, que rebenta na praia como ondas, ou traga os desavisados em dia de ressaca.
 
Como sou água! Mar! Oceano!
 
Às vezes um oceano de doçura, às vezes salgada, azeda, imprópria.
 
Sou oceano chorando, sou oceano sorrindo, sou água andando (sou rio?), sou água trabalhando... Movo moinhos...
 
Posso ser silenciosa ou barulhenta, límpida ou escura.  Às vezes espumo, às vezes reflito. Posso ser navegada, sim, desfrutada também...
 
Mas, não esqueça, sou oceano, posso naufragar você, ou guardar surpresas de mar, de água. (Traiçoeira? Não! Você é quem não deve se afoitar demais). Escondo segredos, mistérios, naufrágios, Triângulo, seres abissais e deuses.
 
Posso ser sereia e encantar e seduzir e depois matar. Concordo, plenamente, que sou oceano. Concordo, realmente, que sou particular. Meu mar rebenta em poucas praias, debruça-se em poucas costas.
 
Mas sei que fui feita para ser de ninguém. Sou água, sou fluídica, escorrego por entre os dedos.
 
Tentar controlar o oceano é perigoso. Tentar prender-me pode ser perigoso. O aquário pode quebrar,  a barragem romper, e nessa hora você verá minha fúria e o meu poder.
Sou água, sou oceano, sou enigma.
 
Quem irá me navegar?
 
Quem irá me usufruir?
 
Quem naufragará em mim?
 
Você?
 
Espere a calmaria, escolha ficar nas margens, sinta ainda areia sob os pés. Porque se você resolver nadar e se encontrar envolvido de água por todos os lados... 
Coitado!, terei feito de você propriedade minha, e em mim esperarei que você dissolva-se.
 
Dissolva-se neste oceano que agora é seu!